Divindades do Mar, dos Lagos e da Água (Parte 5)

 Depois de quase 10 anos desde a última edição do artigo "Divindades do Mar, dos Lagos e da Água", em 2017, cá retornamos com a parte 5 desse enorme catálogo de eminentes da água!
 Já adianto que haverão mais continuações depois desta. Ah, e pra continuar com a tradição, não esquece de conferir os links para as outras edições no final deste artigo! Desde já, eu agradeço por quem continuou desde os primórdios do Delartiel (quando ainda era Banshuu TV).
 Sem mais delongas, vamos conhecer mais 10 eminentes do mar, dos lagos e da água!

Tiamat

 Tiamat é uma das principais divindades das mitologias suméria e babilônica, associada às águas salgadas do oceano primordial. Ela forma um par cosmogônico com Apsu, que representa as águas doces subterrâneas. Juntos, simbolizam as forças primordiais que deram origem ao universo e às primeiras gerações de deuses.
 No épico Enuma Elish, Tiamat é apresentada como a grande mãe criadora, responsável por gerar os deuses — seus filhos, netos e descendentes. Inicialmente, ela representa o princípio feminino criador e caótico, sendo associada à origem de tudo o que existe. No entanto, após a morte de Apsu, ela entra em conflito com as gerações mais jovens de deuses, passando a encarnar uma força destrutiva e ameaçadora.
 Sua forma física não é descrita de maneira totalmente definida nos textos antigos, mas o Enuma Elish menciona características corporais completas — como cabeça, olhos, boca, membros e órgãos internos — sugerindo uma entidade colossal e orgânica. Embora frequentemente seja representada na tradição posterior como um dragão ou serpente marinha, não há uma descrição explícita e inequívoca nos textos originais que a limite a essas formas. Ainda assim, algumas conexões etimológicas e mitológicas a aproximam de criaturas como Leviatã (também chamado Lotan), reforçando sua associação simbólica com serpentes marinhas e o caos oceânico.
 No mito, Tiamat cria uma série de criaturas monstruosas — incluindo dragões, serpentes, homens-escorpião e outros seres híbridos — para enfrentar os deuses mais jovens. Esses seres não necessariamente refletem sua forma, mas representam o poder caótico que ela comanda.
 Assim, Tiamat pode ser entendida como a personificação do oceano primordial e do caos criador: uma deusa que, ao mesmo tempo, gera a vida e ameaça destruí-la. Sua figura reflete antigas tradições em que o princípio feminino era visto como a fonte de todos os elementos e da própria existência.


Oxum | Oṣun


 Oxum é um orixá feminino das religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, sendo associada às águas doces — especialmente rios e cachoeiras. Ela representa o amor, a beleza, a fertilidade, a prosperidade e a riqueza, sendo uma das divindades mais cultuadas e queridas nesses sistemas religiosos.
 Conhecida como “Senhora do Ouro”, Oxum está ligada à abundância material e espiritual. Antigamente, sua associação era também com o cobre, que era considerado um dos metais mais valiosos, reforçando sua conexão com riqueza e valor. No campo afetivo, ela é vista como a responsável pelas uniões e pela harmonia nos relacionamentos, motivo pelo qual muitos fiéis recorrem a ela em busca de ajuda para questões amorosas.
 Além disso, Oxum simboliza a sensibilidade, a doçura e o cuidado, mas também possui um lado forte e determinado, sendo capaz de agir com firmeza quando necessário. Sua energia está ligada à fluidez das águas doces, refletindo tanto a suavidade quanto a força transformadora da natureza.


Nanã | Anamburucu | Borocô | Nanamburucu


 Nanã Burukú é um dos orixás mais antigos e respeitados das tradições afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda. Ela está associada aos mangues, pântanos e às águas paradas, simbolizando os lugares onde a vida e a morte se encontram — o início e o fim de todos os ciclos.
 Nanã é considerada a senhora dos portais espirituais, responsável tanto pela entrada das almas no mundo material (reencarnação) quanto por sua saída (desencarne). Por isso, está profundamente ligada à ancestralidade, à memória e ao retorno à terra, sendo vista como uma força primordial que rege o tempo, a transformação e o destino final dos seres.
 Um de seus principais símbolos é o ibiri, um cajado ritual que representa sua autoridade e conexão com os ancestrais. Sua iconografia costuma apresentar roupas em tons de lilás, roxo e branco, cores que refletem sua ligação com a espiritualidade, a sabedoria e o mistério. Em algumas tradições, suas vestes são descritas como marcadas por elementos que remetem à morte e ao sacrifício, reforçando seu papel como regente dos ciclos da vida.
 Associada às águas densas e silenciosas, Nanã carrega uma energia profunda e inevitável: ela representa aquilo que não pode ser evitado — o tempo, a transformação e o retorno ao princípio. Sua força não é de violência impulsiva, mas de destino e encerramento, sendo uma presença que exige respeito, reverência e compreensão dos ciclos naturais da existência.


Olossa | Ọlọ́ṣà


 Olóssa (também chamada de Oloxá) é uma divindade da mitologia iorubá associada às lagoas e às águas calmas que fazem a transição entre rios e mar. De natureza sensível e zelosa, ela está ligada ao cuidado, à proteção e ao equilíbrio desses ambientes aquáticos.
 Segundo a tradição, Olóssa é filha de Òrungan com Yemojá, e recebeu de Olókun o poder de governar as lagoas que desembocam no mar. Por isso, ocupa uma posição simbólica de ponte entre diferentes domínios das águas. Em algumas tradições, também é considerada esposa ou irmã de Olókun, reforçando sua conexão com as profundezas e mistérios aquáticos.
 Olóssa mantém afinidades com outros orixás das águas, como Oxum e Nanã Burukú, compartilhando aspectos ligados à fertilidade, ancestralidade e ciclos naturais. Seus elementos rituais incluem vestes verde-claras e fios de contas branco-cristal, cores que evocam pureza, serenidade e vida.
 Ela é especialmente associada à região de Egbado, sendo considerada uma forma mais antiga de Yemojá nesse contexto. Seus mensageiros são os crocodilos, animais sagrados que, segundo a crença, indicam a aceitação das oferendas: quando consomem aquilo que foi ofertado nas lagoas, entende-se que o orixá acolheu o pedido.
 Na Iorubalândia, Olóssa é cultuada em lagoas próximas à costa atlântica, locais onde são realizados rituais e oferendas. No Brasil, sua presença simbólica é lembrada, por exemplo, na Lagoa do Abaeté, onde também se cultua Iemanjá, evidenciando a continuidade e adaptação das tradições iorubás no contexto afro-brasileiro.



Olokun | Olóòkun

 Olókun é uma das divindades mais poderosas e enigmáticas da mitologia iorubá, associado ao oceano profundo, aos mistérios ocultos e às riquezas submersas. Sua natureza varia conforme a tradição: em regiões como o Benim é considerado masculino, enquanto em Ilé-Ifé pode ser visto como feminino, sendo muitas vezes compreendido como uma entidade andrógina, que transcende definições fixas de gênero.
 Olókun representa o mar em sua dimensão mais profunda e desconhecida — um espaço onde nenhum ser humano alcança, guardando segredos, forças e riquezas ocultas. Por isso, está ligado tanto à prosperidade quanto à saúde, mas também ao temor, já que sua energia é descrita como intensa, misteriosa e, quando desequilibrada, potencialmente destrutiva. Em algumas tradições, acredita-se que ele foi contido ou acorrentado no fundo do oceano após tentar submergir o mundo com um grande dilúvio, o que reforça seu caráter de força primordial que precisa ser equilibrada.
 Sua iconografia frequentemente o apresenta como uma figura híbrida, parte humana e parte peixe, e muitas vezes portando um escudo, símbolo de poder e proteção. O culto a Olókun é especialmente importante em regiões como Lagos e no próprio Ilé-Ifé, centros fundamentais da tradição iorubá.
 Dentro dessa cosmologia, Olókun está ligado a diversas entidades aquáticas femininas, incluindo as Olóssás e as Olónas, frequentemente descritas como suas esposas. Essas entidades representam diferentes manifestações das águas — rios, lagoas, cachoeiras, nascentes e até águas pluviais — formando um sistema simbólico que abrange toda a diversidade dos domínios aquáticos.
 Assim, Olókun encarna o aspecto mais profundo e absoluto das águas: aquilo que gera riqueza e vida, mas também guarda perigos e mistérios insondáveis, exigindo respeito, equilíbrio e reverência dentro das tradições que o cultuam.


Bessem | Bessén | Oxumaré


 Bessem é um vodun pertencente à família de Davice, dentro das tradições de origem jeje presentes no Candomblé. Ele é especialmente associado ao povo mahí (ou mahuíno), sendo considerado um de seus patronos devido à forte presença e difusão de seu culto entre esse grupo.
 Bessem está ligado à simbologia da serpente — o que se reflete diretamente em sua saudação ritual: “Ahó gbó gboy”, que significa “saudamos o rei cobra”. Outras variações dessa saudação incluem “Vodun benó benó” e “akoló”, todas evocando seu poder e presença espiritual.
 No candomblé de nação jeje, Bessem é representado com a cor branca e adornado com muitos búzios, elementos que indicam pureza, ancestralidade e conexão com o sagrado. Sua dança ritual, chamada sató, é marcada por movimentos lentos e firmes, com uma cadência forte que expressa sua energia ancestral e sua ligação com a terra e as forças primordiais.
 Assim, Bessem é uma entidade de grande importância dentro das tradições jeje, simbolizando poder, proteção e sabedoria ancestral, especialmente através da imagem da serpente como força espiritual e guardiã.


Hipocampo | Hippokampoi


 O Hipocampo é uma criatura presente tanto na mitologia fenícia quanto na grega, conhecida por sua forma híbrida: a parte dianteira de um cavalo e a parte traseira de um peixe, com cauda escamosa semelhante à de um cavalo-marinho.
 Na tradição grega, o hipocampo está fortemente associado ao deus Poseidon, sendo frequentemente retratado puxando seu carro pelos mares. Essas criaturas simbolizam a força e a velocidade das águas, além de representarem a ligação entre o mundo terrestre (cavalo) e o aquático (peixe).
 Na arte antiga, especialmente em mosaicos e esculturas, os hipocampos aparecem como seres majestosos que acompanham divindades marinhas, reforçando seu papel como criaturas nobres e ligadas ao domínio dos oceanos. Assim, o hipocampo se tornou um dos símbolos mais icônicos das mitologias marítimas do mundo antigo, unindo elegância, poder e mistério em uma única forma.



Filira | Philyra


 Filira é uma figura da mitologia grega pertencente ao grupo das Oceânides, sendo filha de Oceano e Tétis (titânide). Como outras oceânides, está ligada às águas e aos aspectos primordiais da natureza.
 Segundo a tradição, Filira teve união com Cronos, da qual nasceu o centauro Quíron. O nascimento de Quíron, com sua forma híbrida, causou grande impacto em Filira, que, tomada pela dor e estranhamento, acabou abandonando o filho. Ainda assim, Quíron se tornaria uma das figuras mais sábias e respeitadas da mitologia, mestre de heróis e ligado à cura.
 Em algumas tradições, Filira também aparece associada a saberes civilizatórios e refinados, sendo relacionada ao perfume, à escrita, à cura, à beleza e até à invenção do papel — atributos que reforçam sua ligação simbólica com o conhecimento, a cultura e a transmissão de saberes à humanidade.
 Assim, Filira representa uma figura que une a natureza primordial das águas com aspectos mais elevados da civilização, como a arte, a medicina e a escrita, além de estar ligada a um dos maiores mestres míticos do mundo grego.


Leuce | Leuke



 Leuce, na mitologia grega, é uma das Oceânides e também dá nome a um lugar mítico associado à atual Ilha das Serpentes (Fidonisi). Sua história está ligada ao submundo e aos processos de transformação após a morte.
 Segundo a tradição, Leuce foi levada por Hades e, após sua morte natural, foi transformada em um álamo branco nos Campos Elísios, como forma de eternização. Em algumas versões do mito, essa transformação é atribuída a Perséfone (também chamada Core), reforçando a ligação simbólica da árvore com o reino dos mortos.
 O álamo branco tornou-se, assim, uma árvore sagrada associada ao submundo e à renovação. De acordo com a tradição, foi dessa árvore que Hércules fez a coroa que colocou sobre a cabeça ao retornar de sua jornada ao mundo dos mortos, simbolizando vitória, passagem e transformação.
 A figura de Leuce, portanto, representa a transição entre vida e morte e a ideia de permanência através da natureza, sendo um exemplo das frequentes metamorfoses presentes na mitologia grega.



Estige | Styx


 Estige, na mitologia grega, é ao mesmo tempo uma ninfa primordial e a personificação de um dos rios mais importantes do submundo, localizado no domínio de Hades. Filha de Tétis (titânide) e Oceano, Estige ocupa um papel fundamental na ordem divina e cósmica.
 Durante a Titanomaquia, ela apoiou Zeus contra os titãs, sendo recompensada com grande honra: suas águas tornaram-se sagradas e passaram a representar o juramento mais inviolável entre deuses e mortais. Jurar pelo Estige era o compromisso supremo — nem mesmo Zeus podia quebrar tal promessa sem sofrer consequências severas.
 O rio Estige é também um dos rios do Tártaro e está ligado a propriedades mágicas, incluindo a invulnerabilidade. Um dos mitos mais conhecidos envolvendo suas águas é o de Aquiles: sua mãe, Tétis, mergulhou-o no rio para torná-lo invulnerável, segurando-o pelo calcanhar — a única parte que permaneceu vulnerável e que mais tarde causaria sua morte na Guerra de Troia.
 Outro mito importante ligado ao poder do Estige envolve Sêmele, mãe de Dioniso. Enganada por Hera, Sêmele fez Zeus jurar pelo Estige que realizaria um desejo. Quando pediu para vê-lo em sua forma divina, Zeus, impossibilitado de quebrar o juramento, revelou-se em todo seu poder — o que levou à morte de Sêmele.
 Assim, Estige representa não apenas um elemento geográfico do submundo, mas também um princípio absoluto de ordem e compromisso: a lei divina que nem mesmo os deuses ousam violar.


 Você chegou até aqui! Mais uma vez, não esqueça de conferir as outras partes deste artigo no final. Muito obrigado por terem aguentado todos os parágrafos, e até a próxima!

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