Papahānaumoku, frequentemente chamada apenas de Papa, é a deusa da Terra e Mãe primordial na religião e mitologia dos antigos havaianos. Ela é celebrada como uma força criadora essencial, associada à fertilidade, à vida e à cura, sendo ainda hoje venerada por alguns havaianos — especialmente mulheres — como uma presença sagrada que sustenta e regenera o mundo.
Nos cânticos tradicionais, Papa aparece como consorte de Wākea, o Pai Céu e personificação do princípio criativo masculino. Filho do deus Kahiko, Wākea, junto de Papa, representa a união entre masculinidade e feminilidade divinas. Dessa união nasceram as Ilhas Havaianas — como Havaí, Maui, Oʻahu e Kauaʻi — que eram vistas como seus descendentes diretos. Por isso, os chefes e nobres havaianos reivindicavam linhagem divina a partir de Papa, acreditando-se herdeiros dessa ancestralidade sagrada.
A filha mais conhecida do casal é Hoʻohōkūkalani, protagonista de um dos mitos mais importantes da tradição havaiana. Segundo essa narrativa, ela se torna amante de Wākea e dá à luz um primeiro filho natimorto. Papa nomeia essa criança de Hāloa e a enterra na terra; desse local nasce o primeiro taro, planta fundamental na cultura e alimentação havaiana. Posteriormente, Hoʻohōkūkalani tem um segundo filho, também chamado Hāloa, que se torna o ancestral dos seres humanos.
Esse mito estabelece uma profunda conexão simbólica entre os humanos, a terra e o alimento, mostrando que a humanidade descende tanto da linhagem divina quanto da própria terra viva — um reflexo direto da essência de Papahānaumoku como mãe de toda a vida. Além disso, em 2007, o Monumento Nacional Marinho das Ilhas Havaianas do Noroeste foi renomeado como Papahānaumokuākea Marine National Monument, em homenagem a essa poderosa deusa ancestral.
Vasundharā, também conhecida como Dharaṇī, é uma deusa ctônica presente na mitologia budista Theravada, especialmente difundida no Sudeste Asiático. Ela representa a própria Terra e está associada à estabilidade, fertilidade e ao testemunho dos atos humanos, desempenhando um papel espiritual importante em tradições budistas. Sua figura possui paralelos com outras divindades terrestres de diferentes sistemas religiosos, como Pṛthivī, Kṣiti, Vasudhara no Vajrayana, além de Bhūmi Devī e Prithvi no hinduísmo.
Seu nome varia amplamente conforme a região e a língua. No Camboja, ela é chamada de Neang Konghing (“senhora princesa”), além de Preah Thoroni ou Preah Mae Thoroni (“Mãe Terra Divina”). Em Mianmar, é conhecida como Wathondare ou Wathondara, nomes derivados do termo pali Vasundharā, que significa literalmente “terra”. Já na Tailândia, ela aparece como Phra Mae Thorani, uma das formas mais populares e reverenciadas dessa divindade.
Assim, Vasundharā/Dharaṇī representa uma manifestação da Terra como entidade viva e sagrada dentro do budismo do Sudeste Asiático, conectando-se simbolicamente a uma ampla tradição de deusas terrestres em diferentes culturas e religiões, sempre associadas à sustentação da vida e ao equilíbrio do mundo.
Sif é uma deusa da mitologia nórdica associada à terra, conhecida principalmente por seus cabelos dourados e por ser esposa de Thor. Ela aparece tanto na Edda Poética quanto na Edda em Prosa, além de ser mencionada na poesia escáldica, o que demonstra sua relevância nas tradições mitológicas escandinavas.
Um dos episódios mais conhecidos envolvendo Sif é narrado na Edda em Prosa: o deus Loki corta seus cabelos dourados enquanto ela dorme, provocando a fúria de Thor. Para reparar o ato, Loki é forçado a encomendar aos anões um novo adorno feito de ouro puro, que cresce como cabelo real. Esse episódio não apenas restaura a beleza de Sif, mas também resulta na criação de outros cinco artefatos mágicos destinados a diferentes deuses.
Sif também é descrita como mãe de Þrúðr, fruto de sua união com Thor, e como mãe de Ullr, embora este último não seja filho de Thor. Sua figura, apesar de menos detalhada em comparação a outros deuses nórdicos, carrega fortes simbolismos.
Estudiosos frequentemente interpretam seus cabelos dourados como uma representação metafórica dos campos de trigo maduros, sugerindo uma ligação com fertilidade, abundância, casamento e vida familiar. Há também hipóteses que a conectam à árvore sorveira e possíveis alusões à sua figura ou ao seu nome no poema anglo-saxão Beowulf, indicando que seu simbolismo pode ter ecos mais amplos dentro das tradições germânicas antigas.
Tellus, também chamada de Terra ou Terra Mater (“Mãe Terra”), é a personificação da Terra na religião e mitologia romana antiga. Embora, durante o período imperial, os nomes Tellus e Terra tenham se tornado praticamente indistinguíveis, Tellus era originalmente a principal deusa da terra nas práticas religiosas da República Romana e períodos anteriores. O erudito Varrão a inclui entre os di selecti, os vinte deuses mais importantes de Roma, além de listá-la como uma das doze divindades agrícolas centrais.
Tellus estava profundamente associada à fertilidade da terra e à produção agrícola, sendo frequentemente cultuada ao lado de Ceres em rituais voltados à colheita e à abundância. Seus atributos simbólicos incluem a cornucópia, bem como flores e frutos, representando a prosperidade e a nutrição que a terra oferece. Na arte, ela costuma ser retratada reclinada ou emergindo do solo até a altura da cintura, reforçando sua identidade como a própria substância terrestre.
Seu complemento masculino geralmente era um deus celeste, como Caelus (equivalente ao grego Urano) ou mesmo uma forma de Júpiter, estabelecendo a clássica dualidade entre céu e terra. Sua contraparte direta na mitologia grega é Gaia, enquanto entre os etruscos ela era conhecida como Cel.
De acordo com o estudioso Michael Lipka, a figura de Terra Mater que ganhou destaque durante o reinado de Augusto pode ser entendida como uma adaptação direta da deusa grega Ge Mater (Gaia) à religião romana. Já Tellus, cujo antigo templo situava-se dentro do pomerium — o limite sagrado da cidade de Roma —, representa uma forma mais arcaica e autenticamente romana da deusa da terra, cultuada oficialmente pelos sacerdotes do Estado.
Tlaltecuhtli é uma divindade mesoamericana pré-colombiana associada ao povo mexica (asteca), profundamente ligada à própria constituição do mundo. Seu nome, vindo do náuatle clássico Tlāltēuctli, pode ser interpretado como “Senhor” ou “Senhora da Terra”, refletindo uma natureza ambígua que reúne aspectos masculinos e femininos. Na cosmogonia asteca, especialmente no mito da criação do quinto e atual cosmos, Tlaltecuhtli é descrita como um “monstro da terra” cujo corpo desmembrado serviu de base para a formação do mundo, tornando-se literalmente a própria superfície terrestre.
Segundo as tradições míticas, os deuses Tezcatlipoca e Quetzalcoatl, ao contemplarem o mundo primordial ainda inerte e aquático, decidiram que ele deveria ser habitado. Para isso, criaram a Terra a partir do corpo de Cipactli, uma criatura colossal semelhante a um crocodilo, originária do plano divino conhecido como Omeyocan. Em algumas versões, menciona-se também a descida de Tlalcihuatl (“Senhora da Terra”) e a presença de Tlaltecuhtli como seu consorte, reforçando a dualidade e complexidade dessa entidade.
Como fonte de toda a vida, Tlaltecuhtli exigia sacrifícios humanos para ser apaziguada, pois deles dependia a continuidade da ordem cósmica. Essa necessidade simbólica reflete a visão asteca de um universo sustentado por ciclos de morte e renovação. Sua iconografia é marcante e frequentemente inquietante: ela é representada como uma criatura agachada, semelhante a um sapo, com grandes garras, pele de crocodilo e uma boca escancarada — muitas vezes exibindo sangue ou uma lâmina de sílex entre os dentes, indicando sua fome pelo sangue humano. Seus membros podem ser adornados com crânios, e em algumas representações seu corpo inteiro é coberto por bocas com dentes afiados, intensificando seu aspecto devorador.
Além disso, Tlaltecuhtli pode aparecer vestindo uma saia feita de ossos humanos e ornamentos com símbolos estelares, associados ao seu sacrifício primordial. Seu culto e suas características são conhecidos graças a importantes registros pós-conquista, como o Códice Florentino, o Códice Bodley e a obra Histoyre du méchique, que documentaram a mitologia e as crenças religiosas dos mexicas no século XVI.
Além disso, Veles era considerado um fiador de juramentos, punindo aqueles que os quebravam com uma maldição descrita como “torná-los amarelos”, possivelmente uma referência simbólica à icterícia. Sua natureza multifacetada apresenta paralelos com diversas divindades de outras tradições indo-europeias, como Varuna, Velnias, Odin, Hermes e Hades, embora não sejam equivalentes diretos. Alguns estudiosos sugerem que ele possa preservar aspectos de uma divindade protoindo-europeia mais antiga, possivelmente chamada Welnos.
Por muito tempo, houve uma interpretação acadêmica que associava Veles a uma figura dracônica ou serpentina, baseada nas reconstruções de Vyacheslav Ivanov e Vladimir Toporov em 1974. No entanto, essa hipótese foi posteriormente criticada por estudiosos como Aleksander Gieysztor e deixou de ser aceita como consenso na pesquisa moderna sobre mitologia eslava. A ideia de um conflito mítico direto entre Veles e o deus do trovão não foi comprovada de forma sólida, sendo considerada mais conjectural do que factual.
Posteriormente, o próprio Toporov revisou sua posição, afastando a associação de Veles com o demônio védico Vṛtra e aproximando-o ainda mais de Varuna. O nome Varuna, por sua vez, tem sido comparado por estudiosos a outras divindades e figuras mitológicas, como Aruna (na tradição hitita), Urano (na mitologia grega), além do próprio Veles e de Velnias. Esses paralelos reforçam a hipótese de uma raiz indo-europeia comum, ainda que permaneçam algumas incertezas quanto às correspondências exatas.












2 Comentários
Mitologia é um dos meus assuntos preferido. Gosto especialmente de mitologia grega, então a maioria das informações do post eu ainda não conhecia. Mas adorei conhecer e já quero pesquisar mais sobre. Gostei especialmente da última história porque nunca tinha lido nada sobre mitologia japonesa.
ResponderExcluirTodas as mitologias trazem algo especial. Para cada ser no mundo há uma história diferentes, isso é o que eu mais amo <3
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