Que este blog é um defensor do indigenismo e das tradições indígenas não é novidade. Eu amo saber mais sobre os diferentes aspectos dos nativos e introduzir meus leitores nesse mundo mágico e ancestral. Mas ainda há muito o que fazer, muito o que escrever e descobrir.
Há algum tempo atrás eu me questionei sobre as peças de roupa usadas pelos povos indígenas mais conhecidos por aí, e finalmente, hoje eu vim trazer o que eu achei sobre esse tema: a moda indígena!
Vários desfiles e semanas de moda ao redor do mundo incorporaram elementos indígenas em suas peças — seja por meio de designers indígenas, estéticas tradicionais ou colaborações que valorizam técnicas ancestrais.
É óbvio que existe diferença entre um e outro. Representação Cultural é incorporar elementos indígenas com respeito, reconhecimento e participação das comunidades. Enquanto Apropriação Cultural é tomar utilizar elementos culturais sem dar o crédito ou sem beneficiar as comunidades originárias.
Eu até sou a favor da frase "eu comprei com o meu dinheiro, então eu vou (e posso) usar", até porque se você é uma pessoa negra e não se sente bem com pessoas brancas usando tranças, então outra pessoa negra vai ficar muito feliz em ganhar uma grana com isso (além de que tranças não são particulares dos negros).
Saias
Ribbon Skirt - A ribbon skirt (em português, "saia de fita") é uma vestimenta com um significado importante para as mulheres indígenas de várias culturas originárias, especialmente no Canadá, onde é comemorado em 4 de janeiro o Dia Nacional da Saia de Fita. Ela apresenta camadas de fitas coloridas que representam histórias pessoais, cores de clãs, direções e orgulho. São muito usadas em cerimônias, powwows ou no dia a dia.
A cor e a posição de cada fita, como dito antes, podem ter um profundo significado pessoal, representando clã, família e até mesmo direções (como amarelo para o Leste, vermelho para o Sul, preto/azul para o Oeste, branco para o Norte).
Em relação à sua origem, a ribbon skirt moderna surgiu de uma mistura de vestidos tradicionais indígenas de pele de veado e designs europeus, que foram se adaptando ao longo do tempo por meio do intercâmbio cultural, principalmente nas culturas Métis e das florestas e planícies. No entanto, essa saia não está afiliada a uma única comunidade tribal, pois é usada em muitas aldeias indígenas, com estilos que vão evoluindo para refletir a vida moderna, ao mesmo tempo que honram a tradição.
Piupiu - Na tradição maori moderna, o piupiu é um tipo de saia muito usada como parte do traje para apresentações culturais desse povo, como o kapa haka, ganhando destaque após o contato com os europeus. Antes do piupiu, existiam o rāpaki e o pākē kūrure, que eram 'vestimentas de fios soltos'.
Os fios do piupiu são geralmente feitos de folhas de harakeke (linho) que são preparadas para criar um fio cilíndrico com a muka (fibra de linho) e exposta em algumas seções para criar padrões geométricos.
O cós é frequentemente decorado com um padrão tāniko . Os fios cilíndricos de harakeke não raspados produzem um som de percussão quando a pessoa que veste a peça balança ou se move. Os padrões geométricos são enfatizados com o tingimento, pois o corante penetra mais nas fibras expostas do que na folha crua seca.
Lavalava - Utilizado pelos samoanos, a lavalava é um pedaço de tecido que os polinésios amarram na cintura e usam como uma saia. Tanto homens quanto mulheres usam esse tipo de vestimenta em Samoa, sendo considerada uma roupa tradicional do dia a dia, usada desde uniformes escolares até trajes de trabalho, combinada com jaqueta e gravata. As lavalavas são bastante ajustáveis e, dependendo da ocasião ou evento, o comprimento da barra varia. Os lavalavas também podem ser passados de geração em geração.

Korowai - Trata-se de um manto maori, finamente tecido com linho (harakeke) e decorado com borlas conhecidas como hukahuka. As hukahuka eram geralmente feitas de muka, a fibra extraída das folhas de linho. O muka era frequentemente tingido com corantes naturais, como lama, e depois torcido em cordões, que eram então dispostos em um padrão no korowai. Os korowai eram usados por líderes de alta patente, como chefes e outros líderes (rangatira). Também eram oferecidos a outras pessoas respeitadas por seus serviços ou força espiritual. Nos tempos modernos, o nome "korowai" passou a ser atribuído incorretamente aos mantos de penas maori, quando o correto seria chamá-los de kahu huruhuru. No entanto, o nome korowai persiste, e os mantos de penas são muito procurados, pois são belíssimos e podem ser confeccionados a um custo relativamente baixo, graças às técnicas modernas e às máquinas de costura. Mantos de penas são frequentemente oferecidos ou permitidos para serem usados por dignitários e celebridades em visita, como sinal de respeito.
Pa'u - Essa é uma saia clássica da tradição havaiana, derivada do estilo antigo do hula. 'Pa'u' significa "saia" em havaiano e 'hula' é uma dança tradicional havaiana; portanto, saia Pa'u pode ser traduzida livremente como "saia de dança". Três ou mais fileiras de elástico são usadas para formar a cintura, permitindo uma curvatura natural durante a dança e proporcionando conforto para as apresentações. São necessários de três a quatro metros de tecido para confeccionar a saia. Ela pode ser feita de tecidos lisos em cores vibrantes ou com diversas estampas, com um comprimento médio de cerca de 68 centímetros. As dançarinas de hula usam a saia Pa'u com colares exóticos, tornozeleiras, pulseiras e acessórios de cabeça.

Colares
Mekragnoti – O mekragnoti é um colar tradicional do povo Kayapó (Mebêngôkre), especialmente do grupo Mekragnoti, que vive principalmente no Pará e Mato Grosso, no Brasil. Ele é confeccionado com miçangas coloridas, muitas vezes importadas há séculos por meio de contato com não indígenas, mas que foram plenamente incorporadas à estética e simbologia Kayapó. As miçangas são cuidadosamente alinhadas em padrões geométricos que expressam identidade, beleza, organização social e pertencimento cultural. O mekragnoti pode ser usado tanto por homens quanto por mulheres, em contextos cerimoniais, festividades e apresentações culturais, compondo o conjunto de adornos corporais que, para os Kayapó, não são apenas enfeites, mas expressões de status, tradição e espiritualidade ligadas à relação do corpo com o mundo e com a coletividade.

Bep-krã-ti – O bep-krã-ti é um colar cerimonial tradicionalmente masculino do povo Kayapó (Mebêngôkre), no Brasil, especialmente presente em rituais, danças e celebrações comunitárias. Ele é confeccionado com sementes naturais, fibras vegetais e penas de aves, muitas vezes cuidadosamente selecionadas e preparadas, refletindo a forte relação Kayapó com a floresta e com os seres que nela habitam. O colar não é apenas um adorno estético: ele expressa status social, identidade, maturidade e pertencimento dentro da comunidade, podendo estar associado a papéis específicos em rituais e performances culturais. Sua produção e uso respeitam conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações, reforçando a continuidade cultural e a importância simbólica dos adornos corporais na cosmologia Kayapó.

Mõapë – O mõapë é um colar tradicional do povo Yanomami, que habita regiões da Amazônia brasileira e venezuelana. Ele pode ser confeccionado com miçangas coloridas, sementes de plantas da floresta e, em alguns casos, dentes ou ossos de animais, elementos que refletem a íntima relação desse povo com a natureza e com os seres que a compõem. O colar pode ser utilizado por homens e mulheres, principalmente em contextos rituais, festas, encontros comunitários e momentos de grande importância social. Além do valor estético, o mõapë também carrega significados simbólicos ligados à identidade, à força, à beleza e à expressão cultural Yanomami, sendo parte fundamental de sua tradição e de sua forma de comunicação visual com o mundo.

Mbojape – O mbojape é um colar ritual tradicional do povo Guarani, presente em diferentes comunidades no Brasil, Paraguai e Argentina. Ele é confeccionado principalmente com sementes naturais cuidadosamente selecionadas da floresta e fibras vegetais, que são trançadas e amarradas com técnicas tradicionais transmitidas entre gerações. O mbojape costuma ser utilizado em rituais espirituais, cerimônias comunitárias e ocasiões importantes, tanto por homens quanto por mulheres, dependendo da tradição local. Além de ser um adorno, ele carrega significados ligados à espiritualidade, identidade cultural, conexão com a natureza e proteção simbólica, refletindo a profunda relação dos Guarani com o mundo natural e com o sagrado.

Mo’cɨ – O Mo’cɨ é um colar tradicional do povo Tikuna (Ticuna), um dos maiores povos indígenas da Amazônia brasileira, também presentes em áreas do Peru e Colômbia. Ele é confeccionado principalmente com sementes, fibras naturais e dentes de animais, materiais que simbolizam força, proteção e conexão com os espíritos da floresta. O Mo’cɨ é especialmente associado aos rituais de passagem, como cerimônias de transição para a vida adulta, nas quais o corpo é adornado para marcar mudanças importantes na trajetória social e espiritual da pessoa. Mais do que um enfeite, esse colar expressa identidade, tradição e valores culturais dos Tikuna, reforçando a continuidade dos saberes ancestrais e a importância do corpo adornado como linguagem simbólica dentro da comunidade.

Brincos
Bep-txikrã (Kayapó) – O bep-txikrã é um adorno auricular tradicional do povo Kayapó (Mebêngôkre), utilizado tanto por homens quanto por mulheres, especialmente em contextos cerimoniais, festas e rituais comunitários. Esses brincos costumam ser confeccionados com penas de aves, miçangas coloridas, fibras e outros materiais naturais, trabalhados com grande cuidado estético. As cores e combinações não são aleatórias: elas dialogam com a identidade visual Kayapó, que expressa status social, papéis rituais, beleza e pertencimento cultural. Assim como outros adornos corporais desse povo, o bep-txikrã não é apenas um enfeite, mas um símbolo de identidade, tradição e relação com a natureza, reforçando a importância do corpo ornamentado como forma de comunicação cultural e espiritual entre os Kayapó.

Bep-pot-kut (Kayapó) – O bep-pot-kut é um adorno auricular ritual do povo Kayapó (Mebêngôkre), usado em contextos cerimoniais importantes e ligado a processos tradicionais de perfuração da orelha, que possuem forte significado social e espiritual dentro da comunidade. Ele geralmente é confeccionado com materiais naturais como madeira, fibras vegetais, penas e miçangas, podendo variar em tamanho e forma de acordo com a função ritual, a idade e o status da pessoa que o utiliza. Esse adorno não é apenas decorativo: ele marca etapas de vida, pertencimento, coragem, maturidade e identidade cultural, fazendo parte do complexo sistema de ornamentação corporal Kayapó, no qual o corpo é visto como um espaço simbólico de expressão da cultura, da memória ancestral e da relação com o mundo espiritual e natural.

Xapono hõa (Yanomami) – O xapono hõa é um tipo de brinco tradicional do povo Yanomami, utilizado principalmente em contextos rituais e celebrações coletivas nas comunidades da Amazônia brasileira e venezuelana. Ele é confeccionado com sementes, ossos e outros materiais naturais obtidos na floresta, trabalhados com técnicas transmitidas de geração em geração. Esses brincos não têm apenas função estética: fazem parte da linguagem simbólica do corpo Yanomami, expressando identidade cultural, ligação espiritual com a natureza, pertencimento comunitário e respeito às tradições ancestrais. Assim como outros adornos corporais desse povo, o xapono hõa contribui para marcar momentos importantes da vida social e espiritual, reforçando o papel do corpo ornamentado na cosmologia Yanomami.

Calçados
Kamik/Kamiit (Inuit) - Os Kamik (ou Kamiit) são botas tradicionais dos povos Inuit, usadas em regiões árticas do Canadá, Groenlândia e Alasca. Elas são confeccionadas principalmente com pele de foca, caribu ou veado-do-ártico, materiais escolhidos por oferecerem excelente isolamento térmico, impermeabilidade e resistência às baixíssimas temperaturas e ao contato constante com gelo e neve. As botas podem ter forros internos de pele e, em muitos casos, são costuradas com tendões ou fibras naturais, sem uso de metal, para evitar congelamento. Além da função prática essencial para a sobrevivência no Ártico, os kamik também possuem forte valor cultural e identitário, sendo ligados ao conhecimento tradicional transmitido há gerações, especialmente pelas mulheres que dominam as técnicas de costura e preparo das peles.

Mukluk/Mukluks (Inuit & povos árticos da América do Norte) - Os Mukluk (ou Mukluks) são botas tradicionais utilizadas pelos Inuit e outros povos árticos da América do Norte, incluindo comunidades no Canadá e Alasca. Diferente de botas pesadas modernas, os mukluks são altos, muito leves e extremamente isolantes, ideais para caminhar longas distâncias sobre neve e gelo sem perder mobilidade. Geralmente são confeccionados com pele de caribu, veado-do-ártico ou foca, com interior forrado em peles macias para manter o calor corporal, enquanto o exterior protege contra vento e umidade. Muitas vezes são costurados com tendões de animais, técnica tradicional que permite costuras resistentes e flexíveis. Além do papel fundamental na sobrevivência em ambientes extremos, os mukluks também carregam valor cultural e identitário, representando conhecimento ancestral, habilidade artesanal e a profunda relação desses povos com seu território e com os animais que garantem sua subsistência.

Nutukas/Nuttut (Sámi) - Os Nutukas (ou Nuttut) são botas tradicionais de inverno do povo Sámi, habitantes do norte da Noruega, Suécia, Finlândia e da região russa da Península de Kola — território conhecido como Sápmi. Essas botas são confeccionadas principalmente com pele de rena, animal central para a cultura sámi, tanto econômica quanto espiritualmente. A pele oferece excelente isolamento térmico, essencial para enfrentar temperaturas extremamente baixas e ambientes cobertos de neve. Os Nutukas costumam ter formato característico, com bico levemente curvado para facilitar o uso com esquis tradicionais, além de serem amarrados com tiras feitas de couro ou tendões. Mais do que simples calçados, eles representam saberes tradicionais, adaptação ao clima ártico e a continuidade da relação ancestral entre o povo Sámi e as renas, que sustentam sua vida material e cultural há séculos.

Capas
Pākē/Hieke - Usado para enfrentar o frio e a umidade do inverno neozelandês, essa capa é feita de talos de linho cru ou cordilina parcialmente raspados e dispostos em fileiras próximas, presos à muka, uma base de fibra trançada. Vestimentas como essas eram usadas alternadamente na cintura como um piupiu ou sobre o ombro como uma capa. Acredita-se que esses tipos de vestimentas sejam anteriores ao contato europeu, tornando-se posteriormente uma forma mais especializada em meados do século XIX, que continua até hoje na forma padronizada do piupiu.

Kākahu - São criados usando técnicas de entrelaçamento de trama com os dedos (whatu), usando dois métodos: aho pātahi (entrelaçamento de par único) usando dois fios entrelaçados e aho rua (entrelaçamento de par duplo), usando quatro. O aho pātahi era originalmente usado para criar armadilhas de pesca, e a técnica foi adotada para kākahu e outras vestimentas macias. O aho rua é tipicamente usado para fixar hukahuka ("etiquetas") ao corpo do manto, tipicamente cordões muka enrolados, penas ou pele de cachorro.

Lliclla – A Lliclla é uma manta tradicional do povo Quéchua, usada principalmente por mulheres nos Andes do Peru, Bolívia e regiões andinas da Argentina e Chile. Geralmente confeccionada em lã de lhama, alpaca ou ovelha, é tecida em tear manual com técnicas ancestrais e apresenta padrões xambrados (quadriculados ou listados) e desenhos geométricos simbólicos, muitas vezes associados à comunidade de origem, status social e cosmovisão andina. A lliclla é usada como capa sobre os ombros, presa na frente com um prendedor (tupu), mas também pode servir para carregar bebês, alimentos ou objetos nas costas, mostrando sua função tanto prática quanto cultural. Além de ser parte essencial do vestuário feminino andino, ela expressa identidade, tradição e a continuidade dos saberes têxteis indígenas transmitidos entre gerações.

Braceletes
Kalawaniti (Aruak) – O Kalawaniti é um bracelete tradicional do povo Aruak (ou Aruak/Arawak), presente em regiões do Mato Grosso e em outras áreas históricas de ocupação desse grupo no Brasil. Ele pode ser utilizado tanto por homens quanto por mulheres, aparecendo em contextos cotidianos, rituais e cerimônias, como parte importante do conjunto de adornos corporais que expressam identidade cultural. Normalmente é confeccionado com fibras vegetais trançadas, sementes, contas naturais ou materiais obtidos na floresta, trabalhados com técnicas artesanais transmitidas entre gerações. Além de possuir função estética, o kalawaniti carrega significados ligados à beleza, pertencimento, espiritualidade e respeito às tradições ancestrais, reforçando a forte relação dos povos Aruak com a natureza e com sua memória cultural.
Pulseiras de miçangas com grafismos tradicionais (Kamayurá) — As pulseiras de miçangas com grafismos tradicionais dos Kamayurá fazem parte do rico sistema de adornos corporais desse povo indígena do Alto Xingu, no Mato Grosso. Confeccionadas com miçangas coloridas cuidadosamente alinhadas, elas apresentam padrões geométricos e grafismos que expressam estética, identidade cultural e, em alguns casos, significados simbólicos associados à comunidade e às tradições. Essas pulseiras podem ser usadas por homens e mulheres, tanto em contextos cotidianos quanto em cerimônias, rituais e festividades, compondo o conjunto visual que é central na cultura xinguana. Muitas vezes são feitas com técnica de tecelagem de contas sobre fios resistentes, resultando em peças flexíveis e firmes — por isso, algumas são chamadas popularmente de “pulseira elástica Kamayurá”, embora essa seja uma denominação descritiva moderna. Mais do que simples adorno, elas representam continuidade cultural, habilidade artesanal e conexão com a tradição.

Braceletes de miçangas com grafismos kene (desenhos simbólicos do povo Huni Kuin) — Os braceletes de miçangas com grafismos kene são adornos tradicionais do povo Huni Kuin (Kaxinawá), que vive no Acre (Brasil) e no Peru. Os kene são desenhos sagrados e simbólicos, considerados parte fundamental da cosmologia huni kuin: representam conhecimentos espirituais, cura, proteção e a relação entre humanos, natureza e mundo espiritual. Esses braceletes são feitos à mão, com miçangas cuidadosamente alinhadas para formar padrões intricados, muitas vezes transmitidos de geração em geração. Podem ser usados por homens e mulheres, em contextos cotidianos e principalmente em rituais, cerimônias e festividades, compondo um visual que não é apenas estético, mas também espiritual e identitário. Cada padrão carrega significados específicos e reforça a memória cultural, a sabedoria ancestral e a continuidade dos saberes gráficos e espirituais do povo Huni Kuin.

Adorno de Cabeça
Cocar – O cocar, conhecido entre muitos povos Tupi-Guarani como I’pó, é um dos adornos de cabeça mais emblemáticos das culturas indígenas do Brasil. Ele é tradicionalmente confeccionado com penas de aves — como arara, tucano ou gavião — cuidadosamente selecionadas e organizadas em estruturas feitas de fibras vegetais, lã, algodão nativo ou tiras de madeira leve. O cocar pode ser utilizado em rituais espirituais, celebrações, cerimônias de liderança, iniciações e festas comunitárias, sendo associado à força espiritual, status, honra, identidade cultural e conexão com o sagrado. Em muitos contextos, ele é usado por lideranças, guerreiros, cantores rituais ou pessoas com papel importante na comunidade, embora isso varie conforme o povo e a tradição específica. Muito mais do que um adorno estético, o I’pó representa a continuidade cultural, a relação com a natureza e o respeito aos ancestrais entre as comunidades Tupi-Guarani.

Mutsá – O Mutsá é um adorno de cabeça tradicional do povo Kayapó (Mebêngôkre), caracterizado por sua forma circular feita com penas cuidadosamente selecionadas, geralmente de aves como araras e outros pássaros de plumagem vibrante. Ele é montado sobre uma estrutura de fibras vegetais ou materiais leves que permitem que o adorno fique firme e proporcional à cabeça. O mutsá é utilizado principalmente em rituais, danças cerimoniais e celebrações coletivas, desempenhando papel importante na estética e na espiritualidade Kayapó. Sua confecção exige conhecimento tradicional transmitido entre gerações e simboliza identidade, status ritual, conexão com a natureza e com os ancestrais, além de reforçar a forte relação desse povo com o mundo espiritual e com a beleza do corpo adornado como forma de expressão cultural.
Anéis
Yádiłhił (Diné ou Navajo) – Os Yádiłhił, conhecidos no contexto cultural Diné (Navajo) como anéis de prata com turquesa, fazem parte de uma das tradições de ourivesaria indígena mais reconhecidas da América do Norte. Desenvolvida especialmente a partir do século XIX, essa arte combina técnicas introduzidas (como o trabalho com prata) com estética e espiritualidade navajo, resultando em joias profundamente significativas. As peças são confeccionadas em prata trabalhada à mão, muitas vezes com gravações e detalhes simbólicos, e ornamentadas com pedras de turquesa, que são associadas à proteção, cura, equilíbrio, bem-estar e conexão espiritual com a terra. Usados por homens e mulheres, tanto no cotidiano quanto em ocasiões especiais, os Yádiłhił representam identidade, tradição, status cultural e continuidade dos saberes artesanais Diné, sendo também reconhecidos mundialmente como ícones da arte indígena do Sudoeste norte-americano.

Hopi overlay rings - Os Hopi overlay rings são anéis tradicionais do povo Hopi, do Sudoeste dos Estados Unidos, famosos por sua técnica distinta conhecida como overlay (sobreposição). Esse método consiste em trabalhar duas camadas de metal, geralmente prata: a camada superior é cuidadosamente recortada com símbolos sagrados, motivos culturais e desenhos estilizados, enquanto a camada inferior é oxidada (escurecida), criando um contraste forte que destaca os grafismos. Esses símbolos frequentemente representam elementos da cosmologia Hopi, como katsinas (entidades espirituais), animais, padrões relacionados à chuva, fertilidade, natureza e equilíbrio com o mundo espiritual. Cada peça é feita à mão por artesãos Hopi, mantendo uma tradição que combina técnica refinada, identidade cultural e profundo significado espiritual. Assim, os Hopi overlay rings não são apenas joias decorativas, mas verdadeiras expressões de memória, espiritualidade, arte e herança cultural desse povo.

Anéis “cluster”/“petit point” (Zuni) - São anéis tradicionais do povo Zuni caracterizados pela composição de diversas pequenas pedras de turquesa cuidadosamente lapidadas e montadas em padrões florais ou radiais, criando um efeito visual semelhante a pétalas. Essa técnica é uma marca distintiva da joalheria Zuni, refletindo o refinamento artístico e a forte relação espiritual com a turquesa, considerada uma pedra sagrada no Sudoeste indígena norte-americano.

Calças
Qarliik (plural: qarliik) – Qarliik (plural igual ao singular) refere-se às calças tradicionais inuítes usadas no inverno extremo do Ártico. Geralmente confeccionadas em pele de caribu (pela excelente retenção de calor) ou pele de foca (mais resistente à umidade), são parte essencial do vestuário tradicional de sobrevivência no frio intenso. Normalmente compõem o conjunto de roupas de inverno com parkas e botas de pele, garantindo isolamento térmico, proteção contra ventos fortes e conservação do calor corporal. Além da função prática, também carregam saberes tradicionais de confecção, técnicas passadas entre gerações e respeito à relação espiritual e sustentável com os animais caçados.

Qarlikallaak – Termo histórico que designa um tipo de calça tradicional feminina utilizada em certas regiões inuítes. Eram frequentemente usadas em conjunto com qukturautiik (leggings), formando uma camada dupla de proteção contra o frio intenso. Assim como outras peças de vestuário inuíte, o qarlikallaak era confeccionado com materiais como pele de caribu ou foca, valorizando isolamento térmico, resistência e mobilidade. Além de sua função prática, integra o conhecimento tradicional de confecção e o contexto cultural das comunidades árticas, refletindo adaptações específicas para o ambiente e costumes locais.

Atartaq – Refere-se a um tipo de leggings integradas, não exatamente calças separadas, mas peças que cobrem as pernas com a parte dos pés costurada, funcionando quase como uma combinação de meia + perneira. Eram feitas de pele de caribu ou foca, pensadas para isolamento térmico, uso sobreposto com outras camadas e adaptação ao frio extremo. Geralmente faziam parte do conjunto maior de vestimenta tradicional de inverno inuíte, contribuindo para a proteção contínua do corpo sem deixar áreas expostas.


Fontes
• Marca manauara apresenta moda indígena inclusiva na London Fashion Week 2025, por Portal do Holanda.
• ‘Promoting the remote’: fashion meets art to bring Indigenous stories to life, de Dee Jefferson, via The Guardian.
• Global Indigenous Runway 2017, por Peppermint.
• At NYFW, Indigenous Fashion Stood Out, de Christian Allaire, via VOGUE.
• Indigenous Fashion Week in Santa Fe celebrates heritage through silk, hides, modern design, por UNB.
• ‘I’m bringing my heritage out onto the runway’: Indigenous designers showcased at Far North Fashion Show, de Antonia Gonzales, via National Native News.
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