O que é Sefiroth e Qliphoth?

 Provenientes da Cabala judaica, as Sefiroths e Qliphoths são ensinamentos essenciais no desenvolvimento espiritual, pois estudam e explicam as virtudes de Deus e como cada pessoa pode aplicá-las para evoluir sua centelha divina interior, para assim se tornar mais próxima do Criador, mais semelhante a ele.
 Esse é um jeito delicado de explicar, pois pode haver quem interprete isso como "tentar ser Deus". Mas a verdade é que Cristo tinha como missão criar novos Cristos, assim como Buda não pretendia ter apenas seguidores, mas sim pessoas dispostas a se tornarem novos Budas.
 Agir de acordo com as Sefiroth é se desenvolver espiritualmente a ponto de se tornar divino, uma extensão dele, um ser sagrado, pertencente ao todo, ao absoluto.


 As Sefiroth são emanações divinas, semelhantes aos aeons do gnosticismo, com a diferença de que ― na Cabala ― tais emanações não são entidades, mas sim atributos, qualidades e estágios da manifestação de Deus (aqui chamado de Ein Sof, o infinito e incognoscível). As Sefiroth mostram como o divino se manifesta no ser humano, na natureza e no cosmos. Quando se trabalha com elas, passa-se a ser possível refinar a alma para se alinhar com o fluxo divino.
 A Árvore da Vida, na Cabala, é como um “mapa” que explica como a criação surgiu e continua existindo. Ela mostra tanto o caminho de descida – ou seja, como a existência foi se formando – quanto o caminho de retorno, que é o processo espiritual de reconexão com o divino.
 Para que o universo exista, a tradição cabalística diz que Deus não cria tudo de uma vez, mas emana Sua luz em 10 etapas, chamadas Sefiroth. Essas dez etapas formam a Árvore da Vida e cada uma representa um aspecto do divino e também algo dentro de nós:

Keter – Coroa
Representa a vontade divina, a origem de tudo. É algo tão elevado que está além do nosso pensamento comum.

Chokmah – Sabedoria
É o impulso criador, a faísca inicial de todas as coisas.

Binah – Entendimento
É onde a ideia ganha forma, estrutura, como se fosse a “gestação” dos pensamentos.

Chesed – Misericórdia
É o amor expansivo, a bondade, a generosidade.

Gevurah – Rigor
É o oposto complementar de Chesed: disciplina, limite e justiça.

Tiferet – Beleza
É a harmonia entre amor e rigor. Por isso é vista como o equilíbrio perfeito. Muitas tradições a conectam à ideia do “Cristo místico”.

Netzach – Vitória
Tem a ver com emoção, persistência, desejo e força de vontade.

Hod – Glória
Relaciona-se à mente, comunicação, raciocínio e análise.

Yesod – Fundamento
É o “meio de campo” entre o espiritual e o físico. Representa o subconsciente, os instintos e a energia criadora.

Malkuth – Reino
É o mundo material, a realidade concreta onde vivemos.

 O termo “sefiroth” significa “emanações”. No singular, usa-se sefira (ou sephirah). Elas não são deuses separados, mas canais através dos quais Deus se manifesta e cria o universo continuamente. Você pode pensar nelas como funções divinas, forças da natureza ou até faculdades da alma humana.
 Muita gente compara as sefiroth com os chakras, porque ambos são formas de explicar como a energia divina (ou vital) flui e influencia a existência e a consciência.
 Antes de tudo isso existe o Ein Sof, que representa Deus em seu estado totalmente infinito, antes mesmo de “se revelar”. É do Ein Sof que as sefiroth emanam, normalmente descritas como luz que desce de cima para baixo.

Por isso:

  • Keter, a primeira sefira, é a mais próxima do Ein Sof e a mais difícil de entender.

  • Malkuth, a última, é a que mais conseguimos compreender, porque está ligada ao mundo físico, onde vivemos.

 Na Cabala, acredita-se que a alma humana reflete Deus, então as sefiroth também ajudam a entender a vida espiritual, a psicologia humana e a própria estrutura da realidade.
 Cada sefira tem dois aspectos principais:

  • uma “luz interior”, que é sua força espiritual;

  • e um “recipiente”, que é como ela expressa essa força.


 As sefiroth se manifestam em diferentes níveis da existência, conhecidos como os Quatro Mundos. Eles explicam como a criação desce do infinito até chegar ao mundo físico:

1. Mundo da Emanação – Atzilut
 É o nível mais próximo do Ein Sof. Aqui tudo ainda está unido a Deus, quase sem separação. A sabedoria divina (Chokmah) é a principal força desse plano.

2. Mundo da Criação – Beri’ah
 Aqui começa a criação “do nada”. As almas e anjos existem, mas ainda sem forma física. O entendimento (Binah) predomina.

3. Mundo da Formação – Yetzirah
 Neste nível, as coisas começam a ganhar forma e estrutura emocional. Predominam as sefiroth ligadas às emoções, de Chesed a Yesod.

4. Mundo da Ação – Assiah
 É o nível onde a criação se torna concreta. Inclui tanto o plano espiritual mais baixo quanto o mundo físico que conhecemos. Aqui predomina Malchut, pois é o reino onde a criação finalmente acontece.

 Com isso, a Cabala explica que cada mundo é um pouco mais “denso” e mais distante da consciência direta de Deus. No último nível – o nosso – é até possível ignorar ou negar a existência divina, porque é o plano mais afastado da percepção espiritual.


 Assim como os Quatro Mundos ligam o infinito divino ao nosso mundo físico, eles também mostram o caminho inverso: a jornada espiritual da alma em direção a Deus. Cada mundo representa um nível de consciência e intenção, ligado ao desejo humano de crescer espiritualmente. À medida que a pessoa amadurece, aprende, pratica devoção e busca conexão com o divino, sua alma “sobe” simbolicamente por esses níveis, aproximando-se novamente da unidade com o Criador.
 Na Árvore da Vida existem três colunas, e elas simbolizam três caminhos possíveis para o ser humano:

  • Coluna da Direita – Amor
    Representa bondade, misericórdia, generosidade e expansão.

  • Coluna da Esquerda – Força
    Representa disciplina, limites, justiça e rigor.

  • Coluna Central – Compaixão
    É o caminho do equilíbrio. Ele une as duas colunas anteriores, harmonizando amor e força. Por isso é chamado de “caminho real”.

 Sem essa coluna do meio, tudo vira apenas uma escolha entre “bem” e “mal”, “sim” e “não”, “luz” e “sombra” — ou seja, pura dualidade, sem equilíbrio.
 Essas colunas também representam duas polaridades fundamentais presentes em toda a criação: o masculino (direita) e o feminino (esquerda). O grande ensinamento da Cabala é que elas não devem brigar entre si, mas sim se integrar — tanto dentro de cada pessoa quanto nas relações humanas.

O simbolismo de Adão, Eva e a Serpente

 Segundo a leitura cabalística, o erro de Adão e Eva não foi apenas “comer o fruto proibido”. O verdadeiro problema foi que seu relacionamento e sua consciência ainda não estavam em equilíbrio. Eles quiseram conhecer profundamente a experiência da dualidade (bem e mal), antes de estarem firmes na experiência da unidade divina.
 A serpente se aproveita justamente dessa desarmonia entre eles. É nesse “espaço” entre a unidade quebrada que o mal consegue agir.
 Depois disso, a Árvore da Vida foi “escondida”. Isso não como punição cruel, mas para evitar que um ser humano ainda contaminado pelo desequilíbrio tivesse acesso direto ao segredo da eternidade e distorcesse isso. Assim, Adão e toda a humanidade precisariam passar pela experiência do sofrimento, da mortalidade e do aprendizado — não como castigo absoluto, mas como processo de cura, crescimento e depuração espiritual.
 Da mesma forma, as dores e crises que vivemos — embora difíceis — também são momentos em que percebemos o quanto estamos distantes do nosso estado ideal, da plena conexão com o divino.

O caminho de volta

 A Cabala ensina que existe um caminho mais consciente para essa reconciliação: o estudo espiritual profundo, a busca interior e a sabedoria esotérica. Mesmo não podendo simplesmente “voltar” ao Éden como antes, a humanidade ainda tem como se aproximar da Árvore da Vida.
 A Bíblia diz que o caminho até ela é guardado por dois Querubins com uma espada flamejante. Na Cabala, isso é entendido simbolicamente:

  • Os dois querubins representam novamente as duas polaridades — masculino e feminino — e também níveis elevados de consciência.

  • À medida que o ser humano vai harmonizando essas forças dentro de si, esses anjos deixam de ser “guardas que impedem a passagem” e passam a ser colunas que sustentam a porta de retorno.

 Mas esse caminho não é fácil. A “espada flamejante de dois gumes” simboliza tanto as crises pessoais e espirituais quanto grandes tragédias coletivas da história, como a destruição dos Templos e o exílio do povo hebreu — experiências que refletem, em escala espiritual, o exílio original de Adão do Paraíso.
 Cada pessoa, em sua vida, acaba se deparando com suas próprias versões desse “exílio”: quedas, perdas, conflitos internos e períodos de afastamento espiritual. A jornada espiritual consiste em reconhecer isso, curar-se e trilhar, pouco a pouco, o caminho de retorno à unidade.

O que são Qliphoth?

 A palavra Qliphoth (plural de Qliphah) significa “cascas” ou “conchas”. Esse nome já explica muita coisa: elas representam o lado distorcido das energias da Árvore da Vida. Não são o “mal absoluto”, como às vezes se populariza, mas sim o resultado do excesso, do desequilíbrio e da ruptura das forças divinas.
 Enquanto as Sefiroth representam harmonia, ordem, consciência e fluxo saudável de energia espiritual, as Qliphoth representam o oposto: caos, fragmentação, rigidez, vício e aprisionamento interior.
 Podemos pensar assim:

  • Sefiroth = energia integrada, madura e equilibrada

  • Qliphoth = energia quebrada, exagerada ou mal canalizada

São como a sombra de uma mesma luz.

A “Árvore Qlifótica” – o espelho sombrio

 No ocultismo hermético, existe a chamada Árvore Qlifótica (ou “Árvore da Morte”), considerada um espelho sombrio da Árvore da Vida. Cada sefirá tem uma distorção correspondente. Alguns exemplos:

  • Keter → Thaumiel
    Quando a vontade divina se transforma em vontade dividida, ego inflado, autoritarismo espiritual.

  • Chesed → Gamchicoth
    Amor e bondade viram abuso de poder, manipulação “em nome do bem”.

  • Yesod → Gamaliel
    Fundamento e subconsciente viram vício, fuga da realidade, fantasia obsessiva.

  • Malkuth → Lilith / Nahemoth
    O mundo físico vira materialismo vazio, alienação e instinto bruto sem consciência.

 Isso mostra que a Qliphah nasce quando uma Sefirá perde o equilíbrio. Por exemplo:

  • Amor equilibrado → Chesed

  • Amor controlador e possessivo → Qliphah de Chesed

Ou seja: não é outra “coisa”, é a mesma força, mas doente ou desviada.

Um cuidado importante

 É comum ver pessoas tratando Qliphoth como algo “cool”, perigoso ou misterioso para “mexer”, mas tradições sérias alertam: trabalhar diretamente com essas energias sem preparo pode causar:

  • obsessão religiosa/espiritual

  • delírios espirituais

  • desequilíbrio emocional e psicológico

 Por isso, iniciantes não são incentivados a “trabalhar” com Qliphoth. O caminho mais saudável é estudá-las como sombras da psique e forças espirituais desordenadas — algo a ser compreendido, curado e iluminado, não romantizado. Muitos místicos resumem assim: “A sombra deve ser iluminada, não adorada.”

Sitra Achra – “O Outro Lado”

 Na Cabala judaica, as Qliphoth são vistas como forças espirituais impuras ligadas ao reino chamado Sitra Achra, que significa “O Outro Lado”.
 Isso não quer dizer um “reino do mal” tipo filme, mas sim um plano de existência onde a luz está encoberta, como se estivesse presa dentro de uma casca grossa.
 Elas existem dentro da própria criação, como uma espécie de “casca protetora” que envolve a santidade. Em termos simbólicos, elas surgem quando a luz divina desce pelos mundos e, ao perder intensidade, acaba “endurecendo” — criando sombras, densidade, ego e desconexão.
 Por isso, algumas tradições dizem que as Qliphoth são como a luz que não conseguiu se integrar, ficando “presa” e deformada. Elas lembram a humanidade de que toda energia poderosa, quando perde o equilíbrio, pode se transformar em algo destrutivo, perigoso ou vazio.
 Alguns estudiosos e ocultistas tentaram explicar a origem e a função das Qliphoth dentro da espiritualidade. Um deles foi Samuel Liddell MacGregor Mathers, um dos fundadores da Golden Dawn. Ele associava as Qliphoth aos chamados Reis de Edom, personagens bíblicos que simbolizam um mundo anterior ao nosso — um “mundo quebrado”, incapaz de sustentar a luz divina.
 Na visão dele, as Qliphoth surgem quando há um excesso de energia, principalmente ligada à coluna da Misericórdia (Gedulah). Ou seja, até mesmo algo “bom” demais, quando perde equilíbrio, pode gerar caos.

Nomes qlifóticos no Zohar

 O Zohar, principal texto místico da Cabala, menciona alguns nomes ligados a essas forças negativas, como se fossem expressões distorcidas de determinadas sefirot:

  • Mashhith (Destruidor) – ligado à distorção de Chesed

  • Af (Raiva) – ligado à distorção de Gevurah

  • Hema (Ira) – ligado à distorção de Tiferet

 Outros nomes aparecem como forças do caos primordial, mas sem ligação direta a sefirot específicas:

  • Avon – Iniquidade

  • Tohu – “Sem forma”

  • Bohu – “Vazio”

  • Esh – Fogo

  • Tehom – Profundezas

 Esses termos não devem ser lidos como “monstros literais”, mas como estados espirituais e psicológicos simbolizando desordem, destruição e afastamento da consciência divina.

As “regiões do Inferno” na tradição cabalística

 Algumas descrições espirituais falam de sete níveis de queda, ou “camadas do Inferno”. Eles não precisam ser entendidos como lugares físicos, mas como estados de consciência muito distantes da luz divina. Entre eles temos:

  1. Sheol / Tehom – as profundezas

  2. Abaddon – desgraça, destruição

  3. Poço da Corrupção / Mashhith

  4. Cisterna do Barulho / Lama Pegajosa

  5. Portões da Morte / Silêncio espiritual

  6. Esquecimento / Sombra da Morte

  7. A Terra Mais Baixa – o ponto extremo de distanciamento espiritual

 Essas ideias servem mais como metáforas espirituais do que como uma “geografia do inferno”.

O sistema qlifótico no ocultismo moderno

 Além da tradição judaica, as Qliphoth ganharam bastante destaque no ocultismo ocidental, principalmente com autores como Aleister Crowley e Israel Regardie.
 Eles desenvolveram uma espécie de “Árvore Sombria”, onde cada Qliphah corresponde a uma sefirá, mas em sua versão distorcida:

  • Thaumiel → espelho de Keter

  • Ghogiel → espelho de Chokmah

  • Satariel → espelho de Binah

  • Agshekeloh → espelho de Chesed

  • Golohab → espelho de Geburah

  • Tagiriron → espelho de Tiferet

  • Gharab Tzerek → espelho de Netzach

  • Samael → espelho de Hod

  • Gamaliel → espelho de Yesod

  • Lilith → espelho de Malkuth

 Crowley também fala de três forças malignas anteriores a Samael: Qemetial, Belial e Othiel. Essas classificações fazem parte de uma tradição mais simbólica e esotérica do que religiosa — funcionam como mapas da psique humana e dos estados espirituais extremos.
 Em resumo, as Qliphoth representam:

  • o lado distorcido da experiência espiritual

  • forças desequilibradas e fragmentadas

  • estados de consciência em queda

  • e lembram que toda luz, quando perde equilíbrio, pode virar sombra

 Mais do que “monstros” ou “entidades para culto”, elas são um espelho do que acontece quando perdemos o centro espiritual.






Postar um comentário

0 Comentários