Tiamat
Tiamat é uma das principais divindades das mitologias suméria e babilônica, associada às águas salgadas do oceano primordial. Ela forma um par cosmogônico com Apsu, que representa as águas doces subterrâneas. Juntos, simbolizam as forças primordiais que deram origem ao universo e às primeiras gerações de deuses.
No épico Enuma Elish, Tiamat é apresentada como a grande mãe criadora, responsável por gerar os deuses — seus filhos, netos e descendentes. Inicialmente, ela representa o princípio feminino criador e caótico, sendo associada à origem de tudo o que existe. No entanto, após a morte de Apsu, ela entra em conflito com as gerações mais jovens de deuses, passando a encarnar uma força destrutiva e ameaçadora.
Sua forma física não é descrita de maneira totalmente definida nos textos antigos, mas o Enuma Elish menciona características corporais completas — como cabeça, olhos, boca, membros e órgãos internos — sugerindo uma entidade colossal e orgânica. Embora frequentemente seja representada na tradição posterior como um dragão ou serpente marinha, não há uma descrição explícita e inequívoca nos textos originais que a limite a essas formas. Ainda assim, algumas conexões etimológicas e mitológicas a aproximam de criaturas como Leviatã (também chamado Lotan), reforçando sua associação simbólica com serpentes marinhas e o caos oceânico.
No mito, Tiamat cria uma série de criaturas monstruosas — incluindo dragões, serpentes, homens-escorpião e outros seres híbridos — para enfrentar os deuses mais jovens. Esses seres não necessariamente refletem sua forma, mas representam o poder caótico que ela comanda.
Assim, Tiamat pode ser entendida como a personificação do oceano primordial e do caos criador: uma deusa que, ao mesmo tempo, gera a vida e ameaça destruí-la. Sua figura reflete antigas tradições em que o princípio feminino era visto como a fonte de todos os elementos e da própria existência.

Oxum é um orixá feminino das religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, sendo associada às águas doces — especialmente rios e cachoeiras. Ela representa o amor, a beleza, a fertilidade, a prosperidade e a riqueza, sendo uma das divindades mais cultuadas e queridas nesses sistemas religiosos.
Conhecida como “Senhora do Ouro”, Oxum está ligada à abundância material e espiritual. Antigamente, sua associação era também com o cobre, que era considerado um dos metais mais valiosos, reforçando sua conexão com riqueza e valor. No campo afetivo, ela é vista como a responsável pelas uniões e pela harmonia nos relacionamentos, motivo pelo qual muitos fiéis recorrem a ela em busca de ajuda para questões amorosas.
Além disso, Oxum simboliza a sensibilidade, a doçura e o cuidado, mas também possui um lado forte e determinado, sendo capaz de agir com firmeza quando necessário. Sua energia está ligada à fluidez das águas doces, refletindo tanto a suavidade quanto a força transformadora da natureza.

Nanã Burukú é um dos orixás mais antigos e respeitados das tradições afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda. Ela está associada aos mangues, pântanos e às águas paradas, simbolizando os lugares onde a vida e a morte se encontram — o início e o fim de todos os ciclos.
Nanã é considerada a senhora dos portais espirituais, responsável tanto pela entrada das almas no mundo material (reencarnação) quanto por sua saída (desencarne). Por isso, está profundamente ligada à ancestralidade, à memória e ao retorno à terra, sendo vista como uma força primordial que rege o tempo, a transformação e o destino final dos seres.
Um de seus principais símbolos é o ibiri, um cajado ritual que representa sua autoridade e conexão com os ancestrais. Sua iconografia costuma apresentar roupas em tons de lilás, roxo e branco, cores que refletem sua ligação com a espiritualidade, a sabedoria e o mistério. Em algumas tradições, suas vestes são descritas como marcadas por elementos que remetem à morte e ao sacrifício, reforçando seu papel como regente dos ciclos da vida.
Associada às águas densas e silenciosas, Nanã carrega uma energia profunda e inevitável: ela representa aquilo que não pode ser evitado — o tempo, a transformação e o retorno ao princípio. Sua força não é de violência impulsiva, mas de destino e encerramento, sendo uma presença que exige respeito, reverência e compreensão dos ciclos naturais da existência.

Olóssa (também chamada de Oloxá) é uma divindade da mitologia iorubá associada às lagoas e às águas calmas que fazem a transição entre rios e mar. De natureza sensível e zelosa, ela está ligada ao cuidado, à proteção e ao equilíbrio desses ambientes aquáticos.
Segundo a tradição, Olóssa é filha de Òrungan com Yemojá, e recebeu de Olókun o poder de governar as lagoas que desembocam no mar. Por isso, ocupa uma posição simbólica de ponte entre diferentes domínios das águas. Em algumas tradições, também é considerada esposa ou irmã de Olókun, reforçando sua conexão com as profundezas e mistérios aquáticos.
Olóssa mantém afinidades com outros orixás das águas, como Oxum e Nanã Burukú, compartilhando aspectos ligados à fertilidade, ancestralidade e ciclos naturais. Seus elementos rituais incluem vestes verde-claras e fios de contas branco-cristal, cores que evocam pureza, serenidade e vida.
Ela é especialmente associada à região de Egbado, sendo considerada uma forma mais antiga de Yemojá nesse contexto. Seus mensageiros são os crocodilos, animais sagrados que, segundo a crença, indicam a aceitação das oferendas: quando consomem aquilo que foi ofertado nas lagoas, entende-se que o orixá acolheu o pedido.
Na Iorubalândia, Olóssa é cultuada em lagoas próximas à costa atlântica, locais onde são realizados rituais e oferendas. No Brasil, sua presença simbólica é lembrada, por exemplo, na Lagoa do Abaeté, onde também se cultua Iemanjá, evidenciando a continuidade e adaptação das tradições iorubás no contexto afro-brasileiro.
Olókun é uma das divindades mais poderosas e enigmáticas da mitologia iorubá, associado ao oceano profundo, aos mistérios ocultos e às riquezas submersas. Sua natureza varia conforme a tradição: em regiões como o Benim é considerado masculino, enquanto em Ilé-Ifé pode ser visto como feminino, sendo muitas vezes compreendido como uma entidade andrógina, que transcende definições fixas de gênero.
Olókun representa o mar em sua dimensão mais profunda e desconhecida — um espaço onde nenhum ser humano alcança, guardando segredos, forças e riquezas ocultas. Por isso, está ligado tanto à prosperidade quanto à saúde, mas também ao temor, já que sua energia é descrita como intensa, misteriosa e, quando desequilibrada, potencialmente destrutiva. Em algumas tradições, acredita-se que ele foi contido ou acorrentado no fundo do oceano após tentar submergir o mundo com um grande dilúvio, o que reforça seu caráter de força primordial que precisa ser equilibrada.
Sua iconografia frequentemente o apresenta como uma figura híbrida, parte humana e parte peixe, e muitas vezes portando um escudo, símbolo de poder e proteção. O culto a Olókun é especialmente importante em regiões como Lagos e no próprio Ilé-Ifé, centros fundamentais da tradição iorubá.
Dentro dessa cosmologia, Olókun está ligado a diversas entidades aquáticas femininas, incluindo as Olóssás e as Olónas, frequentemente descritas como suas esposas. Essas entidades representam diferentes manifestações das águas — rios, lagoas, cachoeiras, nascentes e até águas pluviais — formando um sistema simbólico que abrange toda a diversidade dos domínios aquáticos.
Assim, Olókun encarna o aspecto mais profundo e absoluto das águas: aquilo que gera riqueza e vida, mas também guarda perigos e mistérios insondáveis, exigindo respeito, equilíbrio e reverência dentro das tradições que o cultuam.

Bessem é um vodun pertencente à família de Davice, dentro das tradições de origem jeje presentes no Candomblé. Ele é especialmente associado ao povo mahí (ou mahuíno), sendo considerado um de seus patronos devido à forte presença e difusão de seu culto entre esse grupo.
Bessem está ligado à simbologia da serpente — o que se reflete diretamente em sua saudação ritual: “Ahó gbó gboy”, que significa “saudamos o rei cobra”. Outras variações dessa saudação incluem “Vodun benó benó” e “akoló”, todas evocando seu poder e presença espiritual.
No candomblé de nação jeje, Bessem é representado com a cor branca e adornado com muitos búzios, elementos que indicam pureza, ancestralidade e conexão com o sagrado. Sua dança ritual, chamada sató, é marcada por movimentos lentos e firmes, com uma cadência forte que expressa sua energia ancestral e sua ligação com a terra e as forças primordiais.
Assim, Bessem é uma entidade de grande importância dentro das tradições jeje, simbolizando poder, proteção e sabedoria ancestral, especialmente através da imagem da serpente como força espiritual e guardiã.

O Hipocampo é uma criatura presente tanto na mitologia fenícia quanto na grega, conhecida por sua forma híbrida: a parte dianteira de um cavalo e a parte traseira de um peixe, com cauda escamosa semelhante à de um cavalo-marinho.
Na tradição grega, o hipocampo está fortemente associado ao deus Poseidon, sendo frequentemente retratado puxando seu carro pelos mares. Essas criaturas simbolizam a força e a velocidade das águas, além de representarem a ligação entre o mundo terrestre (cavalo) e o aquático (peixe).
Na arte antiga, especialmente em mosaicos e esculturas, os hipocampos aparecem como seres majestosos que acompanham divindades marinhas, reforçando seu papel como criaturas nobres e ligadas ao domínio dos oceanos. Assim, o hipocampo se tornou um dos símbolos mais icônicos das mitologias marítimas do mundo antigo, unindo elegância, poder e mistério em uma única forma.

Filira é uma figura da mitologia grega pertencente ao grupo das Oceânides, sendo filha de Oceano e Tétis (titânide). Como outras oceânides, está ligada às águas e aos aspectos primordiais da natureza.
Segundo a tradição, Filira teve união com Cronos, da qual nasceu o centauro Quíron. O nascimento de Quíron, com sua forma híbrida, causou grande impacto em Filira, que, tomada pela dor e estranhamento, acabou abandonando o filho. Ainda assim, Quíron se tornaria uma das figuras mais sábias e respeitadas da mitologia, mestre de heróis e ligado à cura.
Em algumas tradições, Filira também aparece associada a saberes civilizatórios e refinados, sendo relacionada ao perfume, à escrita, à cura, à beleza e até à invenção do papel — atributos que reforçam sua ligação simbólica com o conhecimento, a cultura e a transmissão de saberes à humanidade.
Assim, Filira representa uma figura que une a natureza primordial das águas com aspectos mais elevados da civilização, como a arte, a medicina e a escrita, além de estar ligada a um dos maiores mestres míticos do mundo grego.

Leuce, na mitologia grega, é uma das Oceânides e também dá nome a um lugar mítico associado à atual Ilha das Serpentes (Fidonisi). Sua história está ligada ao submundo e aos processos de transformação após a morte.
Segundo a tradição, Leuce foi levada por Hades e, após sua morte natural, foi transformada em um álamo branco nos Campos Elísios, como forma de eternização. Em algumas versões do mito, essa transformação é atribuída a Perséfone (também chamada Core), reforçando a ligação simbólica da árvore com o reino dos mortos.
O álamo branco tornou-se, assim, uma árvore sagrada associada ao submundo e à renovação. De acordo com a tradição, foi dessa árvore que Hércules fez a coroa que colocou sobre a cabeça ao retornar de sua jornada ao mundo dos mortos, simbolizando vitória, passagem e transformação.
A figura de Leuce, portanto, representa a transição entre vida e morte e a ideia de permanência através da natureza, sendo um exemplo das frequentes metamorfoses presentes na mitologia grega.





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