Lacey Sturm, o Anjo dos Clamores

 Há dois anos atrás eu guardei na gaveta este artigo, onde idealizei criar um espaço não tão pessoal a ponto de merecer receber a tag "Arquivo Pessoal" (que contém apenas artigos onde o tema central são aspectos da minha vida particular), porém, sem perder a chance de mostrar a minha conexão com a música escrita e produzida por esta artista maravilhosa que me acompanhou desde a pré-adolescência. Hoje, eu tenho a honra de finalmente falar sobre Lacey Sturm, o anjo dos clamores.

"Conheço a Lacey há alguns anos e a história dela sempre será uma das transformações de vida mais impressionantes que já ouvi. Cada vez que a ouço, sinto a dor e o sofrimento desesperados que ela sentiu ao chegar ao ponto de desistir da vida depois de tentar se satisfazer com os antídotos do mundo, que só deixaram sua alma em agonia." ― Brian “Head” Welch (líder das bandas Korn e Love & Death)

Infância

 No livro The Reason: How I Discovered a Life Worth Living (2014), Lacey narra o início turbulento de sua vida. Sua mãe, com 17 anos na época, estava em trabalho de parto, com sangue no rosto, fraqueza no corpo e uma mãe de 29 desesperada no quarto do hospital. Tudo parecia que não tinha chances de melhorar, mas, por um milagre, a mãe de Lacey conseguiu concebê-la dois meses de prematura. Com os pulmões ainda em formação, ela contraiu coqueluche, uma infecção respiratória altamente contagiosa, mas Lacey conseguiu enfrentar esses dois obstáculos e vencê-los.

 Lacey atribui tais desfechos em sua história de vida como parte dos planos de Deus, e eu não a julgo. E sabendo agora sobre esses fatos, passo a olhar a faixa 'Impossible', do seu álbum Life Screams, de 2016, com outros olhos, quando ela diz: 'I can barely breathe, but I'm singing out like this is nothing to me', e depois, 'Every morning I see another miracle, I can't believe I'm living the impossible'. Faz sentido que seja meu álbum favorito dela, porque são composições pessoais, como se eu estivesse ouvindo os segredos de alguém.

"Entrei nesta vida quase sem respirar. Mas agora canto minha canção em voz alta, proclamando os belos sons da vida, da graça e da esperança. Quase morri, mas a morte terá que esperar, pois tenho uma canção para cantar, e você também. Minha canção soa como a cura de uma alma e o renascimento da vida. Como soa a sua?" ― Lacey Sturm

 Lacey tem cinco irmãos: Eric, Jazilyn, Phillip, Stephana e Roman. Sua mãe, Lori, uma ávida amante de jazz, já compunha suas próprias canções e vivia um estilo de vida "livre, leve e solto". Com jeito irreverente e segura de si, Lori criou seus filhos ensinando-os sobre carinho e compaixão, sobre o amor de Deus e sobre a caridade. Porém, tamanha era a caridade que Lori doava até mesmo coisas essenciais que pouco tinham, como a cama de Eric e os mantimentos da família. Tudo na intenção de ajudar quem necessitasse, como ela e seus filhos um dia necessitaram. Muitas vezes, Lacey e seus irmãos tinham que se forçar a comer comidas enlatadas e pão seco, pela falta de alimentos e o excesso de caridade de sua mãe. Mas tal excesso era apenas uma amostra do coração generoso e cheio de gratidão que Lori tinha pelos que um dia a salvaram.

 Aos 10 anos, Lacey viu a morte pela primeira vez, quando seu amado primo Kelton (apelidado carinhosamente de Kelly) foi espancado até a morte pelo próprio padrasto, que após o crime, foi sentenciado à prisão perpétua. Esse baque fez a fé de Lacey abalar, e ela conta que deixou de acreditar em Deus, tornando-se ateísta.

"Quando criança, a morte era uma montanha enorme, escura e assustadora para mim. E, de repente, me vi perdida no meio dela. Senti como se tivesse sido deixada para encontrar a saída completamente sozinha. O que eu não percebia na época é que o amor é mais forte que a morte. Eu só viria a conhecer o amor quando já fosse quase tarde demais." ― Lacey Sturm

 Atormentada pelo luto de perder seu melhor amigo, e furiosa por todos no mundo continuarem seguindo com suas vidas ao invés de lamentarem pela morte de Kelly, Lacey se recusou a seguir em frente, prometendo se manter sempre próxima à morte, desejando que todos os dias vindouros fossem os seus últimos.

 Nessa época, Lori já era mãe solo de cinco filhos, e queria dar o melhor futuro que podia para eles. A família chegou a morar em um pequeno apartamento em Arlington Oaks. Com muito afinco, Lori conseguiu matricular seus filhos numa boa escola, mas aquele não era um lugar que Lacey gostava, principalmente por conta das crianças ricas que intimidavam e zombavam das roupas de brechó que ela e seus irmãos vestiam. Isso os obrigou a se unir com um pequeno grupo de crianças que eram como eles, que se vestiam como eles, que passavam pelos mesmos problemas que eles.

"Não vou seguir em frente sem você. Não é justo.
E embora eu não vá morrer com você por fora, pelo menos,
por dentro, continuarei próxima da morte." ― Lacey Sturm

 Por vezes, Lacey também podia visitar esses amigos, chegando a encontrar ambientes ainda mais depressivos do que em sua casa. Uma das razões para Lori deixar seus filhos naquele lugar era para que pudesse terminar a faculdade de artes e conseguir um emprego melhor. Ela frequentou o Instituto de Arte de Dallas para se tornar engenheira de áudio e vídeo.

 Aos onze anos, Lacey e sua família viram seu nome na lista de reabitação do governo, passando a morar numa pequena rua no gueto de Arlington, Texas. O encanto aumentou ainda mais quando descobriu que teria seu próprio quarto, mesmo que dividisse espaço com os gatos de rua que Lori resgatava e acolhia (se "esquecendo" que sua filha era alérgica). Próximo dali, era possível ouvir uma banda de garagem chamada Giant Dogs tocando seu som.

"Eu estava com raiva das pessoas por estarem felizes, por não compartilharem o luto comigo.
Eu estava com raiva porque as pessoas ao meu redor seguiam com suas vidas normalmente,
como se não vivêssemos em um mundo onde crianças eram espancadas até a morte." ―
 Lacey Sturm

 Foi dessa forma que Lacey entendeu que música era para entretenimento e que músicos eram artistas. Diferente do jazz, foi através do rock que Lacey finalmente olhou para a música com outros olhos. A cantora ainda conta em seu livro que se expressava inventando passos de dança para músicas pop, chegando a cantar inocentemente a música 'Shoop' do grupo Salt 'n' Pepa para a funcionária da creche, deixando a mulher chocada com as frases explícitas.

 Em uma noite, Lori levou Eric num show em Deep Ellum, trazendo uma fita cassete que era ― nada mais, nada menos ― que o álbum Nevermind, do Nirvana. Ao ver a foto da banda, Lacey ficou encantada pelo estilo de Kurt Kobain, se sentindo representada pela primeira vez (e criando uma paixonite pelo cantor). Tudo seguia normalmente, até que Lacey se viu em mais uma provação divina, quando uma amiga próxima da família, Maureen, acidentalmente pisou no acelerador em vez do freio ao tentar estacionar o carro na garagem e derrubou o carro de Lori dos cavaletes, jogando-o para dentro da casa, atravessando a parede do quarto de Lacey.

"Havia uma dor na voz do cantor, uma angústia que eu sentia no coração
e que nunca tinha ouvido expressa em música.
A música soava como eu me sentia quando chorava até dormir à noite."
 ― Lacey Sturm


Adolescência

 Em 1994, um ano após Lacey conhecer o Nirvana, Kurt Cobain cometeu suicídio. Esse foi mais um baque no coração da cantora, após perder aquele que lhe mostrou que ser famoso e se achar melhor do que todo mundo era algo muito errado. Mesmo aos doze anos, ela entendia o desprezo pela fama e o ódio ao orgulho. Nessa parte, a cantora revela seu pensamento sobre a indústria musical atual: "Quando você tem doze anos e já tem raiva da sociedade, da fama e de tudo que alimenta a cultura pop e faz o dinheiro jorrar, você olha para aqueles que ousam ser indivíduos como o ápice da vida, mesmo na morte.

 Tempo se passou e Lacey se apaixonou por um jovem rebelde de 16 anos chamado Ryan, se sentindo notada pela primeira vez. Mas, ainda que o amor que nutriam entre si parecesse tão verídico, até mesmo corações jovens podem se sujeitar a partidas bruscas. Lori havia enviado Lacey para viver com seus avós alguns estados de distância durante dois meses, até que ela teve a chance de reencontrar seu namorado mais uma vez, já que prometeram continuar juntos (apesar do quão longe estavam um do outro). Para sua surpresa (e decepção), Ryan contou em lágrimas que havia dormido com uma colega de classe. Com o fim do Natal e a volta às aulas, Lacey teve que suportar conviver na mesma sala que o rapaz que a traiu. Tantos baques consecutivos levariam qualquer pessoa à beira do abismo, e infelizmente Lacey conhecia bem esse lugar, uma zona escura que à ela mais parecia ser um atalho de volta para casa.

"Eu não sabia que não é preciso ser suicida para ter a coragem de desafiar a sociedade,
e que não é preciso estar eternamente triste para se rebelar contra ela."
 ― Lacey Sturm

  Algum tempo depois desses acontecimentos, Eric apresentou à Lacey o álbum Far Beyond Driven, do Pantera, mas Lacey detestou as músicas da banda. Ela não gostava dos gritos, da forma como eles apelavam pela blasfêmia de ofender a Deus em suas canções, mesmo sendo ateia. Na contramão destes sentimentos, Lacey ficou curiosa quando seu irmão contou que os membros da banda haviam criado o grupo na mesma área onde a família Mosley havia se formado: Arlington, Texas. O padrasto de Lacey, segundo Eric, havia estudado com o guitarrista do Pantera ― Dimebag ― e seu irmão Vinnie. E para aumentar as coincidências, os três estudaram no mesmo lugar que Lacey e seu irmão: a Gunn Junior High, em Arlington, após os verem nas fotos do anuário de 1981.

 Mas esse repúdio pelo Pantera cessou quando ela conheceu a música 'Shedding Skin' que, para Lacey, explicava o porquê de tantos gritos, pois se tratava de uma história de abuso. De acordo com a cantora: "Essas letras, se cantadas honestamente, precisam ser gritadas. Me lembrou histórias que ouvi sobre meninos sendo estuprados, algo que me dava vontade de gritar, xingar e matar. E ali estava, vomitando tudo emocionalmente no som mais perfeito para descrever tanto ódio por tamanha maldade. Era o som que sai de alguém que foi marcado por esse tipo de abuso".

"As coisas que habitam a escuridão vivem lá porque você não consegue vê-las; dessa forma, elas podem enganá-lo, pervertê-lo e, por fim, destruí-lo de dentro para fora." ― Lacey Sturm

 Com um incessante desejo de ser vista, amada e curada de suas dores, Lacey passou a visitar os lados mais obscuros do seu coração e de sua mente, passando a se sentir como um estorvo na vida daqueles ao seu redor. Aos 16 anos, ela queria morrer, e seus pensamentos alimentavam isso. Mas ainda havia uma razão para Lacey escolher a vida: seus pequenos irmãos. Ela não suportava a ideia de ver sua família sofrendo por conta da sua falta.

 Após uma briga intensa entre Lacey e Lori, a polícia foi chamada para acalmar os ânimos, e seu padrasto que tanto a amava, a aconselhou a ficar um tempo com seus avós. Agora longe de seus irmãos, Lacey não sentia que estava em um lugar melhor, pois a revolta com tudo e todos continuava. Seu avô, Sid, estava acamado naquela época, e sua relação com sua avó, Annie, já não estava nas melhores.

 Depois do seu último relacionamento ter dado errado, Lacey se viu amando mais uma vez, após uma amiga íntima sua, chamada Amanda, se declarar para ela. As duas se amavam, mas também carregavam suas cruzes. Porém, todo o abuso que a garota passava, mesclado aos tormentos que Lacey já sofria em sua própria vida, fez com que a cantora percebesse que não conseguiria ser forte pelas duas. Tudo empurrava Lacey para o abismo em sua mente, e então ela decidiu que cometeria suicídio.

"Aqueles que abusavam e usavam os outros não tinham valor para mim,
então eu cantava, gritava e denunciava-os.
Eu clamava por anarquia porque testemunhei abusos de autoridade."
 ― Lacey Sturm

 Na noite em que decidiu ir pra frente com seu plano, Lacey deu de cara com sua avó. Aos berros, Annie questionou os cabelos cortados de sua neta, que havia os cortado pois uma colega de classe que tinha falado mal dela os elogiou. Uma moça pegar uma tesoura e cortar seus cabelos com amargura é um dos momentos em que as turbulências da vida mostram sua face. Mas Lacey não se importou em responder sobre aquilo e apenas pediu para ficar sozinha com seu maço de cigarros que seu avô lhe deu. No entanto, sua avó tomou o maço de suas mãos, que iniciou uma discussão calorosa com a mulher. No final, a senhora afirmou que havia algo de errado com sua neta, e que elas iriam à igreja para resolver isso. Com imenso ódio, Lacey esbravejou sua descrença e se recusou a ir, mas para fugir da gritaria que desencadeou em sua avó, consentiu com a ideia.

 Já na igreja, Lacey tentou abafar os sons do local fechando os olhos e abstraindo. Até que o padre parou seu sermão afirmando que estava recebendo uma mensagem de Deus, dizendo que havia um espírito suicida ali presente. Aos prantos, o homem falou com todas as almas atormentadas pela depressão, insistindo que dessem uma chance a Deus, para que ele pudesse ser o melhor pai que já tiveram.

 Assustada por sentir que o padre falava diretamente com ela, Lacey esperou o término da pregação para se levantar e ir pra casa, mas um homem estranho a parou, dizendo que estava lá a mando de Deus, que lhe disse que Lacey estava passando por um momento delicado, mostrando que sabia sobre sua intenção em tirar a própria vida e até mesmo sobre sua sexualidade que vinha questionando. O homem então rezou por ela, pedindo que Deus a abraçasse e a tomasse como sua filha, afirmando à jovem que o Senhor tinha grandes planos para ela.

"Adoramos satisfazer nossas emoções porque, na minha opinião,
estamos simplesmente morrendo de vontade de sentir alguma coisa."
 ― Lacey Sturm

 Após todo o turbilhão de sentimentos que passou naquela noite, Lacey acordou no dia seguinte com um olhar diferente sobre o mundo e as criações de Deus. Ela teve que aceitar que mesmo as pessoas que ela não gostava eram amadas por Ele. Mas nada foi tão difícil do que terminar seu relacionamento com sua namorada, pois sabia que Deus tinha outros planos para elas. Naquele dia, as duas sentaram e conversaram no quarto de Lacey, que contou tudo que aconteceu na igreja. As jovens amantes choraram juntas perante o testemunho da cantora, e não se remoeram com o término e, por sorte, fecharam esse capítulo de suas vidas sem menções honrosas aos algozes que as afligiram.

 Agora cristã, Lacey passou a sentir um certo conflito em seu interior por ainda fazer parte da banda Sofa Kingdom, composta por alguns amigos de natureza "duvidosa". Isso, pois as canções que entoavam não batiam com aquilo que Lacey sentia. Havia muito ódio pelo mundo naquelas letras, e ela já não se identificava mais com o ódio. Ainda que tivesse passado a escrever composições mais próximas de sua fé, Lacey sentia-se inquieta e distante dos membros. Tudo isso, até que Deus a testou mais uma vez...

"Eu queria de todo o coração ir àqueles lugares
que são um presságio sinistro do inferno — e resgatar pessoas de lá."
 ― Lacey Sturm

 Numa manhã, a avó de Lacey percebeu um caroço crescendo no pescoço da neta  que nem sequer tinha percebido aquilo. Após uma análise por meio de raio-x, a cantora descobriu que um tumor estava crescendo em sua garganta. Diante daquele mal, os fiéis de sua igreja oraram por ela, e uma mulher até tocou o tumor e conjurou o nome de Deus para interceder por Lacey para que aquilo desaparecesse de seu corpo. Na mesma hora, Lacey tocou o local e percebeu que o tumor havia desaparecido, se enchendo de fé e gratidão.

 No retorno ao hospital, os médicos ficaram confusos com o que os exames mostraram: não havia nenhum tumor ali. E ao voltar à igreja, todos celebraram. Lacey jurou a Deus que passaria a utilizar sua voz para entoar o nome Dele, para honrá-lo e espalhar sua mensagem para o mundo. Por essa razão, a cantora decidiu sair do Sofa Kingdom.

"Não éramos pregadores do evangelho. Não estávamos tentando salvar almas;
Deus só nos deu o dom de salvar vidas por agora."
 ― Lacey Sturm


Vida Adulta

 Lacey conta que a inspiração para criar sua própria banda veio do Nirvana, que mostrou ao mundo que um bando de "zé ninguém" eram bem melhores do que um monte de materialistas mesquinhos. À partir dessa ideia, Lacey encontrou o cerne de sua banda ao conhecer aqueles que integrariam sua história no mundo da música: Pat (um baixista brilhante vindo de uma família de artistas), Sameer (um nerd guitarrista amante de astronomia e ficção científica), Jared (um jovem guitarrista com uma paixão avassaladora por videogames) e James (um baterista com um dom único de consertar absolutamente qualquer coisa, principalmente computadores).

 Em 2002, com seu grupo formado, um nome veio à luz: Passerby. Com a missão de inspirar pessoas a lutarem por seus propósitos e mudarem o mundo da forma que Deus fez cada pessoa para mudá-lo, a banda continuou o legado de Kurt Cobain como defensores dos excluídos e marginalizados, dos estranhos e deslocados.

"Então compreendi a orientação de Deus para o meu coração:
Ele não queria que eu mudasse a opinião das pessoas sobre Ele,
mas sim que lhes contasse o que Ele fez por mim."
 ― Lacey Sturm

 Em 2002, já com 21 anos, Lacey e sua banda lançaram três EPs (Extended Play) independentes: Broken Wings, Breathe Today e Red Sam. Logo a banda teve a chance de se apresentar no festival de música South by Southwest, que atraía pessoas de todos os cantos dos EUA para o Texas. No meio de bandas novas, bandas antigas, artistas solo e músicos de rua, o Passerby se via pronto para se apresentar numa batalha de bandas no salão da juventude de uma igreja metodista no centro de Temple, Texas.

 O mais louco nisso tudo é que eles seriam a primeira banda da noite. Lacey então se preparou utilizando um truque de maquiagem que aprendeu com as duas vocalistas da banda Animal Couch (Aimee Helms e Denise Grace): passar gel de cabelo misturado com glitter vermelho nas pálpebras, deixando secar.

"O que importa é saber em que fase da vida você está e o que você deve fazer hoje.
É aí que você se sentirá mais realizado e será mais eficaz em mudar o mundo."
 ― Lacey Sturm

 Agora pronta, Lacey não percebeu que a fome que sentia  por não ter comido nada o dia todo  iria trazer consequências, principalmente depois que o DJ da banda principal, The Grove, levou um saco de hambúrgueres recheados com cebola. Pouco antes das portas se abrirem para o show, Lacey ficou enjoada com aquele cheiro forte de cebola e correu para o banheiro, vomitando na pia. A maquiagem já não estava como antes, após seus olhos lacrimejarem tanto.

 Nesse momento, as portas estavam se abrindo, e já não havia muito o que fazer, então Lacey colocou a mão nos bolsos, percebendo os punhados de estrelinhas vermelhas de plástico que carregava guardados, se sentindo bastante nervosa. Todos os membros da banda estavam no palco testando seus instrumentos, e Lacey começou a orar na tentativa de aliviar sua náusea e ânsia de vomitar. Na hora em que James bateu no prato de sua bateria, Lacey se virou e jogou um punhado das estrelinhas para o alto, acima das crianças que estavam todas aglomeradas na frente do palco. A segunda batida veio e ela jogou seus braços sobre elas novamente, que agora tentavam alcançar as estrelas vermelhas. Logo uma paz repentina invadiu o coração de Lacey e sua náusea cessou, passando pela primeira vez pelo processo de preparação mental para um show do Passerby.

"Devo sempre me lembrar de que vou morrer,
e devo me lembrar disso para que eu possa me lembrar de viver." ― Lacey Sturm

 Naquela noite, a RCA (Radio Corporation of America), uma conhecidíssima gravadora americana, estava na plateia assistindo, assim como uma advogada especializada em entretenimento musical, Monika, que poderia ajudar a banda a assinar um contrato. O empresário e amigo deles, Gabriel Colbert, deixou claro que Monika (a representante da RCA, e uma representante da BMI) estava obcecada pela música "Broken Wings", e Lacey não podia arriscar passar mal novamente.

 Rich Caldwell, o técnico de som da banda PushMonkey, se ofereceu para ajudar a Passerby naquela noite, operando o som de seu show de graça, o que fez com que uma grande amizade e parceria emergisse. Depois do show, Monika convidou a banda para conversar e aprender mais sobre a indústria musical, entendendo que o que eles faziam por diversão poderia se tornar a razão pela qual eles seriam reconhecidos... e de fato foi.

"Não há ninguém que Deus rejeitaria,
apenas aqueles que poderiam rejeitá-lo." ― Lacey Sturm

 No escritório da Octone Records, Lacey e sua banda se uniram com os agentes da gravadora para discutir o destino do Passerby. Infelizmente, eles descobriram que esse nome já estava sob posse de outro grupo, tendo que mudar para um plano B. Dessa forma, eles alteraram o nome do grupo para Flyleaf ("folha de rosto" em inglês), e passaram a conversar sobre o que os membros esperavam da banda, como eles se apresentariam ao mundo, como uma banda cristã ou uma banda composta por cristãos. Foi aí que Lacey abriu seu coração e deixou claro o objetivo do grupo no mundo da música, mas a sensação que tinha era que suas palavras estavam saindo no automático, como se Deus falasse através dela.

 A questão é que muitas das bandas de rock daquela época blasfemavam o nome de Deus e tinham músicas com composições um tanto rebeldes, o que ia na contramão do que ela seguia àquela altura. Ainda assim, a cantora revela que a razão pela qual ela optou por sair em turnês com bandas ateístas e que negligenciavam a Deus era pela ânsia e a certeza de que iria encontrar uma garota como ela, ainda perdida pelo mundo afora, atrás de uma razão para prosseguir com a vida e não desistir do seu propósito ainda desconhecido.

 Durante um de seus grandes shows em Houston, Lacey e o Flyleaf passaram por mais um teste divino: cantar em um clube repleto de pessoas mal educadas e ávidas por qualquer som excitante, explícito e imerso em ódio. Entre cantadas, assobios e xingamentos, Lacey cantou 'I'm So Sick' e foi capaz de espalhar sua mensagem naquele lugar repleto de pessoas sombrias.

"Nos contentamos com muito menos do que aquilo para o qual fomos criados
quando dedicamos nossas vidas ao dinheiro, ao trabalho, ao orgulho, às drogas, ao abuso,
ao suicídio, aos sonhos, à família, aos amigos e aos amantes." ― Lacey Sturm

Mãe e Esposa

 Em 2008, Lacey se casou com Joshua Sturm, membro da banda Káiros. Mas foi no Halloween daquele ano que o casal teve um gloriosa surpresa: Lacey estava grávida! Veio então uma mescla de surpresa e animação, e os dois logo foram ao hospital para confirmar o teste de gravidez. Porém, após passar pelo ultrassom, mas um baque surgiu, dessa vez, para os dois: Não havia batida de coração em seu útero... não havia nenhum bebê ali. O doutor disse, então, que poderia se tratar de um caso raro de gravidez molar, quando ocorre um crescimento anormal de tecido no útero, especificamente nas células que normalmente se desenvolveriam na placenta. E o pior de tudo, se Lacey não retirasse esse tipo de cisto cancerígeno, ele poderia se espalhar pelo seu corpo e matá-la.

 Curiosamente, ainda que não soubesse sobre o ocorrido, Pat sugeriu  após uma série de títulos para o novo álbum da banda  a frase 'Memento Mori', que significa "Lembre-se que um dia você morrerá". Para o casal, a frase caiu como uma luva, mesmo carregado de um certo pesar.

"A beleza desta vida é que podemos encorajar-nos uns aos outros,
estar presentes uns para os outros de diferentes maneiras e
amar-nos uns aos outros em todas as circunstâncias." ― Lacey Sturm

 Lacey não sabia se conseguiria passar por isso vitoriosa, mas graças a Deus o tumor foi retirado dela antes que se agravasse. No ano seguinte, ela ficou de fato grávida de seu primeiro filho, Jack. Mas o breve momento de felicidade deu lugar a um sentimento de impotência perante a morte de seu querido amigo Rich Caldwell, que faleceu em um acidente de carro. A sensação era de que o tempo de Lacey na banda estava se encurtando cada vez mais. Ela sabia que sua prioridade já não era mais entreter o público com sua voz.

 Após sete anos no Flyleaf, Lacey sentiu a necessidade de fazer uma consulta ao fonoaudiólogo, que revelou que ela havia destruído suas cordas vocais, logo quando tinha um show marcado em Pittsburgh na mesma noite em que a consulta aconteceria. Porém, o doutor deixou explícito que era crucial que Lacey repousasse e fizesse algumas sessões de terapia, o que até fez sua voz voltar um pouco ao normal, mas não como antes.

 Como fã, já percebi que boa parte dos shows ao vivo que Lacey participava expunha em sua voz uma certa falha. Seus gritos de banshee tornaram-se gritos de pterodáctilo, mas isso ela explicaria no vídeo "Lacey Sturm: Questions about screaming" anos depois. Estava claro que ela precisava encontrar uma forma alternativa de continuar gritando por Deus.

"Acredito que foi a graça de Deus que sempre
encobriu as dificuldades que enfrentamos." ― Lacey Sturm

 Ainda que sua voz estivesse meio estável, Lacey teria uma difícil missão: se apresentar sem o apoio de Rich no som. Ele havia ensinado Shawn, o engenheiro de monitor da banda, tudo o que sabia sobre como operar a mesa de som. E por mais que ele fosse bom, Shawn não conhecia a voz de Lacey como Rich conhecia. Isso logo fez os pensamentos tomarem conta da mente da cantora, que se viu incapaz de prosseguir com o show, ainda remoendo a dor de ter perdido um grande amigo e irmão. Todo dinheiro arrecadado com aquele show seria para Katy, a gerente de turnê e esposa de Rich, e seu filho de dois anos, Kirby.

 Todos da banda estavam abalados com a morte de uma pessoa tão bondosa e familiar, que dedicou toda a sua vida ao Flyleaf, chegando a largar seu emprego bem remunerado — aquele para o qual ele estudou na faculdade — onde ficava sentado em um cubículo. Segundo Lacey, "ele (Rich) sabia que algo estava faltando, como acontece com tantas pessoas quando se contentam com menos do que as alturas para as quais foram chamadas". Rich arriscou tudo para poder entrar numa van Ford Club Wagon 1988 com aquelas cinco crianças rockeiras e seus instrumentos e viajar pelo país sem nenhuma garantia. Ele acreditava na banda e no impacto e na diferença que poderiam fazer.

 Como pilar do Flyleaf, Rich partiu deixando um buraco no coração de todos, que agora se sentiam perdidos sem ele. Lacey estava parada ao lado do palco enquanto o barulho da multidão invadia o ambiente. Era a hora deles se apresentarem, então James, Pat e Jared subiram as escadas. Mas ver seu mundo virar de ponta cabeça fez o estômago revirar, e Lacey desabou em lágrimas. Sameer estava logo atrás dela, e tomou sua irmã nos braços para consolá-la. Mas ainda que fossem fortes, seus corações partidos por Rich lamentavam em uníssono, e os dois choraram em prantos por tudo aquilo que estavam passando.

"Agora, essa mulher de trinta e poucos anos olha para trás, para aquela menininha de boca seca,
e sorri, chora e vê como a amargura funciona, como a mágoa se acumula
e se empilha como tijolos, formando uma prisão."
 ― Lacey Sturm

 Um bom tempo após essa enxurrada de turbulências, Lacey e Josh estavam em turnê para divulgar o novo álbum da banda, Memento Mori. No hotel, Josh descansava enquanto Lacey lia o livro 23 Minutos no Inferno, onde o autor conta sua experiência ao visitar o submundo durante um desdobramento (projeção astral). Lacey conta que desconfiava de qualquer livro em que o autor afirmasse ter ido ao céu ou ao inferno e voltado para contar a história. Acontece que, oito anos antes daquela leitura, ela e um grupo de amigos conversavam sobre assuntos religiosos, até que o tópico da vez era o inferno. Um deles, chamado Chad, foi o único que aguentou continuar com aquele papo. 

 Na semana seguinte àquela conversa, o Flyleaf se reuniu para um treino, começando com um estudo bíblico, como sempre faziam. Foi nesse dia, que a mãe de Jared lhes deu uma fita para ouvir, de um palestrante chamado Bill, que contava seu relato sobre sua ida e retorno do inferno, ele era o autor do livro que Lacey leria oito anos depois. Ele conta na fita que acordou no inferno sem se lembrar de ter sido cristão. Ele vivenciou um período fora do tempo, literalmente uma eternidade, onde estava no inferno. Lacey não queria acreditar nele, buscando qualquer coisa em seu discurso que validasse seu ceticismo, mas ele não demonstrou nenhum sinal de insanidade ou desonestidade.

 Lacey ficou com o coração arrasado. Bill contava que avistou Jesus e que ele lhe disse que o homem estava no inferno pois muitos não acreditavam que aquele lugar existia, e que ele tinha que contar a todos para que se arrependessem de seus pecados e não acabassem naquele lugar mórbido. Em prantos, Lacey chorou por aqueles que não aceitavam aquela verdade. Ela chorou por saber que pessoas inocentes, porém céticas, poderiam sofrer pela eternidade por conta da sua falta de fé. Josh acordou vendo sua esposa em lamúria e, sem saber o que fazer, apenas ficou ao seu lado até que ela conseguisse dormir de tanto chorar (ainda que tivesse chorado três dias seguidos por aquilo).

"Lutar para sobreviver não garante felicidade instantânea.
Na verdade, não garante nada." ― Lacey Sturm

 Um mês depois, Lacey e Josh foram a Kansas City visitar seu pastor, Eric, e sua esposa, Sarah. Eles haviam se juntado a uma igreja e queriam que os rockeiros conhecem o fundador, Tim Johns. Na sala de estar, Lacey mostrou uns vinte e cinco segundos do vídeo de “I’m So Sick” para Tim. O pastor ficou maravilhado (o que me surpreendeu muito), e foi a partir dali que ele passou a contar a Lacey toda a história de vida dela. Empolgado, ele afirmou que ela tinha uma unção profética e evangélica, um chamado de Deus para que ela cantasse a canção desta geração. Apenas com Josh ao seu lado, segundo o pastor, ela poderia se livrar de todo o peso que suportava ao colocar a cruz de todos em suas costas, assim como Jesus fez.

 De fato, Lacey se sentia sobrecarregada com toda dor que aguentava por aqueles que não entendiam a mensagem de Deus para a humanidade, tomando para si as lamentações dos espíritos incompreendidos. Aquilo era perigoso, e apenas Josh poderia confortá-la e lembrá-la de não tomar para si aquele peso insuportável, pois uma hora aquilo iria esmagá-la. O casal chorou ao ouvir aquilo, entendendo que estavam no caminho certo.

"De manhã, não saio por aí procurando pão para dar à minha família.
Mas saio por aí procurando maneiras de pintar nossa vida
juntos com a lente caleidoscópica de uma vida vivida como jazz." ― Lacey Sturm

 Flyleaf é uma banda que surgiu na intenção de espalhar a mensagem de que Deus ama a todos, e que vê os lamentos e agonias que todos passamos diariamente. É uma banda para aqueles que sofrem com a depressão, a raiva, a injustiça, o medo, a descrença em relação à vida. Ainda hoje, eu ouço as músicas e me vejo representado por cada verso, cada grito que faz meu espírito gritar em uníssono. A saída de Lacey do Flyleaf fez meu coração partir naquela época, mas eu entendi a razão, e agora ― enquanto escrevo este artigo, entendo ainda mais o porquê sou tão obcecado por essa banda.

 Flyleaf me salvou da morte, da depressão e da solidão. Ainda que eu me contenha em cantar os versos pela vergonha de levantar minha voz e incomodar aqueles ao meu redor com a minha presença, minha alma canta e grita junto a Lacey toda vez que paro para ler as letras tão emotivas e significativas. Cada faixa tem uma mensagem diferente para momentos diferentes e pessoas diferentes... mas eu sinto como se todas tivessem sido escritas para mim.

Livros

Lacey publicou três livros:

    The Reason: How I Discovered a Life Worth Living (2014)

    The Mistery: Finding True Love in a World of Broken Lovers (2016)

    The Return: Reflections on Loving God Back (2018)

 É possível encontrá-los gratuitamente na internet em formato PDF, caso não tenham dinheiro para comprá-los. Eu me baseei em The Reason para escrever este artigo, ainda que eu vá adicionar mais tópicos aqui após a leitura dos outros dois futuramente (é que a ansiedade em postar está me matando!).


Projetos

 Lacey é palestrante da Associação Evangelística Billy Graham (Billy Graham's Evangelistic Association, em inglês, ou BGEA) e de seus eventos Rock the River, onde inspira o público com seu testemunho. Além disso, Lacey cofundou o Movimento Whosoever e desempenhou um papel fundamental no lançamento do movimento RESET, usando sua plataforma para incentivar a transformação e a esperança.
 O Movimento Whosoever foi fundado com alguns de seus amigos mais próximos da indústria da música rock e dos esportes radicais, buscando construir e fortalecer jovens em situação de risco em comunidades locais, usando sua paixão coletiva por música, skate, arte e cultura jovem atual para inspirar criativamente as pessoas a se unirem e lutarem por mudanças.
 Já na música, Lacey e Josh fundaram o grupo musical Reflect Love Back, onde se unem a vários irmãos e irmãs de igreja para entoarem canções que refletem esperança e redenção àqueles que acreditam não serem merecedores de tais sentimentos.


Featurings

 Graças a Deus eu estive vivo tempo suficiente para ver Lacey fazendo featurings (participações) em músicas de vários artistas que eu tanto amo, e eu alguns que eu passei a amar recentemente, como por exemplo:
  • Skillet, com a faixa Breaking Free
  • Lindsey Stirling, com a faixa Breathe With Me
  • Third Day, com a faixa Run To You
  • Caleb Hyles, com a faixa Darkness Before The Dawn
  • Apocalyptica, com a faixa Broken Pieces
  • We As Human, com a faixa Take The Bullets Away
  • Breaking Benjamin, com a faixa Dear Agony
  • Love and Death, com a faixa Let Me Love You
  • Reflect Love Back, com a faixa Sacred
  • Nothing More, com a faixa Best Times
  • All Good Things, com a faixa Hold On
  • Islander, com a faixa It's Not Easy Being Human


Álbuns

Solo


Flyleaf




"There was a clarity that hadn’t been there for as long as I could remember.
Not a clarity like when you understand something, but the clarity of a blank canvas.
The clarity of a flyleaf page in a new book." ― Lacey Sturm


Fontes

The Reason: How I Discovered a Life Worth Living, de Lacey Sturm.
Lacey Sturm, via Wikipédia.
23 Minutes in Hell - Bill Wiese Hell Testimony, por FreeCDTracts.

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