Inunaki, a Vila dos Uivos


 Existem diversas razões pelas quais o Japão é o país mais consciente em relação ao espiritualismo: Os japoneses reconhecem a presença do invisível, dão nome ao que outros ignoram, preservam mitos vivos e permitem que lugares tenham passado espiritual. Enquanto muitos países enterram o trauma, o Japão convive com ele. É daí que surge essa aura única, silenciosa, melancólica e pesada. Um país inteiro vivendo na fronteira entre os mundos.
 No Japão, muitas vezes os Yokai surgem como forma de explicar algo. Eles surgem quando algo não se encaixa, escapa à razão ou quebra o esperado, sendo personificações do medo, do trauma, da falha moral e do desconhecido.
 Um túnel assombrado, como o Inunaki, não é só uma lenda urbana, mas sim: isolamento, quebra da lei, crimes, morte sem testemunha e abandono estatal. Tudo isso vira mito vivo.

Entrada de um santuário em Inunaki-san, com a inscrição 犬鳴山 (“Monte Inunaki”) no pilar à direita

A Lenda da Vila Inunaki

 De acordo com a lenda, alguns habitantes da vila viviam separados do resto da civilização. Tanto entrar como sair daquele lugar eram tarefas extremamente difíceis. Lá, havia um grupo distinto de pessoas composto por indivíduos violentos e com doenças altamente contagiosas, que haviam fugido de locais de contenção (como hospitais psiquiátricos e UTIs, por exemplo). Sabia-se que esse grupo era adepto de práticas horríveis, como o incesto e o canibalismo. Por se manterem num local isolado de todos, tais fugitivos se declaravam livres das leis japonesas, o que futuramente explicaria a placa mórbida que seria posta na entrada do túnel.
 Aqueles que tinham coragem (ou falta de senso) de adentrarem aquela área eram caçados e mortos. Até que um dia, um dos homens do grupo entrou em surto, pegou um machado e matou vários que viviam ali. Os que não foram mortos por ele, morreram por suas próprias condições de saúde, visto que o túnel havia sido selado para que eles não pudessem ferir nem infectar quem estivesse do lado de fora.
 É dito que até aparelhos eletrônicos param de funcionar lá dentro, deixando qualquer um que entre sem a possibilidade de pedir socorro. O ambiente escuro e sufocante pode causar alucinações e fazer com que o convidado insensato enfrente os medos mais naturais ao homem.

Portão que bloqueia o acesso ao antigo Túnel Inunaki, em Miyawaka, província de Fukuoka, Japão

A História Real da Vila e do Túnel Inunaki

 Para entendermos a história do túnel Inunaki, precisamos voltar muitos séculos atrás na história japonesa, mais precisamente no final do período Edo (1603-1868), numa zona rural da província de Fukuoka, em Kyushu. Lá, havia uma vila chamada Inunaki Danimura.
 Nessa época, a vila foi estabelecida por um grupo de expedicionários do Domínio de Fukuoka em 1691. Bunnai Shinozaki foi nomeado chefe da vila. Ela estava sob a jurisdição e arrecadação de impostos do clã Kuroda, que tinha entre os moradores a produção de cerâmica, fabricação de aço e madeira retirada das florestas como principais fontes de renda.
 Mais tarde, a mineração de carvão foi estabelecida e um castelo chamado Inunaki-gobekkan foi fundado em 1865, sob recomendação de Kato Shisho, e cujas ruínas ainda existem hoje.
 Em 1884, 16 anos após o fim do período Edo, se iniciou a construção do tal túnel que levaria até a vila. 
 Até o ano de 1889, a Vila Inunaki pertencia ao município de Kurate, província de Fukuoka. A vila chegou a possuir dois galpões para armazenamento de carvão vegetal, sendo que um deles estava localizado no vale de Inunaki construído com o subsídio de uma cooperativa rural. Em abril desse ano, Inunakidani foi integrada à vila vizinha de Yoshikawa com a introdução do sistema de cidade e vila (Chosonsei). Fusões subsequentes eventualmente criaram a cidade de Miyawaka.
 O problema era que a tecnologia daquela época não era suficiente para a tarefa de construir o túnel, além de gerar muitos gastos. Foi por essa razão que as obras foram interrompidas, até que em 1927 (aproximadamente 40 anos depois) a construção do túnel foi retomada, após vários chefes de aldeia apelarem às autoridades para que o projeto fosse reiniciado.
 No entanto, em 1959, a construção foi arrasada por uma enxurrada, assim como um cemitério local onde se encontrava o túmulo Muenbotoke, que foi arrastado nessa inundação. Entre os túmulos destruídos, se encontravam duas sepulturas chamadas de "Tumbas dos Viajantes", que devido ao rumor de que se alguém tocasse nelas seria amaldiçoado, ninguém as reverenciava.
 Antes da Segunda Guerra Mundial e durante a guerra, a vila Inunaki abasteceu o exército japonês com carvão vegetal. No pós-guerra, a vila sobreviveu da agricultura e vendendo carvão através do sindicato carvoeiro de Yoshikawa e em 1986, o lugar foi escolhido para a construção da represa de Inunaki.
 O problema é que, durante a construção do túnel, houve um desabamento que matou centenas de trabalhadores. Isso fez com que aquelas várias almas ficassem presas ali, assombrando o local com seus gritos de terror e desesperança.
 Ainda em 1986, a barragem submergiu o sítio de Inunakidani ("Vila Inunaki", em japonês), e os moradores da aldeia foram realocados para Wakita. Essa vila Inunaki real não era formada por canibais nem era um local sem leis, mas sim uma zona rural que foi submergida.
 Na região de Inunaki, no Japão, existia uma ligação entre o vale e o rio Inunaki, onde havia pequenos povoados rurais. Esses povoados foram desocupados principalmente por causa da construção da Represa/Barragem de Inunaki, concluída em 1994.
 Já o clã Kuroda é real e historicamente documentado. Ele teve domínio e influência sobre áreas da próvíncia de Fukuoka, onde fica a região de Inunaki.

Capa do filme Howling Village

O Crime Real que Assombrou o Túnel Inunaki

 Em 6 de dezembro de 1988, um crime real aconteceu próximo ao túnel Inunaki...
 Nobuyuki Umeyama (em algumas versões, Koichi Umeyama) era um operário de fábrica que estava dirigindo de volta para casa após um longo dia de trabalho. Enquanto esperava num semáforo perto do túnel de Inunaki, um grupo de cinco jovens delinquentes (entre 16 e 19 anos) se aproximaram exigindo que o homem saísse do carro para que eles fossem buscar garotas e se divertir. Obviamente, Umeyama se recusou, sendo atacado pelo grupo.
 Os criminosos arrastaram Umeyama para fora do carro e iniciaram uma série de agressões brutais, que só cessaram quando os jovens baixaram a guarda, dando chance para o homem correr dali. Porém, eles conseguiram alcançá-lo, tentando jogá-lo do Porto de Kandara, mas sem sucesso já que Umeyama se agarrou à cerca, resistindo a mais uma sessão de violência.
 Diante de tamanha brutalidade, os jovens sabiam que já não podiam mais voltar atrás, pois aquilo lhes traria consequências. Sendo assim, colocaram Umeyama no porta-malas do próprio carro e o espancaram novamente, agora com as ferramentas que encontraram lá dentro. Pensaram em jogar o corpo numa represa próxima, mas temeram que ele flutuasse e fosse descoberto. Então, optaram por algo ainda pior...
 Eles levaram Umeyama no fio da vida até o túnel Inunaki, onde despejaram gasolina sobre ele e o carbonizaram ainda vivo. Seus gritos ecoaram pelo túnel, fazendo os criminosos recuarem de medo, já sabendo das histórias assombrosas sobre o local.
 Após o assassinato, os jovens roubaram o carro de Umeyama e foram até um bar em Fukuoka. Lá, eles se gabaram sobre o que fizeram para as garotas que os acompanhavam. Logo no dia seguinte, o corpo do operário foi descoberto, e a causa de sua morte foi dada como sendo hemorragia.
 Todos os assassinos foram presos, e o líder deles pegou prisão perpétua em 1991. Com a morte de Umeyama, o túnel foi finalmente selado. O local infelizmente passou a ser popularizado como um lugar de desova de corpos, visto que um cadáver foi descoberto naquela área nos anos 2000.

Túmulo do cão Giken

O Monte Inunaki

 O Monte Inunaki é um local sagrado para o Shugendo, uma forma de budismo originária do Japão, formado por elementos sincréticos de diversas tradições religiosas, dentre elas o Budismo Esotérico, Xintoísmo, Taoísmo e Xamanismo, focado na aquisição de poderes espirituais através de rigorosos treinamentos nas montanhas. Praticantes, chamados de Yamabushi, buscam iluminação e cura purificando-se na natureza.
 Também conhecido como Omine das Mulheres, o Monte Inunaki está localizado na cidade de Izumisano, sendo buscado por suas fontes termais, bem como pelo Templo Inunaki Shipporyuji, o templo de Shugendo mais antigo do Japão, fundado por En no Gyoja há cerca de 1.300 anos.
 Dentro da montanha, as "Vinte e Oito Estações da Montanha" são mantidas para que as pessoas possam percorrer os principais locais de treinamento, cachoeiras, rochas, salões e santuários, permitindo que muitas pessoas vão lá para praticar.
 O monte recebeu o nome 'Inunaki' devido a uma lenda antiga, onde um caçador tentava abater suas presas com sua espingarda, mas elas sempre fugiam devido ao seu cão que não parava de latir. O homem não sabia que próxima a ele estava uma cobra peçonhenta, e seu fiel amigo apenas queria protegê-lo e alertá-lo. Porém, o caçador não havia percebido, e num acesso de fúria, acabou atirando em seu cão. Após perceber o que fez, e o porquê seu amigo tanto latia, o homem entrou em um estado de profundo remorso.
 Outra versão da lenda diz que o caçador estava sendo perseguido por uma cobra gigante nas montanhas durante o reinado do Imperador Uda (887-897), e foi seu amado cão, chamado Giken, que latiu alto e arriscou a própria vida para proteger seu mestre. O túmulo do famoso cão Giken pode ser encontrado na estrada para o Templo Inunaki Shipporyuji. Foi esse caçador quem batizou o monte como Inunaki, que significa "choro do cachorro" ou "uivo do cachorro". Ele foi um dos primeiros ascetas do Monte Inunaki.
 Na cidade termal às margens do riacho aos pés do Monte Inunaki, é possível relaxar a mente e o corpo em uma fonte termal ao ar livre enquanto aprecia os encantos de cada estação: as flores de cerejeira na primavera, os vaga-lumes e os sapos-de-rio (cujo coaxar lembra o de um cervo) no verão, as folhas de outono e a neve caindo no inverno.

Velho túnel de Inunaki

Os Túneis Inunaki

 Atualmente, existem dois túneis sob a colina que ligam os dois lados da montanha. Um é antigo e cruto, com menos de cem metros (sendo o tal túnel assombrado). Já o outro túnel é mais novo e longo, tendo sido construído em 1975. Este túnel tem um tráfego intenso e não é tido como assombrado.

Novo túnel de Inunaki

 Após o lançamento do filme Howling Village (2020), baseado nas lendas acerca da Vila Inunaki, muitas pessoas foram atraídas até o local com intenções diferentes. Alguns queriam investigar para ver se o local era realmente assombrado. Enquanto outros, principalmente jovens, se enfiavam no túnel para realizar festas e depredações. Agora, o túnel está repleto de lixo, pichações e latas de cerveja. De fevereiro a maio de 2020, a polícia fez 182 intervenções no túnel Inunaki devido a arruaceiros de plantão.

Pequeno santuário xintoísta rural no Japão

A Origem das Lendas

 Pelo que se sabe, a história da Vila Inunaki teve origem à partir de uma carta anônima enviada à Nippon TV em 1999. O autor da carta descrevia uma pequena trilha muito fácil de passar despercebida,  localizada nas proximidades do antigo túnel de Inunaki. Em seguida, ele descreveu a placa com a inscrição  "A constituição e as leis do Japão não se aplicam aqui", assim como a história de um jovem casal que foi assassinado e os moradores violentos que habitam a vila.
 Essa prática de enviar cartas "suspeitas" é bem comum no Japão, sendo conhecida como 'Fukou no Tegami', ou "Cartas de Infortúnio". Nessa brincadeira postal, cartas são enviadas a destinatários específicos ou não, incentivando-os a revelar a mesma carta a várias outras pessoas dentro de um período de tempo, caso contrário, sofreriam algum infortúnio. Ainda que alguns destinatários apenas joguem a carta fora por verem-na como uma simples brincadeira, muitos outros se preocupam, buscando evitar o infortúnio ou infligi-lo a outros. Isso fez com que a fukou no tegami se torna-se um problema social, envolvendo a polícia, templos, santuários e outras organizações para lidar com essa questão.
 É possível que a inspiração para a criação da lenda urbana da Vila Inunaki tenha vindo da Vila Sugisawa, supostamente marcada por um massacre brutal e apagada dos mapas. Diz a lenda que quem entra na vila nunca mais volta, tornando-se um local cercado de mistérios e contos de terror popularizados por programas de TV.
 A lenda sugere que um morador enlouqueceu e matou todos os habitantes antes de tirar a própria vida, após o qual a vila foi apagada dos registros. Relatos populares mencionam uma placa de sinalização antiga, muitas vezes na entrada de uma estrada de terra, avisando para não entrar, ou marcada com o que parecem ser crânios ou símbolos estranhos.

Representantes locais participando de uma cerimônia funerária budista coletiva

O Homem que Causou o Massacre na Vila Inunaki e Sugisawa

 Essas histórias se parecem muito com um caso real chamado Tsuyama Jiken ("Massacre de Tsuyama") ocorrido na noite de 21 de maio de 1938, na vila rural de Kamo, próxima a Tsuyama, na província de Okayama, onde um rapaz chamado Mutsuo Toi (21) matou 30 pessoas (incluindo sua própria avó) e feriu gravemente outras três antes de cometer suicídio, tornando este o pior massacre por um único atirador na história japonesa.
 Mutsuo Toi era considerado um hikikomori (isolado social) antes do termo existir. Ele sofria de tuberculose, uma doença incurável e estigmatizada na época, o que, segundo relatos, o levou a se sentir marginalizado e com raiva da comunidade. Toi deixou diversas cartas de suicídio. Ele afirmou que matou seus vizinhos porque eles o insultaram e o rejeitaram após descobrirem sua doença. Acredita-se também que o massacre tenha sido motivado pela rejeição sexual por parte das mulheres da vila, sendo, por vezes, citado como um dos primeiros incidentes "proto-incel".
 Na noite do crime, Toi cortou os cabos de energia, deixando a vila no escuro. Ele agiu por cerca de 90 minutos, armado com uma espingarda Remington, uma katana, punhais e um machado. Como mencionado, após o massacre, Toi cometeu suicídio com sua espingarda. Ele matou sua avó primeiro, escrevendo que não queria deixá-la para viver como a "avó de um assassino".

 Como podem ver, a lenda acerca do túnel Inunaki e a vila homônima mistura ficção com realidade, crimes reais com surto coletivo. O que não se pode negar, é que de fato o túnel, o monte e a vila de Inunaki realmente existiram. Contudo, as histórias sensacionalistas por trás de sua existência teriam sido adotadas de crimes reais.
 A morte é fascinante, e o rastro que ela deixa por onde passa causa arrepios em quem não entende, e até mesmo em quem entende totalmente. O Japão, ainda que negligente com muitos casos horripilantes que acontecem por lá, não tende a esconder o passado espiritual do país, onde tantas mortes violentas ocorreram e ainda ocorrem até os dias de hoje.
 Muito obrigado por ter chegado até aqui e ter aguentado todos os parágrafos. Até a próxima.



Fontes

Enciclopédia das Lendas Urbanas: A Vila Inunaki, via Oberhalb Thoth.
The Legend of Inunaki Village, via The Scare Chamber.
Inunaki Village, via Unfakely.
Is Inunaki Village Real?, de Tara A. Devlin, via Kowabana.
The horrifying Old Inunaki Tunnel in Japan, via Dangerous Roads.
Inunakiyama, via Osaka Info.
LENDA URBANA: VILA INUNAKI, via Horror e Medo.
O Horror de Inunaki - O sinistro vilarejo maldito do Japão, de King in Yellow, via Mundo Tentacular.
Inunaki Village, via Wikipédia.

Postar um comentário

0 Comentários