Divindades da terra, do solo e das pedras (Parte 3)


 Cá está a continuação da lista de divindades da terra. Lembrando que a lista com todas as partes estão disponíveis no final da leitura, ein!


Žemyna


 Žemyna (também Žemynėlė ou Žemelė) é a deusa da terra na mitologia lituana, mas também deusa-mãe, personificação da terra fértil e nutridora de toda a vida na Terra, seja humana, vegetal, mineral e animal. Devido a tudo que nasce da terra retorna à terra, o culto de Žemyna também está relacionado à morte. Ela era conhecida por muitos nomes, como: Mãe das Areias, Mãe dos Túmulos e Mãe dos Fantasmas.
 Com a cristianização da Lituânia, o culto à imagem de Žemyna foi gradualmente dando lugar ao culto à Virgem Maria. Contudo, embora o cristianismo estivesse se espalhando rapidamente pela Europa, o povo do Báltico ainda não havia sido acorrentado por ele.
 Ali, o povo continuava praticando os antigos costumes de seus ancestrais. Eles se reuniam em colinas e bosques sagrados para fazer oferendas aos deuses. À Žemyna, eram oferecidos sacrifícios, porém, uma das oferendas mais comuns era a cerveja, que seus adoradores derramavam na terra no início de cada festival.
 Os bálticos medievais acreditavam que a divisão entre o mundo dos vivos e o dos mortos era ilusória, portanto, o papel de Žemyna englobava tanto as forças da vida quanto da morte. Havia um costume antigo onde, quando uma criança nascia, muitas vezes num banho sagrado, oferendas eram feitas à Žemyna. Era comum que as mulheres compartilhassem uma refeição especial e sagrada nessas ocasiões. Inclusive, embora todos venerassem Žemyna como a Mãe Terra, ela tinha uma conexão especial com as mulheres.


Dheu


 Dhé ou Dheu representa a Mãe Terra no paganismo albanês. Ela é considerada a Grande Mãe (Magna Mater) e é objeto de culto especial, juramentos importantes e maldições no folclore albanês. Esta divindade representa a terra viva e está profundamente enraizada na cultura e tradições pagãs albanesas, muitas vezes com forte ligação à veneração da terra pelos povos da região de Kelmend.
 Dheu é vista por muitos como a versão albanesa da deusa romana da terra Tellus/Terra, Dea Dia e Mater Magna, respectivamente.


Etugen Eke


 Etugen Eke (ou Etügen Ekhe, "Mãe Terra") é a deusa da terra, fertilidade e do lar no tengrismo (uma religião turca com ligações xamânicas) e na mitologia mongol/turca. Representa a natureza e a fertilidade da terra, sendo frequentemente retratada como uma jovem montando um touro cinza. É considerada uma divindade protetora, frequentemente associada à montanha sagrada Ötüken, e uma figura perpetuamente virgem.
 Etugen Eke é reverenciada como a personificação divina da Terra, simbolizando a pátria (nutag), a maternidade (eke) e as forças geradoras, com seu nome derivado de raízes proto-mongóis ligadas a conceitos de origem, útero (keġeli) e essência protetora (e'enegče).
 Na cultura espiritual mongol, Etügen Eke representa um sistema matriarcal pré-histórico de culto, onde a Terra é tratada como uma entidade viva e feminina, central para as crenças nômades em fertilidade, criação e harmonia com a natureza. Seu papel se estende às práticas animistas, influenciando costumes como tabus ambientais que proíbem prejudicar o solo ou as águas, refletindo uma visão de mundo de interconexão onde os humanos são "filhos da Grande Mãe Terra".
 Etügen é invocada em rituais xamânicos, incluindo invocações como Načigajin duudlaga e referências em textos como A História Secreta dos Mongóis, onde termos metafóricos (por exemplo, ötög uγsan-u qoina) aludem aos seus atributos protetores e maternos.
 Associada à gravidez e ao parto, Etügen Eke apresenta paralelos com outras divindades tengristas, como Yer-sub (deusa da terra), e está ligada a símbolos totêmicos de abundância e renovação, ressaltando sua importância duradoura na preservação da identidade cultural e do equilíbrio ecológico entre os povos turcos e mongóis.


Jörð


 Na mitologia nórdica, Jord (Jorth, Jard, Jörð, Jɑrð, Fjörgyn ou Hlóðyn) é uma deusa jötunn (gigante) conhecida por ser a personificação da Terra, não é atoa que o seu nome, em nórdico antigo, significa "terra". Ela é mãe de Thor e Meili, assim como uma das esposas de Odin, que ao mesmo tempo em que a amava incondicionalmente, expressava um imenso ódio por sua raça, os jötnar (plural de jötunn). Esse ódio futuramente seria herdado por Thor e Meili.
 Mais tarde, Jord faleceria por razões desconhecidas. Sua morte deixou Odin desolado por muitos anos, fazendo com que seu conselheiro Mimir passasse a acreditar que Odin precisava de uma substituta para Jord, inspirando o Rei dos Deuses a encerra a Guerra Aesir-Vanir. Com o fim da guerra, Odin logo depois se casou com a deusa aesir Frigga, sentindo amor mais uma vez.
 Originalmente, Jord é descrita como uma das concubinas de Odin, além de ser considerada uma das Ásynjar (deusas) do panteão nórdico. Ela ainda é atestada como sendo filha de Annar e Nótt (deusa aesir que personifica a noite), e meia-irmã de Auðr e Dagr (personificação do dia).


Ki


 Na mitologia suméria, Ki é a deusa da terra e consorte principal do deus do céu Anu. Em algumas lendas, os dois são retratados como irmãos, descendentes de Anshar ("Pivô do Céu") e Kishar ("Pivô da Terra"), as antigas personificações do céu e da terra. Acredita-se que a deusa-mãe suméria Ninhursag seja, na verdade, Ki. Mais tarde, passou a ser cultuada na Babilônia e na Acádia sob o nome de Antu.
 Junto a Anu (também conhecido como Anunna), Ki deu à luz os Anunnaki, um grupo de divindades cultuadas pelos antigos sumérios, acádios, assírios e babilônios. Quando Enlil, o deus do ar, nasceu, ele dividiu os céus e a terra em dois. Anu ficou com os céus, enquanto Ki se casou com seu filho e ficou com a Terra. Dessa união, toda a vida vegetal e animal foi produzida.


Leimarel Sidabi


 Leimarel Sidabi é a suprema deusa-mãe da terra e da natureza no Sanamahismo, a religião nativa dos Meitei em Manipur, Índia. Venerada como a mãe de todos, ela é considerada a forma suprema de divindade feminina, com cinco formas principais: Singjakhombi, Phouoibi (Deusa das colheitas), Emoinu (Deusa da riqueza e prosperidade), Yumjao Leima (Deusa do lar) e Panthoibi (Deusa da coragem e guerra, frequentemente associada à Durga).
 Ela é tida como a personificação da terra, da fertilidade e da natureza, e por estar numa posição central na mitologia meitei, Leimarel tem alguns templos dedicados a ela, como os encontrados na região de Sagaing, em Myanmar. É adorada em quase todos os lares Meitei, representando a proteção e a prosperidade doméstica. Leimarel Sidabi é vista como uma divindade onipresente, protetora do lar e da terra.
 Leimarel é uma deusa-mãe eterna. Nos tempos antigos, os casais reais governantes sentavam-se no laplen ka (sala central), de frente para o local sagrado de Leimarel. Acreditava-se que homens e mulheres se originavam do ventre de Leimarel. Uma casa simboliza a Mãe nas crenças cósmicas tradicionais Meitei.
 Durante o mundo infantil, o deus criador Atingkok Maru Sidaba pediu a Leimarel Sidabi que criasse outra deusa a partir de si mesma. Após a criação, a nova deusa foi chamada de Emoinu , que foi enviada à Terra como a deusa guardiã da humanidade.



Maaemä


 Maaemä (ou Maaema) é a deusa da Terra — ou a própria personificação da terra — nas mitologias finlandesa e estoniana, sendo vista como uma grande “Mãe Terra”, símbolo da fertilidade, do solo, da natureza e da vida. Seu nome deriva das palavras que significam “terra” e “mãe”, refletindo seu papel essencial como geradora e sustentadora de tudo o que existe. Em algumas tradições, ela é considerada esposa de Ukko, embora essa relação não seja totalmente definida. Também é frequentemente associada a Akka, outra figura materna ligada à terra.
 Nas canções rúnicas finlandesas, Maaemä aparece como a própria mãe primordial, fonte de vida e força em oposição ao céu. Ela é descrita como origem de elementos naturais, como plantas, pedras e até serpentes, sendo ligada a figuras como Sampsa Pellervoinen. Em algumas versões influenciadas pelo cristianismo, chega a ser chamada de mãe criadora. Diversos nomes e variações — como Maatar, Manutar e Mammotar — representam aspectos semelhantes da “Senhora da Terra”, muitas vezes associada à criação e ao mundo subterrâneo.
 Na Estônia, Maaemä era profundamente venerada em rituais, especialmente nos solstícios, quando eram feitas oferendas de alimentos e bebidas diretamente ao solo ou a pedras sagradas para garantir fertilidade e boas colheitas. A terra era tratada literalmente como uma mãe viva: feri-la ou desrespeitá-la era visto como um ato grave. Com o tempo, práticas tradicionais foram reprimidas, mas permaneceram na memória cultural como parte fundamental da relação espiritual com a natureza.
 Assim, Maaemä representa não apenas uma deusa, mas a própria essência da terra como entidade viva e sagrada, sendo um dos pilares das crenças populares da Finlândia, Carélia e Estônia.


Mat Zemlya


 Mat Zemlya, também chamada de Mati Syra Zemlya (“Mãe Terra Úmida”), é a personificação da Terra na mitologia eslava, vista como uma divindade primordial ligada à fertilidade, à vida e ao próprio ciclo natural da existência. Seu nome remete à terra fértil e úmida que gera e sustenta a vida, sendo considerada uma das entidades mais antigas e sagradas das tradições eslavas. Diferente de muitos deuses com forma definida, ela era venerada diretamente no solo, sem representação humana fixa, reforçando a ideia de que a própria terra é a deusa.
 Seu culto era profundamente prático e espiritual: os eslavos faziam juramentos tocando o chão, confessavam pecados em buracos na terra e ofereciam respeito direto ao solo, tratando-o como uma entidade viva e consciente. Em muitos casos, sua identidade se aproxima ou se mistura com a deusa Mokosh, associada ao destino, à fertilidade e às atividades femininas.
 Na visão mitológica, Mat Zemlya possui uma natureza ambivalente: ela é ao mesmo tempo mãe e túmulo — aquela que dá origem à vida e também recebe os mortos de volta, simbolizando um retorno ao ventre da terra. Essa ideia aparece em cantos e lamentações fúnebres, onde a “terra úmida” é invocada como acolhedora dos ancestrais. Embora raramente descrita fisicamente, às vezes é imaginada com pele escura, representando o solo fértil.
 Além disso, figuras heroicas como Mikula Selyaninovich são consideradas conectadas a ela, recebendo sua força diretamente da terra. Assim, Mat Zemlya não é apenas uma deusa, mas a própria essência viva do mundo natural, reverenciada como fonte de vida, guardiã da verdade e destino final de todos os seres.


Mẫu Địa


 Mẫu Địa, conhecida como “Mãe Terra” ou “Mãe do Submundo”, é a deusa que governa a Terra dentro da religião vietnamita Đạo Mẫu, simbolizando fertilidade, crescimento, proteção e a sustentação de todos os seres vivos. Ela integra o sistema dos Quatro Reinos — Céu, Terra, Água e Montanhas/Florestas — sendo responsável pela energia vital, pelas colheitas e pelo equilíbrio do mundo material e subterrâneo.
 Como divindade, Mẫu Địa preside não apenas a terra física, mas também o submundo, sendo vista como a força por trás da formação e manutenção de todas as coisas. Frequentemente representada vestindo um manto amarelo — cor que simboliza a terra sagrada —, ela ocupa um lugar importante entre as Mães Sagradas veneradas nos templos. Em muitas tradições, sua identidade se conecta à de Liễu Hạnh, considerada uma das principais manifestações divinas na Terra e figura central do culto.
 É importante distingui-la de Diêu Trì Địa Mẫu, que pertence a um contexto religioso diferente, ligado ao taoísmo chinês. Dentro do Đạo Mẫu, Mẫu Địa governa o chamado “Palácio da Terra”, um dos quatro palácios espirituais, cada um associado a uma cor e domínio específico: vermelho para o Céu, verde para as Montanhas e Florestas, branco para a Água e amarelo para a Terra.
 A devoção a Mẫu Địa expressa gratidão à terra como fonte de vida e abundância, sendo comum a realização de orações e rituais pedindo boas colheitas e equilíbrio natural. Textos sagrados, como o Sutra da Mãe Terra, exaltam seu papel como criadora e sustentadora do mundo. Assim, ela é compreendida não apenas como uma deusa, mas como a própria essência viva da terra, que nutre, protege e mantém o ciclo da existência.


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