Divindades do Mar, dos Lagos e da Água (Parte 7)

 Voltamos com a continuação desse artigo que me cansa ler até o título de tão trabalhoso que é escrevê-lo, mas no final sempre vale a pena ver o resultado desse compilado de lendas e personagens dos mitos. Sem mais delongas, vamos à parte 7 da nossa lista de Divindades do Mar, dos Lagos e da Água!


Kianda



 Kianda é uma divindade das águas presente nas tradições espirituais de Angola, especialmente ligada ao mar, à proteção dos pescadores e à abundância trazida pelas águas. Em muitas interpretações, Kianda é comparada à Iemanjá das tradições afro-brasileiras, compartilhando atributos ligados à maternidade, ao oceano e ao cuidado com aqueles que dependem do mar.
 Seu nome é frequentemente traduzido como “sereia”, refletindo sua representação como uma entidade aquática encantadora e poderosa. Kianda é vista como uma força espiritual ligada às águas costeiras, aos peixes e à prosperidade das comunidades marítimas.
 Na cidade de Luanda, realizam-se anualmente festividades em sua homenagem, conhecidas como Festa da Kianda. Essas celebrações ocorrem tradicionalmente uma semana antes da festa da padroeira da ilha local, reunindo práticas culturais, religiosas e populares ligadas ao culto das águas. Também há celebrações relacionadas em regiões como Ibendoa.
 Assim, Kianda representa a continuidade das tradições espirituais africanas ligadas ao oceano, simbolizando proteção, fertilidade, abundância e a profunda conexão entre as comunidades costeiras e as águas que sustentam suas vidas.


Nammu

 Nammu é uma das mais antigas e importantes divindades da mitologia suméria, associada ao oceano primordial, à criação e à origem da vida. Ela representa o Apsu, o vasto oceano subterrâneo de águas doces que os sumérios acreditavam existir sob a terra e do qual brotavam fertilidade e vida.
 Na cosmologia suméria, Nammu é vista como uma deusa primordial equivalente, em certos aspectos, à Tiamat da tradição babilônica. Foi ela quem deu origem aos primeiros grandes deuses, incluindo Anu, personificação do Céu, e Ki, a Terra.
 Da união entre Anu e Ki nasceu Enlil, deus do ar e das tempestades. Mais tarde, segundo certas tradições, Nammu recolheu as lágrimas do Céu saudoso de Ki e delas gerou outras importantes divindades, como Enki, Ereshkigal e Damkina.
 No texto mitológico Enki e Ninmah, Nammu aparece como a mãe dos grandes deuses e a idealizadora da criação da humanidade. Ela desperta Enki, que repousava no Apsu, para ajudá-la a moldar os seres humanos à imagem divina. Já no Atrahasis, é dito que Enlil pediu a Nammu que criasse os humanos, e ela respondeu que isso seria possível com a ajuda de Enki.
 Apesar de não possuir tantos registros preservados quanto outros deuses mesopotâmicos, acredita-se que Nammu tenha sido extremamente importante em períodos mais antigos da religião suméria, antes de muitas de suas funções serem incorporadas por Enki. Ela representa as águas primordiais, a maternidade cósmica e o princípio gerador de toda a existência.



Njord


 Njord é um importante deus da mitologia nórdica pertencente aos Vanir, divindades ligadas à fertilidade, prosperidade, natureza e paz. Ele é associado aos mares, aos ventos, à riqueza trazida pela navegação e à abundância da pesca, sendo frequentemente visto como uma figura pacífica e benevolente.
 Njord é pai de Freya e Freyr, dois dos deuses mais importantes do panteão nórdico. Como protetor de pescadores e caçadores, era comum que lhe fossem oferecidos pequenos altares próximos ao mar, às falésias e às florestas, onde parte da caça ou da pesca era deixada em sua homenagem.
 Seu casamento com Skadi é um dos episódios mais conhecidos dos mitos nórdicos. Skadi, ligada às montanhas, ao inverno e à caça, escolheu Njord como marido observando apenas os pés dos deuses, acreditando que os mais belos pertenceriam a Balder. Porém, os pés escolhidos eram os de Njord, constantemente limpos pelas águas do mar.
 Apesar da união, o casamento não foi feliz. Njord amava viver junto ao oceano e ao som das ondas, enquanto Skadi preferia as montanhas frias e silenciosas. A incapacidade de ambos de se adaptarem ao mundo um do outro levou à separação. Em interpretações simbólicas posteriores, essa alternância entre montanhas geladas e mares férteis foi associada ao ciclo das estações do ano.
 Njord representa, assim, a riqueza marítima, a tranquilidade dos mares navegáveis e a fertilidade trazida pelas águas e pelos ventos favoráveis.



Simóis


 Simóis, também conhecido como Simoente, é tanto o nome de um rio da planície de Troia quanto da divindade que personificava esse curso d’água na mitologia grega. Como muitos deuses fluviais gregos, ele era considerado filho de Oceano e Tétis (titânide), pertencendo assim à linhagem das divindades aquáticas primordiais.
 Simóis era irmão de Escamandro, outro importante rio de Troia, com o qual suas águas se encontravam. Ambos os rios desempenham papel importante nos relatos da Guerra de Troia, sendo vistos não apenas como elementos da paisagem, mas como entidades divinas ativas.
 Segundo a tradição, Simóis teve duas filhas: Astíoque, esposa de Erictônio, e Hieromneme, casada com Assáraco. Dessa forma, Simóis integra a genealogia mítica da realeza troiana.
 Durante a Guerra de Troia, quando os deuses escolheram lados no conflito, Simóis apoiou os troianos, assim como seu irmão Escamandro. Isso reforça a ideia comum na mitologia grega de que rios, montanhas e elementos naturais possuíam consciência divina e podiam interferir diretamente no destino dos homens e das cidades.


Adaro


 Adaro é uma criatura aquática da mitologia das Ilhas Salomão, pertencente às tradições do Oceano Pacífico. Frequentemente comparado às sereias ou sirenas, o Adaro possui natureza muito mais sombria e perigosa, sendo descrito como um espírito maligno associado à violência, à morte e à corrupção humana.
 Segundo as lendas, o Adaro possui aparência híbrida: metade homem, metade peixe, com barbatanas no lugar dos pés, um chifre semelhante à barbatana dorsal de um tubarão e uma projeção afiada na cabeça comparada ao focinho de um peixe-espada. Sua aparência grotesca reforça seu papel como entidade ameaçadora e sobrenatural.
 Os mitos afirmam que os Adaro vivem no sol e descem à Terra através dos arco-íris, especialmente durante chuvas ensolaradas. Eles seriam seres agressivos, conhecidos por atacar humanos utilizando peixes venenosos como armas. Por isso, eram vistos como criaturas temidas pelos povos oceânicos.
 Uma das partes mais marcantes do mito é sua relação com a dualidade da alma humana. Após a morte de uma pessoa, acredita-se que ela se divide em duas partes: Aunga, o lado bondoso que segue para a vida futura, e o Adaro, o aspecto maligno que retorna ao mundo para atormentar os vivos. Essa divisão simboliza o conflito entre bem e mal presente no próprio ser humano, tema recorrente em diversas tradições mitológicas ao redor do mundo.
 Assim, o Adaro representa não apenas os perigos das águas e do desconhecido, mas também a manifestação espiritual da maldade humana transformada em entidade sobrenatural.



Amnisíades

 As Amnisíades são ninfas potâmides — espíritos ligados às águas dos rios — da mitologia grega. Elas eram filhas de Amnisos, associado ao rio Amnisos, na ilha de Creta.
 As Amnisíades faziam parte do séquito da deusa Ártemis, acompanhando-a em suas caçadas e auxiliando em diversas tarefas ligadas à natureza selvagem. Segundo os mitos, eram cerca de vinte ninfas dedicadas ao serviço da deusa, cuidando de seus cães, de seus arcos e das cervas de chifres dourados que puxavam sua carruagem divina.
 Entre suas funções, também estava alimentar os animais sagrados de Ártemis e encher calhas douradas com água fresca para eles. Sua ligação com as águas reforça sua natureza purificadora e sua proximidade com os ambientes naturais intocados.
 As Amnisíades eram especialmente conhecidas por sua castidade inviolável, característica compartilhada pelas companheiras de Ártemis. A deusa lhes concedia proteção especial para preservar sua virgindade, refletindo os valores associados ao culto de Ártemis: independência, pureza ritual e conexão com a vida selvagem.
 Assim, essas ninfas representam a união entre a água, a natureza e o ideal de pureza ligado às acompanhantes da deusa da caça.



Susanoo


 Susanoo é uma importante divindade da mitologia japonesa e do xintoísmo, associado ao mar, às tempestades e às forças destrutivas e caóticas da natureza. Ele é irmão de Amaterasu, a deusa do Sol, e de Tsukuyomi, deus da Lua.
 Segundo os mitos do Kojiki, Susanoo nasceu do nariz do deus criador Izanagi durante um ritual de purificação. Desde cedo demonstrou personalidade impulsiva e destrutiva, causando caos no céu e ofendendo sua irmã Amaterasu com seus atos violentos e desordeiros.
 Por causa de seu comportamento, Amaterasu se escondeu em uma caverna, mergulhando o mundo na escuridão. Esse episódio é um dos mais importantes da mitologia japonesa, pois simboliza o desequilíbrio entre ordem e caos.
 A redenção de Susanoo ocorre quando ele enfrenta e derrota Yamata no Orochi, uma gigantesca serpente ou dragão de oito cabeças que aterrorizava uma região. Ao cortar a cauda da criatura, encontrou uma espada lendária escondida em seu interior: Kusanagi-no-Tsurugi, também chamada de “Cortadora de Grama”. Susanoo ofereceu essa espada a Amaterasu como sinal de reconciliação.
 Depois disso, Susanoo casou-se com Kushinada-hime, a jovem que havia salvado do Orochi. Seus descendentes tornaram-se figuras importantes dos mitos japoneses, incluindo Ōkuninushi, associado à criação, medicina e governo da terra.
 Susanoo representa a força indomável das tempestades e dos mares, mas também a transformação do caos em heroísmo e renovação.



Huixtociahuatl


 Huixtocihuatl é uma deusa da mitologia asteca associada ao sal, à água salgada, à fertilidade e aos recursos extraídos das águas. Dentro da cosmologia mexica, ela era considerada uma divindade importante para a sobrevivência e prosperidade, já que o sal possuía grande valor alimentar, ritual e econômico.
 Huixtocihuatl era irmã de Tlaloc, o poderoso deus das chuvas e tempestades, além de ser relacionada às deusas da chuva, vistas como suas irmãs. Em algumas tradições, ela aparece como a irmã mais velha desse grupo divino, ocupando uma posição de destaque entre as entidades ligadas às águas e à fertilidade.
 Certas fontes também a apontam como esposa de Tezcatlipoca, uma das divindades centrais do panteão asteca, associada ao destino, à noite e ao poder.
 Como deusa do sal e das águas salgadas, Huixtocihuatl representava tanto a preservação da vida quanto os elementos essenciais para a alimentação e os rituais sagrados. Seu culto reforça a importância simbólica e prática do sal nas sociedades mesoamericanas, onde ele era visto não apenas como recurso natural, mas como manifestação do poder divino ligado à fertilidade e à abundância.



Euríbia


 Euríbia é uma divindade marinha da mitologia grega associada à força violenta e impetuosa do oceano, personificando a fúria e o poder destrutivo do mar. Ela pertence às antigas gerações divinas e é filha de Ponto e Gaia.
 Euríbia tornou-se consorte do titã Crio, com quem teve importantes descendentes: Astreu, ligado aos astros e aos ventos; Perses; e Palas. Por meio desses filhos, Euríbia integra uma linhagem relacionada às forças cósmicas, tempestades e poderes destrutivos.
 Embora fosse considerada uma divindade menor do mar em períodos posteriores, ela estava sob a esfera de influência de Poseidon, representando os aspectos mais agressivos e incontroláveis das águas marítimas.
 Existe também outra personagem da mitologia grega chamada Euríbia, filha de Téspio, que teve um filho chamado Polilau com Héracles. No entanto, essa figura é distinta da deusa marinha primordial.
 Euríbia simboliza o oceano em sua faceta mais tempestuosa e aterradora, refletindo o temor e o respeito que os antigos gregos nutriam pelas forças imprevisíveis do mar.



Tálassa


 Tálassa é uma divindade da mitologia grega que personifica o mar, especialmente o Mar Mediterrâneo. Seu nome deriva diretamente da palavra grega para “mar”, refletindo sua natureza como manifestação feminina das águas marítimas.
 Segundo algumas tradições, Tálassa é filha de Éter e Hemera, pertencendo às primeiras gerações de seres cósmicos da mitologia grega. Ela uniu-se a Pontos, com quem gerou os peixes e diversas criaturas marinhas, tornando-se uma mãe primordial da vida oceânica.
 Entre seus descendentes aparecem figuras como Hália, o gigante Egeon e os Telquines, entidades ligadas ao mar e à magia.
 Algumas versões mitológicas afirmam que, quando o sêmen de Urano caiu sobre as águas do mar, Tálassa concebeu Dione, enquanto outras tradições atribuem a ela até mesmo a maternidade de Afrodite junto de Urano. Em versões alternativas, porém, Dione é considerada uma oceânide.
 Tálassa representa o oceano primordial como fonte de vida, fertilidade e mistério, sendo uma das antigas personificações femininas das águas profundas na cosmologia grega.


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