As 15 Faces do Ativismo


 Hoje eu quis trazer um artigo para todas as esferas da política atual, trazendo 15 movimentos socio-políticos que atuam no ativismo de diferentes formas e com diversos propósitos. O objetivo é revelar os vários campos de luta em que povos se colocam na busca pelos seus direitos. Espero que gostem!

"Você percebe que se tornou estoico quando
passa a não se importar mais se está incomodando
as outras pessoas por preferir ficar na sua zona pessoal
ao invés da dos outros." ― Delartiel


Antitabagismo

 O tabaco chegou à Europa no século XVI, trazido das Américas, onde era usado por povos indígenas em contextos rituais, medicinais e simbólicos. Na Europa, rapidamente passou a ser associado à medicina (como remédio para diversos males), ao status social e ao lazer aristocrático.
 Durante séculos, não havia um movimento organizado contra o tabaco, embora existissem críticas morais pontuais, sobretudo religiosas. Algumas das primeiras manifestações antitabagistas foram éticas e religiosas, não científicas:

  • Rei Jaime I da Inglaterra, em 1604, escreveu o panfleto A Counterblaste to Tobacco, denunciando o tabaco como repugnante aos sentidos, prejudicial à saúde e contrário aos costumes cristãos.
  • Líderes islâmicos e cristãos também condenaram o fumo por associá-lo à vaidade, vício e desperdício.

 Essas críticas, no entanto, tinham pouco impacto popular, pois o tabaco ainda não era visto como um risco médico concreto.
 O verdadeiro ponto de inflexão ocorreu no século XIX, com a industrialização do cigarro, a invenção das máquinas de enrolar e o crescimento das grandes indústrias do tabaco. O cigarro deixou de ser artesanal e passou a ser barato, acessível e amplamente distribuído.
 Nos Estados Unidos e na Europa, surgiram movimentos sociais que combatiam álcool, prostituição, jogos de azar e tabaco. Aqui, o tabaco passou a ser visto como um hábito degradante, um vício que enfraquece o caráter e um perigo para jovens e trabalhadores. Esses grupos defendiam abstinência total, mas ainda sem base científica sólida.
 A partir do início do século XX, médicos começaram a notar correlações entre fumo e doenças pulmonares, problemas cardíacos e câncer. Nos anos 1930 e 1940, estudos estatísticos iniciais já indicavam riscos, mas enfrentavam forte resistência da indústria do tabaco, que financiava pesquisas contraditórias.
 O maior divisor de águas do movimento antitabagista ocorreu em 1964, com o famoso Relatório do Surgeon General dos Estados Unidos (Smoking and Health). Esse documento estabeleceu cientificamente a relação entre tabagismo e câncer de pulmão, confirmou riscos cardiovasculares e transformou o tabagismo em uma questão de saúde pública. A partir daí, o discurso antitabagista deixou de ser moral e passou a ser científico, e governos começaram a agir.
 A partir dos anos 1960–70, países passaram a exigir avisos de saúde nos maços e, posteriormente, imagens gráficas de doenças. Essas campanhas são uma das ações mais visíveis do movimento.
 Outro marco importante foi a proibição de propagandas de cigarro na TV e no rádio; e o banimento do patrocínio esportivo (como Fórmula 1 e Olimpíadas). Essas medidas enfraqueceram profundamente o poder cultural da indústria do tabaco.
 Entre os anos 1990 e 2000, surgiram leis proibindo fumar em aviões, restaurantes, bares e locais de trabalho. O conceito de fumo passivo fortaleceu enormemente o discurso antitabagista, pois deslocou o problema do indivíduo para a coletividade.
 Um dos eventos mais importantes da história do movimento foi a criação da Convenção-Quadro da OMS para o Controle do Tabaco (CQCT), o primeiro tratado internacional de saúde pública, assinado por mais de 180 países (incluindo o Brasil). Ele estabeleceu diretrizes globais, como: aumento de impostos, restrição de marketing, campanhas educativas e combate ao contrabando.



 O movimento antitabagista é profundamente marcado por profissionais da saúde como:

  • Ernst Wynderum dos primeiros epidemiologistas a provar a ligação entre cigarro e câncer.
  • Richard Dollcoautor de estudos britânicos fundamentais sobre mortalidade de fumantes.
 Algumas organizações civis que tiveram papel crucial na luta contra o tabagismo incluem:
  • American Cancer Society
  • Truth Initiative
  • Campaign for Tobacco-Free Kids
  • Aliança de Controle do Tabagismo (Brasil)

Esses grupos atuaram em lobby político, educação pública e ações judiciais contra a indústria.
 Nos anos 1990, documentos internos das indústrias do tabaco vieram à tona, revelando conhecimento prévio dos danos, manipulação da nicotina para aumentar dependência e campanhas deliberadas para enganar o público. Figuras como Jeffrey Wigand (ex-executivo da Brown & Williamson) tornaram-se símbolos do enfrentamento à indústria.
 O Brasil é considerado referência mundial em políticas antitabagistas, com proibição quase total da publicidade, advertências gráficas fortes, campanhas educativas constantes e redução expressiva do número de fumantes desde os anos 1980. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) teve papel central nesse processo.
 O movimento antitabagista também enfrenta críticas, como acusações de paternalismo estatal, debates sobre liberdade individual e discussões recentes sobre cigarros eletrônicos, redução de danos e vaping. Essas tensões mostram que o movimento não é monolítico, mas dinâmico e em constante transformação.

Movimento Antifascista

 O Antifa é um dos movimentos sociais mais controversos da atualidade, andando numa corda bamba entre a busca pela autonomia do povo em relação ao controle do Estado sobre os recursos que o próprio povo produz (e a liberdade que o povo tem de protestar contra ações governamentais), e o atingimento destes objetivos por meio do caos e da desordem, da repressão daqueles que não se posicionam à favor ou como um simpatizante.
 O Movimento Antifascista tem como objetivo resistir, combater e impedir o surgimento ou a consolidação do fascismo, do autoritarismo extremo, do ultranacionalismo excludente e de ideologias associadas (como o racismo institucional, o supremacismo e a repressão violenta de dissidências).
 O fascismo surgiu no início do século XX, especialmente na Europa, e se caracteriza por autoritarismo extremo, nacionalismo radical e excludente, culto ao líder, rejeição à democracia liberal, violência como instrumento político, supressão de opositores e minorias, militarismo e controle social.
 Os exemplos mais conhecidos são:

  • Fascismo italiano, liderado por Benito Mussolini
  • Nazismo alemão, liderado por Adolf Hitler

 O antifascismo nasce como reação direta a essas forças. O movimento surgiu praticamente junto com o fascismo, na Itália, após a ascensão de Mussolini em 1922. Os primeiros antifascistas incluíam:

  • Socialistas
  • Comunistas
  • Anarquistas
  • Sindicalistas
  • Liberais democratas
  • Intelectuais e jornalistas

 Esses grupos foram duramente reprimidos pelo regime fascista, forçados ao exílio, à clandestinidade ou à prisão.
 Na Alemanha dos anos 1920 e 1930, surgiram grupos antifascistas para combater o crescimento do Partido Nazista. O termo “Antifaschistische Aktion” aparece oficialmente em 1932, ligado ao Partido Comunista Alemão (KPD). Eles usavam o símbolo clássico de duas bandeiras (vermelha e preta) — representando comunismo e anarquismo — surgindo nesse contexto e permanecendo até hoje como um ícone antifascista.
 Durante a Segunda Guerra (1939–1945), o antifascismo se torna uma força internacional concreta, não apenas ideológica. Diversos movimentos de resistência antifascista atuaram contra o Eixo (Alemanha, Itália, Japão):

  • Partigiani italianosguerrilhas que combateram o regime de Mussolini e a ocupação nazista
  • Resistência Francesasabotagem, espionagem e apoio aos Aliados
  • Guerrilheiros iugoslavos, liderados por Tito
  • Exércitos populares na Grécia, Polônia e União Soviética
 Antes mesmo da Segunda Guerra, a Guerra Civil Espanhola (1936–1939) foi um marco antifascista, com voluntários de dezenas de países se unindo para lutar contra o regime fascista de Francisco Franco. Escritores como George Orwell participaram do conflito, e a derrota republicana marcou profundamente o antifascismo mundial.
 Após 1945, o fascismo foi oficialmente derrotado em muitos países, mas o antifascismo não desapareceu.

Europa

  • Na Alemanha Ocidental e Oriental, o antifascismo tornou-se parte do discurso político
  • O combate ao neonazismo passou a ser uma preocupação constante
  • Grupos juvenis antifascistas surgiram para enfrentar skinheads e partidos extremistas

América Latina

  • O antifascismo apareceu ligado à luta contra ditaduras militares
  • Intelectuais, artistas e militantes associaram o fascismo à repressão estatal
  • No Brasil, o termo ganhou força principalmente a partir dos anos 1980 e, mais intensamente, após 2010
 “Antifa” é uma abreviação de antifascista, não uma organização centralizada. Não há liderança global, não há filiação formal, há atuação descentralizada e grupos locais autônomos. Eles podem incluir: Militantes de esquerda, anarquistas, socialistas, comunistas, liberais antifascistas e pessoas sem filiação ideológica formal. Os antifas atuam em protestos e manifestações, contra-manifestações, produção cultural e educativa, confrontos físicos — o que gera controvérsia e críticas, inclusive dentro da esquerda — e no monitoramento de grupos extremistas.
 Houveram eventos antifascistas que marcaram a história do movimento, como por exemplo:
  • Batalha de Cable Street (1936 – Londres), onde trabalhadores, judeus, comunistas e anarquistas impediram a marcha de fascistas britânicos liderados por Oswald Mosley. Tornou-se um símbolo histórico do antifascismo popular.
  • Maio de 1968 (França), onde embora não exclusivamente antifascista, o movimento teve forte rejeição ao autoritarismo e ao conservadorismo extremo.
  • Charlottesville (2017 – EUA), onde uma manifestação da extrema-direita culminou em violência e morte, gerando uma forte mobilização antifascista em resposta. Esse foi um marco simbólico do antifascismo no século XXI.

Alguns ativistas e figuras antifascistas relevantes incluem:
  • Antonio Gramsci – filósofo italiano preso pelo regime fascista
  • George Orwell – lutou na Guerra Civil Espanhola
  • Hannah Arendt – analisou o totalitarismo e o fascismo
  • Primo Levi – escritor e sobrevivente do Holocausto
  • Noam Chomsky (crítico do autoritarismo)
  • Angela Davis (ligação entre antifascismo e antirracismo)
 Mas o antifascismo também é alvo de críticas, vindas de diferentes lados, com acusações de uso excessivo da violência, dificuldade de definição clara do que é “fascismo”, apropriação do termo para disputas políticas amplas, gerando o risco de autoritarismo inverso, que é quando o oprimido se torna o opressor.


Movimento Antifeminista

 O movimento antifeminista surgiu após alguns questionamentos e observações minuciosas sobre algumas das primeiras sufragistas, como Simone de Beauvoir, que posteriormente foi exposta ao mundo como uma pedófila; ou Margaret Sanger, que foi quem criou a primeira clínica de aborto dos EUA, mas sob os panos escondia uma ideologia racista e antinatalista em relação à população negra.
 O principal cerne do movimento antifeminista é combater a ideia de que mulheres não possuem direitos, sofrem mais que os homens e vivem num mundo "patriarcal e machista" que as oprimem. Fato é, que ainda há lugares no mundo onde a mulher é vista como propriedade do homem, como é o caso de países que sofrem com o regime islâmico.
 Porém, ao olharmos para o ocidente, principalmente no Brasil, a ideia de que mulheres são oprimidas pelo patriarcado cai por terra ao apontarmos alguns direitos (e privilégios) que as mulheres têm sobre os homens, como por exemplo:

  • Se aposentar antes dos homens (é privilégio, não direito).
  • Poder folgar em 2 domingos sob o regime CLT (é privilégio, não direito).
  • Ficar com a guarda dos filhos na maior porcentagem das vezes (é privilégio, não direito).
  • Não ser obrigadas a tirar a declaração de reservista e nem servir o país numa guerra (é privilégio, não direito).
  • Ter uma delegacia apenas para casos criminais contra a mulher (é direito, não privilégio).
  • Ter um vagão de trem e ônibus apenas para mulheres (é direito, não privilégio).
 Mas o movimento antifeminista não é um movimento único, centralizado ou homogêneo. Trata-se (assim como o antifa) de um conjunto de reações, correntes ideológicas, grupos organizados e discursos que, ao longo da história, se opuseram total ou parcialmente ao feminismo, às suas pautas ou às suas consequências sociais, políticas e culturais. Para compreendê-lo corretamente, é essencial situá-lo em diálogo constante com o próprio feminismo, pois o antifeminismo surge sempre como resposta a avanços feministas específicos. Por essa razão, é aconselhado ouvir as ideias de pensadoras feministas e antifeministas para de fato entender essas questões.
 De forma geral, o antifeminismo pode ser definido como a oposição ideológica, cultural ou política ao feminismo enquanto movimento social, às suas teorias ou às transformações que ele promove nas relações entre os sexos. Essa oposição pode assumir várias formas: Conservadora, religiosa, biologicista, liberal-clássica, reacionária, nacionalista, antiglobalista ou antimarxista.
 Nem todo antifeminismo é igual. Alguns defendem a diferença sexual como base social, outros defendem a família tradicional, a complementaridade entre homem e mulher ou a crítica ao que chamam de feminismo radical, interseccional ou ideologia de gênero. Outros, porém, descambam para misoginia aberta, o que não representa a totalidade do fenômeno antifeminista.
 O antifeminismo nasce praticamente junto com o feminismo. Quando surgem as primeiras reivindicações feministas — como: Direito à educação, direito à propriedade e o direito ao voto.
 Alguns pensamentos argumentados naquela época incluem a ideia de que mulheres seriam “naturalmente” destinadas ao lar, a política as tornaria “masculinizadas”, a igualdade destruiria a família ou que o feminismo violaria a ordem natural ou divina. Alguns filósofos, médicos e juristas do século XIX até produziram textos “científicos” alegando inferioridade intelectual feminina — muitos deles hoje desacreditados.
 Com o avanço do sufrágio feminino, o antifeminismo ganhou forma mais organizada. Curiosamente, muitas mulheres lideraram movimentos antifeministas, como: Associações de “donas de casa”, grupos religiosos femininos e organizações que defendiam que o voto feminino enfraqueceria o papel da mulher no lar. Essas mulheres não se viam como oprimidas, mas como guardiãs de um modelo social.
 Após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu um forte incentivo ao retorno das mulheres ao lar, especialmente nos EUA e na Europa Ocidental. Homens retornaram da guerra, mulheres eram pressionadas a abandonar empregos e o ideal da “boa esposa” era promovido. O antifeminismo aqui não se apresenta sempre como movimento explícito, mas como cultura, propaganda e moral social.
 Quando surge a segunda onda feminista (anos 1960–70), o antifeminismo se reorganiza de forma mais explícita. A segunda onda traz pautas como: Direito ao aborto, igualdade sexual, crítica à família patriarcal e revolução sexual. É claro que isso provoca forte reação. As principais críticas eram de que o feminismo destruiria a família, incentivaria a promiscuidade, criaria conflitos entre homens e mulheres, enfraqueceria a masculinidade e romperia com valores religiosos (o que de fato aconteceu).
 Um dos eventos mais emblemáticos associado ao antifeminismo foi a derrota da Equal Rights Amendment nos EUA, uma proposta de emenda à Constituição dos EUA que garantia a igualdade perante a lei para todos os cidadãos americanos, independentemente do sexo. O objetivo era tornar o sexo uma "classificação suspeita", exigindo "escrutínio rigoroso" para casos de discriminação com base no sexo e capacitando o Congresso a impor a igualdade de gênero. Isso afetaria áreas como emprego, propriedade, seguros e políticas militares, criando uniformidade onde as leis atualmente variam. Tal derrota da ERA foi em grande parte devido à mobilização antifeminista.
 A partir dos anos 1990, o antifeminismo se fragmenta ainda mais. Os principais alvos agora são: Feminismo radical, feminismo interseccional, teoria de gênero, políticas de cotas, linguagem neutra, militância identitária e cultura do cancelamento.
 Nos tempos modernos, o discurso antifeminista costuma afirmar que o feminismo deixou de buscar igualdade e passou a buscar supremacia, homens são tratados como culpados coletivos, há seletividade moral (defesa de mulheres apenas em certos contextos) e que o feminismo estaria ligado a projetos ideológicos maiores (marxismo cultural, globalismo etc).
 É importante notar que nem todos se autodenominam antifeministas, mas são frequentemente associados ao movimento por suas críticas. Alguns deles são:

  • Phyllis Schlafly – líder conservadora contra o ERA
  • Christina Hoff Sommers – crítica do feminismo acadêmico
  • Camille Paglia – crítica do feminismo radical e da vitimização feminina
  • Louise Perry – crítica do feminismo sexual contemporâneo
  • Jordan Peterson – crítico da política de gênero e do feminismo ideológico
  • Warren Farrell – ex-feminista, defensor dos direitos dos homens
  • Paul Elam – figura controversa ligada ao MRM (Men’s Rights Movement)
  • Ana Campagnolo – política, professora, historiadora e deputada estadual de Santa Catarina


Movimento Antimanicomial

 Um movimento que me faz oscilar entre meu lado bom e ruim, o antimanicomialismo é o ativismo contra hospícios e manicômios, conhecidos por seu histórico de violência e brutalidade para com enfermos e pessoas que estavam lá por "andarem fora da curva".
 Meu lado bom vê esse movimento como uma forma de abolir a ideia de que pessoas "diferentes" são naturalmente problemáticas ou doentes. Porém, meu lado "mau" vê esse movimento como uma faca de dois gumes, pois impede que pessoas de fato problemáticas sejam internadas compulsoriamente por representarem um risco para si e para os outros.
 O Movimento Antimanicomial luta contra a lógica do encarceramento da loucura e pela construção de formas humanizadas, comunitárias e emancipatórias de cuidado em saúde mental. Ele questiona não apenas os manicômios enquanto instituições físicas, mas toda uma mentalidade manicomial: autoritária, excludente, medicalizante e desumanizadora.
 O movimento defende que pessoas em sofrimento psíquico não devem ser isoladas da sociedade, a loucura não é sinônimo de periculosidade, o tratamento não pode ser baseado em punição, coerção ou exclusão e que o cuidado em saúde mental deve ser comunitário, interdisciplinar, territorial e centrado na pessoa, e não no diagnóstico.
 Com o avanço do capitalismo industrial e do Estado moderno, surgiram instituições para “administrar” os considerados desviantes: loucos, pobres, criminosos, prostitutas e pessoas com deficiência. Os manicômios surgem como locais de confinamento, vigilância e disciplina social.
 Após os horrores do nazismo, muitos profissionais começaram a questionar a violência institucional, o uso abusivo da psiquiatria e os tratamentos desumanos (choques, lobotomias, contenções). Esse questionamento dá origem a uma série de reformas psiquiátricas em diferentes países. Antes do termo “antimanicomial” se consolidar, surgiu a Antipsiquiatria, principalmente no Reino Unido e nos EUA.
 As principais ideias eram de que a loucura é uma resposta a contextos sociais opressores, o diagnóstico psiquiátrico pode ser uma forma de rotulação e a psiquiatria tradicional reforça relações de poder.

  • R.D. Laing – via a esquizofrenia como uma forma de expressão existencial
  • David Coopercunhou o termo “antipsiquiatria”
  • Thomas Szaszafirmou que “doença mental” é um mito social

Apesar de revolucionária, a antipsiquiatria recebeu críticas por romantizar o sofrimento psíquico e negligenciar a necessidade de cuidado clínico em alguns casos. O marco mais importante do Antimanicomialismo mundial ocorreu na Itália.
 Franco Basaglia foi um psiquiatra italiano que liderou uma revolução prática, não apenas teórica. Suas ideias centrais giravam em torno da crença de que o manicômio é uma instituição de violência, de que não existe neutralidade científica dentro de uma instituição opressora e que a liberdade é terapêutica.
 Basaglia assumiu hospitais psiquiátricos e abriu os portões, aboliu camisas de força, substituiu punição por diálogo e integrou pacientes à cidade. Isso culminou na Lei 180 (ou Lei Basaglia), que determinou o fechamento progressivo dos manicômios, a criação de serviços comunitários e o fim das internações de longa permanência. Essa lei é considerada o nascimento formal do Movimento Antimanicomial moderno.
 O Brasil é um dos países onde o movimento teve maior força política e social. Durante a ditadura (1964–1985): manicômios eram usados para abandono social, punição de pobres e silenciamento de dissidentes. Havia superlotação, maus-tratos e mortes sistemáticas.
 Houve o Encontro de Bauru (1987), considerado o nascimento oficial do Movimento Antimanicomial brasileiro. Ele reuniu profissionais da saúde, usuários, familiares e militantes sociais; e produziu o Manifesto de Bauru, que defendia o fim dos manicômios, a cidadania da pessoa em sofrimento mental e a reforma psiquiátrica.
 No dia 18 de maio – Dia Nacional da Luta Antimanicomial, uma data celebrada anualmente no Brasil, ocorre marchas, atos culturais, debates públicos e intervenções artísticas.
  A Lei nº 10.216/2001, conhecida como Lei Paulo Delgado, estabelece o direitos das pessoas com transtornos mentais, a prioridade para tratamento em serviços comunitários e a internação apenas como último recurso.
 Houve também a criação da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) com CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), residências terapêuticas, atenção básica integrada e redução de hospitais psiquiátricos.
 Alguns ativistas antimanicomialistas incluem:

  • Franco Basaglia – principal referência mundial
  • Michel Foucault – crítica histórica e filosófica
  • Erving Goffman – análise das instituições totais
  • Paulo Amarante – teórico central da reforma psiquiátrica
  • Nise da Silveira – pioneira do cuidado humanizado, uso da arte e da afetividade
  • Gastão Wagner de Sousa Campos
  • Benedetto Saraceno (atuou fortemente no Brasil)


Movimento Feminista

 Um dos movimentos sociais mais controversos da atualidade, o movimento feminista tem como objetivo central a igualdade de direitos entre mulheres e homens, bem como a libertação das mulheres de estruturas históricas de opressão baseadas no gênero.
 Embora o feminismo enquanto movimento organizado surja a partir do século XVIII, suas raízes são mais antigas. Em diferentes civilizações, mulheres já questionavam seu lugar social, ainda que de forma isolada ou reprimida.
 Durante a Idade Média e o Renascimento, mulheres eram legalmente subordinadas aos homens (pais, maridos ou irmãos). A educação formal feminina era rara, e mulheres não tinham direitos políticos, jurídicos ou patrimoniais plenos. Com o Iluminismo (séculos XVII e XVIII), ideias como razão, igualdade e direitos naturais começaram a entrar em choque com a exclusão feminina desses mesmos direitos.
 Em 1791, foi lançada a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, de Olympe de Gouges, na França. Ela questionava por que a Revolução Francesa defendia igualdade e liberdade apenas para homens. Foi guilhotinada em 1793.
 Em 1792, foi publicada a obra "A Vindication of the Rights of Woman”, de Mary Wollstonecraft, na Inglaterra. Defendeu que mulheres não eram inferiores por natureza, mas sim privadas de educação. Esses textos são considerados o nascimento do feminismo moderno.
 A história do feminismo costuma ser dividida em ondas, cada uma com demandas específicas. A Primeira Onda Feminista (século XIX – início do século XX) tinha como principais pautas: O direito ao voto (sufrágio feminino), direito à educação, direito à propriedade e reconhecimento jurídico. Essa onda ocorreu em meio à Revolução Industrial, quando mulheres trabalhavam em fábricas, mas sem direitos políticos ou civis.
 Nessa época, ocorreu a Convenção de Seneca Falls (1848 – EUA) - A primeira convenção feminista da história. Produziu a “Declaração de Sentimentos”, inspirada na Declaração de Independência dos EUA. Aqui, nasceu o Movimento das Sufragistas, onde mulheres organizaram marchas, greves de fome e atos de desobediência civil. Algumas foram presas e violentadas pelo Estado.
 Entre as ativistas feministas dessa época, estão: 

  • Susan B. Anthony (EUA)
  • Elizabeth Cady Stanton (EUA)
  • Emmeline Pankhurst (Reino Unido)
  • Sojourner Truth (EUA) – mulher negra, ex-escravizada, articulou gênero e raça.
 Elas conquistaram o direito ao voto feminino (em países como EUA, Reino Unido, Canadá e, mais tarde, Brasil – 1932).
 A Segunda Onda Feminista (décadas de 1960–1980) tinha como principais pautas a implementação de direitos reprodutivos (contracepção e aborto), igualdade no mercado de trabalho, o combate à violência doméstica, questionamento dos papéis de gênero e a sexualidade feminina. Tudo isso aconteceu pós-Segunda Guerra Mundial, crescimento dos movimentos civis, estudantis e contra-culturais.
 Nessa época, Simone de Beauvoir publicou em 1949 a obra "O Segundo Sexo", onde estampou sua frase célebre: “Não se nasce mulher, torna-se.”, e analisou como a sociedade constrói a opressão feminina.
 Alguns eventos importantes incluem a criação de casas-abrigo para mulheres vítimas de violência, as lutas por igualdade salarial e a legalização da pílula anticoncepcional em vários países. Ações essas popularizadas por pensadoras como:
  • Simone de Beauvoir (França)
  • Betty Friedan (EUA) – “A Mística Feminina”
  • Angela Davis (EUA) feminismo negro e marxista
  • Bell Hooks – crítica ao feminismo branco e elitista
 Já a Terceira Onda Feminista (décadas de 1990–2000) teve como principais pautas a diversidade e pluralidade de experiências femininas, o feminismo negro, indígena e LGBT, a identidade de gênero e sexualidade e a crítica à ideia de uma “mulher universal”. Aqui, foram estabelecidos conceitos como Interseccionalidade (termo popularizado por Kimberlé Crenshaw), questionamento de padrões estéticos e reapropriação do corpo e da sexualidade, popularizado por pensadoras como:

  • Judith Butler – teoria de gênero
  • Riot Grrrl (movimento punk feminista)
  • Chimamanda Ngozi Adichie – feminismo africano contemporâneo
 Por fim, a Quarta Onda Feminista (2010 – atualidade) caracterizou-se pela forte presença nas redes sociais, o uso de hashtags, mobilização digital e a denúncia de abusos e violências. Alguns eventos marcantes incluem a hashtag #MeToo (2017) que gerou denúncias globais de assédio e abuso sexual, especialmente no meio artístico e corporativo; a Marcha das Mulheres (2017), onde milhões de mulheres protestaram em vários países; e as lutas contra o feminicídio, especialmente fortes na América Latina.


Movimento Indigenista

 Para mim, o movimento social mais necessário na era em que vivemos, o Indigenismo é um conjunto amplo, diverso e histórico de iniciativas políticas, sociais, culturais e intelectuais voltadas à defesa dos povos indígenas, de seus territórios, culturas, línguas, cosmovisões e direitos humanos fundamentais.
 O indigenismo, em sentido amplo, refere-se a políticas, ideologias e movimentos que tratam da “questão indígena”. Historicamente, ele passou por fases muito distintas:

  1. Indigenismo colonial e assimilacionista - Via o indígena como alguém a ser “civilizado”, convertido ou integrado à sociedade dominante. Muitas vezes foi violento, etnocida e destrutivo.

  2. Indigenismo tutelar (séculos XIX–XX) - Defendia a proteção dos indígenas, mas sob tutela do Estado. Presumia que os povos indígenas desapareceriam ou seriam absorvidos.

  3. Indigenismo crítico e decolonial (século XX em diante) - Reconhece os povos indígenas como sujeitos políticos autônomos, com direito à autodeterminação. É a base do movimento indígena contemporâneo.

 Hoje, fala-se cada vez mais em movimento indígena (protagonizado pelos próprios povos) do que em indigenismo clássico (frequentemente conduzido por não indígenas).
 As primeiras manifestações “indigenistas” surgem ainda no período colonial, de forma ambígua, como quando missionários como Bartolomé de Las Casas (Espanha) denunciaram massacres e a escravidão indígena; ao mesmo tempo que defendiam a evangelização e a substituição das cosmologias indígenas. Foi uma defesa humanitária, mas ainda profundamente eurocêntrica.
 Com a formação dos Estados nacionais na América Latina, o indígena passou a ser exaltado simbolicamente (na arte, na literatura, no romantismo). Mas na prática, ocorreu expropriação de terras, guerras de extermínio e políticas de “branqueamento” e assimilação. Um exemplo foi o indígena idealizado de José de Alencar, que contrastava com o genocídio real.



 No século XX, é fundado o Congresso Indigenista Interamericano (1940 – México), criando o Instituto Indigenista Interamericano. O objetivo era integrar os povos indígenas ao “progresso nacional”. Apesar de avanços, ainda era um modelo paternalista.
 A partir da segunda metade do século XX, ocorreu uma mudança radical, com movimentos de direitos civis, lutas anticoloniais, antropologia crítica e emergência de intelectuais indígenas. É aqui que os povos indígenas passam a dizer: “Nada sobre nós sem nós.”
 Nessa época, houve uma declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007), reconhecendo o direito à autodeterminação, direito ao território ancestral, direito à cultura, língua e espiritualidade e a consulta prévia (Convenção 169 da OIT).
 No Brasil, pela primeira vez, a Constituição reconheceu os povos indígenas como existentes no presente, não como povos “em extinção”, garantindo direito originário às terras, respeito às culturas e línguas e organização social própria. Os artigos 231 e 232 são fundamentais.
 O Levante Zapatista ocorreu em 1994, no México, e embora não exclusivamente indígena, teve forte base indígena, com a formação do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional), que defendia autonomia, território, antineoliberalismo e impacto global no pensamento decolonial.
 Desde 2004, há o Acampamento Terra Livre (ATL), que gerou mobilizações contra o marco temporal (uma tese jurídica que defende que os povos indígenas só têm direito à demarcação das terras que estavam ocupando fisicamente ou disputando em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal do Brasil. Essa tese ignora a história de expulsões e violências sofridas por esses povos antes dessa data), o garimpo ilegal, o desmatamento e a violência estatal e empresarial.
 Alguns dos principais ativistas indigenistas incluem:

  • Bartolomé de Las Casas (século XVI)
  • Darcy Ribeiro (Brasil)
  • Ailton Krenak (Brasil)
  • Davi Kopenawa Yanomami (Brasil)
  • Rigoberta Menchú (Guatemala)
  • Vandana Shiva (Índia)

 Atualmente, a luta indígena tem como desafios a luta pela demarcação de terras, o combate ao marco temporal, a defesa ambiental, a preservação de línguas, o reconhecimento da espiritualidade indígena e a resistência ao extrativismo predatório.


Movimento LGBT

 O Movimento LGBT é um conjunto diverso de lutas sociais, políticas e culturais que visam o reconhecimento, a dignidade, a liberdade e a igualdade de direitos para pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e outras identidades de gênero e orientações sexuais dissidentes da norma heterocisgênera.
 Antes da consolidação do movimento LGBT moderno, práticas e identidades hoje chamadas de “LGBT” existiam em diversas culturas, como na Grécia Antiga, onde relações homoafetivas eram socialmente reconhecidas em certos contextos; em povos indígenas das Américas, que reconheciam identidades de gênero não-binárias (como os Two-Spirit); na Índia antiga, onde há registros dos Hijras; e em muitas sociedades africanas e asiáticas, onde havia maior fluidez sexual e de gênero. Contudo, com a expansão do cristianismo institucional, a consolidação do Estado moderno europeu e o surgimento da medicina psiquiátrica do século XIX, a homossexualidade e as identidades trans passaram a ser criminalizadas, patologizadas e moralmente condenadas.
 O movimento LGBT organizado começou a surgir no final do século XIX, principalmente na Europa, com Karl Heinrich Ulrichs (Alemanha) sendo um dos primeiros a se declarar publicamente homossexual (1867). Ele defendia que a homossexualidade era uma condição natural.
 Também tinha Magnus Hirschfeld, fundador do Instituto de Ciências Sexuais (1919), em Berlim, que defendia direitos para homossexuais e pessoas trans. Seu instituto foi destruído pelos nazistas em 1933. Esse período foi brutalmente interrompido pelo nazismo, que perseguiu homossexuais (triângulo rosa) e destruiu grande parte do conhecimento produzido.
 Após a Segunda Guerra Mundial, houve forte repressão moral, leis anti-homossexualidade e perseguições policiais e psiquiátricas. Mesmo assim, surgiram grupos pioneiros, como o Mattachine Society (EUA, 1950) e o Daughters of Bilitis (grupo lésbico, 1955), que buscavam respeitabilidade, aceitação gradual e diálogo institucional. Eram, porém, moderados, refletindo o medo da repressão da época.
 Em 28 de junho de 1969, frequentadores do bar Stonewall Inn (NY, EUA) — majoritariamente gays, lésbicas, pessoas trans, drag queens, pessoas negras e latinas, reagiram a uma batida policial violenta, algo comum na época. Durante vários dias, houve protestos, confrontos com a polícia e organização espontânea. Stonewall não foi a primeira revolta LGBT, mas foi a mais simbólica porque aconteceu em um contexto de efervescência política (movimento negro, feminista, contra a guerra), deu origem a um movimento combativo, orgulhoso e público. É por isso que 28 de junho é celebrado como o Dia do Orgulho LGBT.
 Após Stonewall, o tom muda radicalmente, com LGBTs deixando de sentir vergonha e passando a sentir orgulho, deixando de serem invisíveis para passarem a ocupar o espaço público e deixando de se adaptar para finalmente contestar o sistema. Aqui, eles já rejeitavam a patologização, criticavam a família tradicional e ao patriarcado e se aliavam com o feminismo, o movimento negro e o socialismo. Nessa época, houveram as primeiras Paradas do Orgulho (1970, EUA) e a expansão do movimento para Europa e América Latina.
 Nos anos 80, a epidemia de HIV/AIDS foi devastadora, com milhões de mortes, estigmatização extrema e negligência governamental, inicialmente chamada de “câncer gay” e “peste gay”. A crise forçou o movimento LGBT a se organizar politicamente, gerando a ACT UP (EUA): ativismo radical por acesso a medicamentos; a pressão por pesquisa científica; e a humanização das pessoas com HIV. Essa fase consolidou o movimento como força política estruturada.
 De 1990 a 2010, os direitos LGBT se consolidaram com a retirada da homossexualidade da lista de doenças da OMS (1990), leis anti-discriminação, casamento civil igualitário (iniciado na Holanda, 2001) e reconhecimento legal de pessoas trans em vários países.
 No Brasil, surgiu o primeiro grupo LGBT: Somos (1978), a primeira Parada do Orgulho LGBT: São Paulo, 1997, a criminalização da homofobia e transfobia (2019) e também o STF reconhece união estável homoafetiva (2011).
 Alguns ativistas LGBT famosos incluem:

  • Marsha P. Johnson – mulher trans negra, figura central em Stonewall
  • Sylvia Rivera – ativista trans e latina
  • Harvey Milk – primeiro político gay assumido eleito na Califórnia
  • Audre Lorde – escritora, lésbica, feminista negra
  • Larry Kramer – fundador do ACT UP
  • João W. Nery – pioneiro transmasculino
  • Herbert Daniel – militante político e escritor
  • Luana Barbosa (símbolo pós-morte da violência lesbofóbica)
  • Erika Hilton, Jean Wyllys, Duda Salabert – ativismo político contemporâneo


Movimento dos Sem-Terra

 O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é um dos mais importantes, controversos e duradouros movimentos sociais da história do Brasil contemporâneo. Sua atuação envolve luta por reforma agrária, justiça social, democratização do acesso à terra e transformação estrutural do modelo agrário brasileiro.
 A origem do MST está ligada a um problema estrutural que remonta ao período colonial: a concentração fundiária. Desde as capitanias hereditárias, a terra no Brasil foi distribuída de forma desigual. O modelo do latifúndio se manteve ao longo do Império, da República Velha e do período industrial. Mesmo com a modernização agrícola do século XX, o campo brasileiro continuou marcado por poucos proprietários com grandes extensões de terra, milhões de trabalhadores rurais sem acesso à terra e a expulsão de camponeses por mecanização e agronegócio.
 Durante a ditadura militar (1964–1985), houve um discurso de “reforma agrária”, mas na prática ela foi substituída por um projeto de modernização conservadora do campo, que aumentou a concentração de terras e os conflitos rurais.
 O MST surge formalmente em 1984, durante o 1º Encontro Nacional dos Trabalhadores Sem Terra, realizado em Cascavel (PR). O MST não surgiu do nada; ele é fruto da convergência de vários fatore, como as ocupações espontâneas de terra no Sul do Brasil (anos 1970 e início dos 1980), a atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da Teologia da Libertação, o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a crise econômica, desemprego e êxodo rural. Esses grupos começaram a se organizar de forma nacional, percebendo que a luta isolada não produzia resultados duradouros.
 O objetivo central do MST é realizar a reforma agrária no Brasil, entendida não apenas como distribuição de terras, mas como transformação social. Para os membros, a terra deve cumprir sua função social (prevista na Constituição de 1988), a luta deve ser coletiva e organizada, com educação popular e formação política, solidariedade entre os trabalhadores e defesa da soberania alimentar.
 O MST critica o agronegócio e defende a agricultura familiar, produção agroecológica, cooperativismo e produção de alimentos para o mercado interno.
 O MST atua por meio de diversas estratégias, como:

Ocupações de terra

  • A principal forma de pressão política, dizendo que geralmente ocorrem em áreas consideradas improdutivas ou que não cumprem função social, mas na verdade eles invadem propriedades privadas e com famílias, atacando e depredando o lar alheio. As ocupações dão origem a acampamentos (fase inicial) e assentamentos (quando a terra é legalizada).

Educação

  • Criação de escolas em assentamentos, onde ocorre alfabetização de adultos (obviamente com alienação ideológica), parcerias com universidades e influência da pedagogia de Paulo Freire.

Produção

  • Cooperativas agrícolas, produção de arroz orgânico, feijão, leite, hortaliças. Inclusive, dizem que o MST é um dos maiores produtores de arroz orgânico da América Latina.

Mobilização política

  • Marchas nacionais, ocupações de prédios públicos, articulação com outros movimentos sociais.

Alguns eventos marcantes no movimento incluem:
  • Massacre de Eldorado do Carajás (1996) - Um dos episódios mais trágicos da história do MST. No Pará, 19 trabalhadores sem terra foram assassinados pela Polícia Militar durante uma marcha. Tornou-se símbolo internacional da violência no campo. O dia 17 de abril passou a ser o Dia Internacional da Luta Camponesa.
  • Marcha Nacional a Brasília (1997) - Onde cerca de 100 mil pessoas se reuniram para exigir a reforma agrária e justiça social, o que consolidou o MST como movimento nacional.

 Ainda que o MST evite a personalização excessiva, algumas figuras se tornaram referências, como:

  • João Pedro Stédile - Economista, um dos principais idealizadores e porta-vozes do MST
  • José Rainha Júnior - Liderança histórica que posteriormente rompeu com o MST e criou outros movimentos.
  • Marina dos Santos - Dirigente nacional que atuou em educação e formação política.
  • Dom Pedro Casaldáliga (bispo ligado à CPT)
  • Frei Betto (intelectual cristão de esquerda)
  • Paulo Freire (pedagogia)


Movimento VAT

 O Movimento VAT – Vida Além do Trabalho é um fenômeno social, cultural e político relativamente recente no Brasil, mas que dialoga com debates globais antigos sobre trabalho, dignidade humana, saúde mental, tempo livre e sentido da vida. Ele defende a ideia central de que o trabalho não pode ser o eixo absoluto da existência humana.
 O movimento questiona o paradigma segundo o qual o valor de uma pessoa é medido pela sua produtividade; jornadas extenuantes são “normais” ou “necessárias”; o sofrimento psicológico é um preço aceitável para sobreviver; e o descanso, lazer, espiritualidade, criação e ócio são “privilégios”.
 O VAT não é, em sua essência, “anti-trabalho”, mas anti-exploração, anti-alienação e anti-redução da vida ao emprego.
 O movimento ganha força especialmente após a reforma trabalhista brasileira de 2017; a expansão da uberização; o crescimento do MEI por necessidade, não por escolha; a pandemia de COVID-19, que escancarou: exaustão mental, insegurança financeira, dissolução das fronteiras entre trabalho e vida pessoal. Muitos trabalhadores passaram a viver em um estado de alerta permanente, com múltiplas funções, salários estagnados, cobrança por “paixão” e “resiliência” e culpa por descansar.
 O VAT também surge como reação direta à chamada cultura do desempenho, descrita por filósofos como Byung-Chul Han, onde o indivíduo se autoexplora; o fracasso é visto como falha moral; e a positividade tóxica substitui direitos concretos.
 O VAT nasce nas redes sociais, especialmente Twitter (X), Instagram e TikTok. Inicialmente, não como uma organização formal, mas como relatos pessoais de esgotamento; denúncias de abusos trabalhistas; memes irônicos sobre a vida corporativa; e questionamentos sobre a “glorificação do cansaço”. O termo “Vida Além do Trabalho” passa a funcionar como um slogan agregador, algo simples, mas profundamente subversivo.
 Com o aumento da adesão, o VAT passa a organizar debates públicos; participar de audiências e eventos acadêmicos; dialogar com sindicatos e coletivos; e pautar a mídia tradicional. Ele deixa de ser apenas um desabafo digital e se transforma em movimento social articulado, ainda que horizontal e descentralizado.
 Entre as bandeiras mais recorrentes do VAT, destacam-se:

  • Redução da jornada de trabalho, com a defesa da escala 4x3 ou jornadas de 30–36 horas semanais; crítica à escala 6x1, vista como desumanizante; e o argumento de que produtividade não é proporcional ao tempo trabalhado.
  • Saúde mental como direito trabalhista, com o combate ao burnout normalizado; o reconhecimento de adoecimento psíquico como consequência estrutural; e a crítica à medicalização do sofrimento sem mudança das condições de trabalho.
  • Renda, dignidade e tempo, com o debate sobre renda básica universal; valorização do tempo livre como bem social; reconhecimento de atividades não remuneradas (cuidado, criação, estudo).
  • Fim da romantização da exploração, com a rejeição do discurso do “sacrifício agora para viver depois”; a crítica ao empreendedorismo compulsório; e o questionamento da meritocracia abstrata.

 É importante dizer: o VAT não tem um “líder único”, mas algumas figuras se tornam referências, como por exemplo:

  • Rick Azevedo - Talvez o nome mais associado ao VAT no Brasil. Ele é um ativista trabalhista; comunicador direto e acessível; defensor ferrenho do fim da escala 6x1; e tornou-se uma das principais vozes públicas do movimento. Rick traduz debates complexos em linguagem popular, o que amplia o alcance do VAT.
  • Byung-Chul Han (crítica ao desempenho);
  • David Graeber (trabalhos inúteis);
  • Karl Marx (alienação);
  • Domenico De Masi (ócio criativo).


Movimento Antiespecista

 O Movimento Antiespecista questiona profundamente a forma como os seres humanos se relacionam com os demais animais. Ele denuncia o especismo, isto é, a discriminação moral baseada na espécie, de modo análogo ao racismo, sexismo ou outras formas de opressão estruturais. Para o antiespecismo, a capacidade de sentir (senciência) — e não a espécie — deve ser o critério central para consideração moral.
 O termo especismo (speciesism) foi cunhado em 1970 pelo psicólogo britânico Richard D. Ryder. Ele observou que a sociedade aceita infligir sofrimento extremo a animais não humanos apenas porque pertencem a outra espécie, algo que não seria moralmente tolerado se feito a humanos.
 O especismo se manifesta em práticas como: Exploração animal para alimentação (pecuária, pesca, laticínios), testes científicos em animais, uso de animais para entretenimento (circos, rodeios, zoológicos), indústria da moda (couro, lã, peles) e caça esportiva. O antiespecismo não afirma que humanos e animais são iguais em tudo, mas que diferenças não justificam sofrimento evitável ou exploração.
 Embora o termo seja recente, as ideias que fundamentam o antiespecismo têm raízes antigas.

  • Pitágoras (séc. VI a.C.): defendia o vegetarianismo por razões éticas e espirituais.
  • Budismo e Jainismo: pregam a não violência (ahimsa) contra todos os seres sencientes.
  • São Francisco de Assis: via os animais como irmãos na criação.
  • Arthur Schopenhauer (séc. XIX): criticava duramente a ética ocidental por ignorar o sofrimento animal.

 Apesar disso, essas visões eram isoladas e não formavam um movimento político organizado. O movimento antiespecista, como o conhecemos hoje, surge a partir da segunda metade do século XX, especialmente no contexto das lutas por direitos civis, feminismo e críticas ao antropocentrismo.
 O marco fundador é o livro: “Animal Liberation” (1975)Peter Singer. Singer, filósofo utilitarista, argumenta que se um ser pode sofrer, seu sofrimento deve ser considerado moralmente; ignorar o sofrimento animal apenas por não serem humanos é especismo; e que a exploração animal causa sofrimento em escala industrial.
 Esse livro teve impacto comparável ao de obras fundadoras do feminismo e do movimento negro, sendo considerado o estopim do movimento pelos direitos animais e do antiespecismo contemporâneo.
 Outro pensador central é Tom Regan, com a obra “The Case for Animal Rights” (1983), onde Regan discorda do utilitarismo de Singer e defende que animais são “sujeitos-de-uma-vida”, possuem valor inerente e têm direitos morais básicos, como o de não serem usados como meios.
 A partir dos anos 1980 e 1990, o antiespecismo deixa o meio acadêmico e ganha as ruas. O veganismo passa a ser entendido não apenas como dieta, mas como um posicionamento ético, um boicote ao sistema de exploração animal e uma prática cotidiana antiespecista.
 Diversas ONGs e coletivos passam a atuar com foco explícito na libertação animal:

  • PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) – EUA
  • Animal Liberation Front (ALF) – ação direta
  • Mercy For Animals
  • Anonymous for the Voiceless
  • DXE (Direct Action Everywhere)
 Alguns eventos e ações antiespecistas incluem a Marcha Mundial pelo Fim do Especismo, que ocorre anualmente em dezenas de países, reúne milhares de ativistas para denunciar o uso de animais como propriedade. Além desse, há o Cubos da Verdade (Cube of Truth), popularizados pelo Anonymous for the Voiceless, que consistem em ativistas usando máscaras (inspiradas em Anonymous), exibindo vídeos reais de abatedouros e abordagem direta ao público.
 Grupos como DXE e ALF realizam invasões em fazendas industriais, resgates de animais e denúncias filmadas. Essas ações são controversas e frequentemente criminalizadas, mas vistas pelos ativistas como desobediência civil ética.
 Alguns ativistas antiespecistas famosos incluem:

  • Peter Singer – filósofo, referência ética
  • Tom Regan – base teórica dos direitos animais
  • Gary Francione – abolicionismo animal
  • Joaquin Phoenix – ator e ativista vegano
  • Earthling Ed (Ed Winters) – educador e debatedor antiespecista
  • Melanie Joy – criadora do conceito de carnismo
  • Gary Yourofsky (embora internacional, teve enorme impacto no Brasil)
  • Rita Von Hunty (em diálogos interseccionais)
  • Santuários como o Vale da Rainha


Movimento Antirracista

 O Movimento Antirracista tem como objetivo combater o racismo em todas as suas formas — individual, institucional, estrutural e simbólica — e promover a igualdade racial, a dignidade humana e a justiça social.
 O racismo moderno nasce com a colonização europeia (séculos XV–XIX). Ele se fundamenta na ideia de que a humanidade pode ser hierarquizada biologicamente ou culturalmente. Serviu como justificativa ideológica para: Escravidão africana, genocídio de povos indígenas, colonialismo, segregação racial, apartheid e políticas de eugenia.
 O antirracismo, portanto, surge como resposta direta à violência racial, e não como um movimento recente ou “moda ideológica”.
 O movimento antirracista começa dentro da própria escravidão, mesmo antes de existir esse nome. Alguns exemplos são:

  • Quilombos (Brasil): como o Quilombo dos Palmares
  • Revoltas de escravizados:
    Revolta dos Malês (Brasil)
    Revolução Haitiana (1791–1804)
  • Preservação cultural africana como forma de resistência:
    Religiões afro-diaspóricas
    Línguas, músicas, símbolos, mitologias
    A Revolução Haitiana, liderada por pessoas negras escravizadas, foi o primeiro Estado moderno governado por ex-escravizados, e um marco global do antirracismo.
O abolicionismo foi um dos primeiros movimentos políticos organizados contra o racismo institucional da escravidão. Teve como figuras importantes: Frederick Douglass (EUA), Harriet Tubman (EUA), Luís Gama (Brasil) e Sojourner Truth (EUA). Apesar de muitos abolicionistas serem brancos, os principais agentes da luta foram pessoas negras, muitas vezes invisibilizadas pela história oficial.
 Um dos capítulos mais conhecidos do antirracismo ocorre nos Estados Unidos, entre as décadas de 1950 e 1970. Nessa época, houveram leis de segregação racial (Jim Crow), violência policial sistemática e supressão do voto negro. Alguns eventos marcantes incluem:

  • Boicote aos ônibus de Montgomery (1955)
  • Marcha sobre Washington (1963)
  • Assassinato de Martin Luther King Jr. (1968)
Esse período estabelece o antirracismo como movimento político de massas, articulado com leis, protestos e produção intelectual. Paralelamente, surgem movimentos de valorização identitária:

  • Pan-africanismo: união política e cultural da diáspora africana
    W.E.B. Du Bois
    Kwame Nkrumah
  • Negritude (África e Caribe):
    Aimé Césaire
    Léopold Sédar Senghor
Esses movimentos combatem o racismo não apenas com leis, mas com reconstrução simbólica, cultural e espiritual da identidade negra.
 O Brasil possui uma história peculiar: aboliu a escravidão em 1888, mas sem políticas de integração, criando um racismo estrutural profundo e silencioso. Nessa época pós-abolição, houve um crescimento da ideologia do branqueamento, o mito da democracia racial e a exclusão social sistemática.
 Aqui, já se iniciava a organização do movimento negro, com a Frente Negra Brasileira (1931), o Teatro Experimental do Negro e o Movimento Negro Unificado (MNU) – fundado em 1978.
O MNU é considerado o marco do antirracismo contemporâneo brasileiro, denunciando violência policial, racismo institucional e desigualdade no acesso à educação e trabalho.
 Nos tempos atuais, houve o surgimento de novos movimentos sociais antirracistas, como o Black Lives Matter (BLM), criado em 2013, após a absolvição do assassino de Trayvon Martin, o Black Lives Matter se tornou um dos maiores movimentos antirracistas da história recente. Eventos como o assassinato de George Floyd (2020) geraram protestos globais, inclusive no Brasil.
 Alguns ativistas mais conhecidos do movimento antirracista incluem:

  • Martin Luther King Jr. – resistência não violenta
  • Rosa Parks – desobediência civil
  • Malcolm X – autodeterminação e crítica ao racismo estrutural
  • Angela Davis – interseccionalidade entre raça, classe e gênero
  • Abdias do Nascimento
  • Lélia Gonzalez
  • Sueli Carneiro
  • Beatriz Nascimento
  • Milton Santos
  • Djamila Ribeiro (contemporânea)


Movimento Sionista

 O Movimento Sionista foi um grande movimento político-nacionalista que, a partir do final do século XIX, propôs a criação e o apoio a um Estado nacional judeu na Palestina (a antiga “Terra de Israel”), como resposta à longa história de dispersão (diáspora) e perseguição antissemita que judeus enfrentavam na Europa e em outras partes do mundo.
 A ligação histórica e religiosa dos judeus com a Terra de Israel existia há milênios, mas só se transformou em um movimento político organizado no final do século XIX, em meio ao crescimento do antissemitismo europeu e das ideias nacionalistas. O termo sionismo deriva de Sião, um dos nomes bíblicos de Jerusalém, usado para simbolizar a pátria judaica.
 Antes de Herzl, já existiam grupos informalmente sionistas, como os Hovevei Zion (“Amantes de Sião”), que promoveram a colônia agrícola judaica na Palestina nos anos 1880.
 Theodor Herzl – Pai do Sionismo Político (1860–1904), jornalista judeu austro-húngaro, é considerado o fundador do sionismo político moderno. Ele escreveu o influente livro Der Judenstaat (O Estado Judeu) em 1896, defendendo que a solução ao problema antissemita era a criação de um Estado soberano para os judeus. Herzl concluiu que a emancipação dos judeus na Europa era impossível sem um Estado nacional próprio — uma ideia radical para a época.
 Em 29–31 de agosto de 1897, Herzl convocou o Primeiro Congresso Sionista Mundial em Basileia (Suíça). Esse evento formalizou o movimento sionista, adotou o chamado Programa de Basileia e fundou a Organização Sionista Mundial. O objetivo declarado foi: “criar um lar nacional judaico na Palestina, assegurado por lei pública” — um marco fundacional do sionismo.
 Herzl também fundou o jornal Die Welt em 1897, que se tornou o principal veículo de divulgação das ideias sionistas em toda a Europa até 1914. O movimento continuou a se reunir em congressos bianuais que ajudaram a consolidar sua estrutura global.
 Antes mesmo de Herzl, grandes ondas de imigração judaica (Aliyah) começaram a chegar à Palestina sob domínio otomano, especialmente da Europa Oriental, estabelecendo aldeias e comunidades agrícolas.
 Em 1917, o governo britânico emitiu a Declaração Balfour, apoiando a criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina. Esse foi o primeiro reconhecimento significativo por uma grande potência internacional.
 Durante o Mandato Britânico sobre a Palestina (1920–1948), organizações sionistas como a Agência Judaica e o Fundo Nacional Judaico ajudaram na compra de terras, imigração e construção de infraestrutura.
 Grupos sionistas criaram organizações de autodefesa e forças paramilitares como a Haganá, que mais tarde formaria o núcleo do Exército de Defesa de Israel (IDF) após a independência. Em 1942, a Conferência de Biltmore nos EUA intensificou a exigência de um “Commonwealth Judeu”, refletindo uma postura mais assertiva dentro do movimento.
 Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou a independência do Estado de Israel, efetivando o principal objetivo do sionismo moderno após décadas de organização e luta diplomática.
 Alguns ativistas sionistas mais conhecidos incluem:

  • Theodor Herzl - Fundador do sionismo político moderno e presidente do primeiro Congresso Sionista Mundial.
  • Chaim Weizmann (1874–1952) - Líder sionista influente, desempenhou papel crucial na diplomacia da Declaração Balfour e foi o primeiro presidente de Israel depois de 1948.
  • David Ben-Gurion (1886–1973) - Figura central no estabelecimento do Estado de Israel e seu primeiro primeiro-ministro. Liderou o sionismo trabalhista e ajudou a transformar o sonho sionista em realidade estatal.
  • Ze’ev Jabotinsky (1880–1940) - Fundador do sionismo revisionista, defendendo uma abordagem mais combativa e nacionalista; também criou o movimento juvenil Betar.
  • Max Bodenheimer - Advogado e liderança do sionismo alemão, cofundador de importantes instituições e participante ativo dos congressos sionistas.


Movimento Antinatalista

 O Antinatalismo sustenta a ideia de que trazer novos seres humanos (ou seres sencientes) à existência é moralmente problemático ou eticamente errado. Embora hoje seja associado a debates contemporâneos na internet, bioética e filosofia moral, suas raízes são antigas, profundas e multifacetadas, atravessando religiões, pessimismo filosófico, literatura e crítica social.
 No núcleo do antinatalismo está a tese de que a existência implica sofrimento, e o não-existir evita esse sofrimento sem privar ninguém de algo. A maioria dos antinatalistas não odeia a vida, nem deseja a morte dos vivos. Pelo contrário: muitos afirmam compaixão radical pelos seres existentes e consideram que não criar novos seres é um ato de misericórdia.
 Há diferentes vertentes, mas os argumentos centrais costumam envolver o sofrimento é inevitável na vida, o prazer não compensa moralmente o sofrimento imposto, não nascer não é um mal (não há um sujeito privado), o consentimento é impossível antes do nascimento e a vida é imposta, não escolhida.
 Embora o termo seja moderno, a ideia é antiquíssima. Na Grécia Antiga, Sófocles, em Édipo em Colono, escreveu: “O melhor é não ter nascido; o segundo melhor é morrer cedo.”; enquanto Sileno, na mitologia grega, afirma a Midas que o melhor para o homem é não existir. Essas ideias expressam um pessimismo trágico, não exatamente um movimento, mas um solo conceitual importante.
 Já o Budismo enxerga a existência como dukkha (sofrimento, insatisfação). O ciclo de renascimentos (samsara) é algo a ser encerrado, não perpetuado. Embora não seja antinatalista explícito, o budismo valoriza o não-apego à reprodução.
 No Gnosticismo, muitos sistemas viam o mundo material como uma prisão criada por uma divindade inferior (Demiurgo). Gerar filhos era, para algumas seitas, aprisionar novas centelhas divinas na matéria.
 Enquanto que no Cristianismo primitivo (vertentes ascéticas), padres como Jerônimo e Agostinho exaltaram o celibato. A reprodução era vista como consequência da queda, não como ideal espiritual.
 Alguns ativistas antinatalistas incluem:

  • Arthur Schopenhauer (1788–1860) - O grande pai intelectual do antinatalismo moderno, embora nunca tenha usado o termo. Para ele, a vida é movida por uma Vontade cega, insaciável e irracional; o  prazer é apenas a cessação temporária da dor; e existir é sofrer; desejar é sofrer.
  • Eduard von Hartmann desenvolveu o pessimismo filosófico sistemático, afirmando que o saldo da vida é sempre negativo e o progresso humano não redime o sofrimento. Essas ideias alimentaram o solo intelectual do antinatalismo ético.
  • David Benatar – O filósofo sul-africano David Benatar é o expoente mais conhecido do antinatalismo contemporâneo, especialmente após o livro: Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence (2006).
  • Julio Cabrera (Brasil/Argentina) - Desenvolveu o conceito de “ética negativa”: a vida já começa ferindo o sujeito.
  • Peter Wessel Zapffe (Noruega) - Argumentou que a consciência humana é um erro evolutivo.
  • Thomas Ligotti - Escritor e filósofo pessimista, autor de The Conspiracy Against the Human Race.
  • Les U. Knight – ambientalista
  • Sarah Perry – autora de Every Cradle Is a Grave
  • Théophile de Giraud – ativista belga

 Como ativismo, o antinatalismo é exposto em organizações e comunidades como:

  • Voluntary Human Extinction Movement (VHEMT) - Fundado por Les U. Knight nos anos 1990. Defende a extinção voluntária da humanidade por não-reprodução, com foco ambiental.

  • Stop Having Kids - Movimento ativista com ações públicas, cartazes e campanhas online. Argumenta que ter filhos agrava o sofrimento, aumenta desigualdades e intensifica crises ambientais.


Movimento Antiglobalização

 O Movimento Antiglobalização critica a forma dominante de globalização, especialmente aquela conduzida por grandes corporações, instituições financeiras internacionais e potências econômicas. Importante frisar desde o início: não é um movimento contra a interconexão entre povos, mas contra um modelo específico de globalização, geralmente chamado de globalização neoliberal.
 O movimento antiglobalização surge como resistência à concentração de poder econômico, político e cultural em poucas mãos, geralmente: Grandes corporações multinacionais, instituições como FMI, Banco Mundial e OMC; e governos alinhados ao neoliberalismo econômico. Os críticos argumentam que esse modelo de globalização aumenta a desigualdade social, explora países periféricos, fragiliza culturas locais, precariza o trabalho, devasta o meio ambiente e submete Estados soberanos aos interesses do mercado. Por isso, muitos ativistas preferem o termo “Movimento por Justiça Global” ou “Alterglobalização”, indicando que outro tipo de globalização é possível.
 As bases do movimento começam a se formar nas décadas de 1970-1980, com a expansão do neoliberalismo (Thatcher no Reino Unido, Reagan nos EUA), privatizações em massa, desregulamentação dos mercados, crises da dívida em países da América Latina e África e programas de “ajuste estrutural” impostos pelo FMI. Essas políticas afetaram duramente populações pobres, gerando desemprego, cortes em serviços públicos e dependência econômica.
 A década de 1990 é crucial, pois foi quando ocorreu o fim da Guerra Fria (capitalismo global sem rival sistêmico), o crescimento da OMC (Organização Mundial do Comércio), o avanço de tratados como o NAFTA e a explosão da internet (articulação global de ativistas). Um marco simbólico anterior foi o Levante Zapatista (1994), no México, que já mencionei no início.
 Em 2001, em Gênova, ocorreu um dos episódios mais trágicos: A repressão extrema que ocasionou na morte do ativista Carlo Giuliani, baleado pela polícia; e denúncias de tortura em prisões. Esse evento marcou um ponto de inflexão: o movimento passou a ser tratado como ameaça à ordem pública.
 Alguns ativistas e intelectuais ligados ao movimento são:

Subcomandante Marcos - Símbolo do zapatismo.
Noam Chomsky - Crítico do neoliberalismo que denunciou o papel das corporações e da mídia.
Naomi Klein - Autora de “Sem Logo”, sendo uma crítica às marcas globais e ao capitalismo corporativo.
Vandana Shiva - Ambientalista indiana que defende a biodiversidade e critica as patentes de sementes e a biopirataria.
José Bové - Ativista francês que realizou protestos contra o agronegócio e pela defesa da soberania alimentar.


Masculinismo

 Masculinismo é um conjunto heterogêneo de movimentos, discursos e correntes que afirmam que homens, enquanto grupo, enfrentam problemas sociais, legais, psicológicos e culturais subestimados, invisibilizados ou ignorados. Não é um movimento único nem coeso. Ele funciona mais como um guarda-chuva que abriga posições muito diferentes — algumas moderadas, outras reativas, outras francamente ideológicas.
 O masculinismo não surge do nada, nem apenas “em oposição ao feminismo”. O movimento tem três raízes principais:

  • Reação ao feminismo institucional (anos 1960–80) - Reformas legais favoreceram mulheres em guarda de filhos, leis de violência doméstica e políticas públicas específicas, o que fez com que boa parte dos homens sentiu perda de voz institucional.
  • Crise do papel masculino tradicional - O homem deixa de ser o único provedor e autoridade incontestável, mas não recebe um novo papel social claro. Resultado: aumento de depressão masculina, suicídio e alienação social.
  • Invisibilidade do sofrimento masculino - Homens morrem mais cedo, são maioria em suicídios, trabalhos perigosos e população carcerária, mas culturalmente são ensinados a não falar. O masculinismo nasce desse vácuo.
 O masculinismo normalmente defende a guarda compartilhada real; o questionamento de vieses judiciais contra homens; críticas a falsas acusações; igualdade legal sem presunção automática de culpa; saúde mental masculina; falta de políticas públicas voltadas a homens; estigmatização da vulnerabilidade emocional masculina; pressões para ser forte, produtivo, invulnerável; falta de espaços seguros para homens falarem; crítica à ideia de que “homem não sofre”; meninos com pior desempenho escolar médio; falta de modelos masculinos positivos; e criminalização precoce do comportamento masculino.
 Os masculinistas defendem a igualdade de direitos e deveres, não rejeita o feminismo como um todo, mas sim reconhecendo problemas específicos de homens e mulheres, e buscando o diálogo. Essa vertente é a mais próxima de direitos humanos universais e políticas públicas baseadas em dados.
 Dentro do masculinismo, existe o Movimento dos Direitos dos Homens (MRM), com foco jurídico e institucional, que exerce forte crítica ao feminismo hegemônico e enfatiza leis de família, sistema penal e mídia; podendo variar de moderado a radical, dependendo do grupo.
 Assim como o feminismo tem as feministas radicais, no masculinismo existem os Red Pill, MGTOW (Men Going Their Own Way) e Incels (este último não é um movimento político estruturado, mas uma subcultura). Importante frisar que nem todo masculinista pertence a essas subculturas, nem toda crítica masculina leva a extremismo, mas a internet misturou tudo.
 Em relação ao feminismo, o conflito entre os dois movimentos se encontra em discussões onde há a narrativa de “opressor vs oprimido” aplicada de forma rígida, a leitura unilateral de estatísticas, a suposição de culpa coletiva masculina e a exclusão de homens de debates sobre gênero. É nesses casos que surgem generalizações, espantalhos ideológicos e algoritmos que premiam radicalismo.
 Para ser honesto, é preciso apontar alguns problemas frequentes no masculinismo, como a redução do feminismo a uma caricatura, negação de desigualdades reais enfrentadas por mulheres, uso político do ressentimento masculino, falta de propostas construtivas e confusão entre crítica social e guerra cultural.
 Independentemente de concordar ou não com ele, o masculinismo mostra que existe sofrimento masculino real, existe falha institucional em lidar com isso, existe dificuldade cultural em ouvir homens sem suspeitar e existe uma crise de sentido e pertencimento. Ignorar isso não resolve — só radicaliza.
 Alguns ativistas dos direitos dos homens incluem:

Warren Farrell - Psicólogo, ex-feminista (anos 1970) que ajudou a formular o MRM moderno
Christina Hoff Sommers - Filósofa e ensaísta que exercia uma crítica liberal ao feminismo institucional.
Janice Fiamengo - Professora de literatura
Paul Elam - Fundador do site A Voice for Men
Erin Pizzey - Fundadora do primeiro abrigo para vítimas de violência doméstica que tornou-se crítica do feminismo radical
Mark Angelucci (falecido) - Advogado respeitado dentro do MRM
Jordan Peterson - Psicólogo clínico com enorme influência sobre jovens homens. Nota importante: Peterson não se declara masculinista, mas é frequentemente associado ao campo.
Robert Bly (falecido) - Poeta e mitopoeta que entoava a masculinidade simbólica e espiritual
Rollo Tomassi - Autor de The Rational Male








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