Hoje eu irei apresentar as histórias originais de cada uma das principais princesas da Disney. É preciso frisar que a maioria desses contos possui um aspecto sombrio e um tanto mórbido, perpassando temas como: abuso sexual, autoritarismo, assassinato e entre outros.
Aurora - A Maldição do Sono Eterno
A versão original da história que inspirou A Bela Adormecida é muito mais sombria do que a adaptação da Disney. Sua fonte mais antiga conhecida é o conto “Sol, Lua e Tália”, registrado pelo italiano Giambattista Basile no século XVII, no livro Pentamerone (1634).
No conto de Basile, Tália (equivalente à Aurora) é filha de um nobre poderoso. Astrólogos avisam ao pai que a jovem cairia em sono profundo quando uma lasca de linho perfurasse seu dedo. O pai tenta impedir esse destino proibindo o linho no palácio, mas, quando Tália cresce, entra em contato com uma roca de fiar, fere o dedo e cai em sono profundo.
Tempos depois, um rei passa pelo local, encontra Tália adormecida e, sem conseguir despertá-la, comete abuso sexual enquanto ela dorme. Tália engravida e, meses depois, dá à luz a dois filhos, chamados Sol e Lua. Um dos bebês suga seu dedo e remove a farpa, permitindo que ela finalmente acorde.
O rei retorna, encontra Tália viva e as crianças, e começa a visitá-la em segredo. Porém, sua esposa descobre a existência da jovem e dos filhos. Tomada pelo ciúme, ordena que as crianças sejam mortas e servidas ao marido em um banquete. O cozinheiro, contudo, não cumpre a ordem e salva os pequenos. A rainha tenta então matar Tália, mas seus planos fracassam e ela é punida. No fim, o rei assume publicamente Tália e os filhos.
Branca de Neve - A Maçã Envenenada
Embora a versão da Disney transforme a jornada de Branca de Neve em um conto delicado e inocente, a história registrada pelos Irmãos Grimm, em 1812, é muito mais cruel, principalmente no que diz respeito às intenções da madrasta e à forma como a justiça é aplicada no final.
Na narrativa original, a madrasta de Branca de Neve, obcecada por beleza e poder, ordena a um caçador que mate a enteada e traga de prova o fígado e os pulmões da jovem (não o coração, como muitas versões populares mencionam). A rainha acredita que eles pertencem à menina e os come, acreditando estar consumindo Branca de Neve — um ato simbólico ligado a rituais de poder muito comuns em mitologias antigas.
Branca de Neve foge, encontra os anões e passa a viver com eles até ser enganada pela madrasta três vezes. Na última tentativa, a rainha oferece a maçã envenenada, e a jovem aparentemente morre. Os anões, incapazes de enterrá-la pela sua beleza intacta, a colocam em um caixão de vidro.
Na versão dos Grimm, o príncipe não desperta Branca de Neve com um beijo romântico. Ele pede aos anões para levar o corpo com ele — por admiração e fascínio — e, durante o transporte, um dos carregadores tropeça. O impacto faz o pedaço de maçã preso na garganta de Branca de Neve se soltar, permitindo que ela volte à vida. Ou seja: não existe beijo mágico na versão original.
Após recuperar-se, Branca de Neve e o príncipe se casam. A rainha é convidada para o casamento e, ao descobrir que a noiva é a enteada que acreditava estar morta, fica horrorizada. Como punição, os Grimm narram que ela é forçada a calçar sapatos de ferro aquecidos ao fogo e obrigada a dançar até cair morta. Essa cena simboliza a moral dos contos medievais: quem comete crueldade, sofre punição igualmente cruel.
Cinderela - Serva dos Desejos

Cinderela sempre teve o desejo de encontrar o amor verdadeiro, de viver em um palácio, e ser feliz para sempre. Mas, todos sabemos que a vida não é feita de flores. Na história real de Cindy, uma de suas horríveis e malignas irmãs, ao saber que o príncipe estivera procurando a dona daquele pequenino sapato de cristal, decepou seus próprios dedos, e outra das suas irmãs cortou decepou seu calcanhar para que seus pés coubessem no sapato. O príncipe teria acreditado que eram elas, porém, alguns daqueles belos e inocentes passarinhos azuis que eram fiéis à Cinderela, avisaram ao príncipe que o sapato estava repleto de sangue, e assim, o príncipe não aceita nenhuma das irmãs. O príncipe acaba vendo Cinderela na casa e pede que ela calçasse os sapatinhos, que perfeitamente couberam. O príncipe pede Cindy em casamento. No dia da festa de casamento de Cinderela e o Príncipe, as duas irmãs, ao tentarem entrar na festa, são interditadas pelos belos passarinhos azuis, que instintamente picam e arrancam os olhos das irmãs de suas órbitas. Mais tarde, como forma de se vingar, Cinderela mata sua madrasta quebrando seu pescoço com a tampa de um baú.
Não existia nenhuma fada madrinha...
Bela e a Fera - A Flor da Morte

Um rico comerciante perde toda sua fortuna e precisa se mudar com suas filhas para uma vida simples no campo. Entre elas está Bela, gentil, inteligente e humilde — ao contrário de suas irmãs, que são vaidosas e cruéis.
Um dia, o pai recebe a notícia de que um de seus navios pode ter sido recuperado e viaja com esperança. No caminho de volta, acaba se perdendo em uma tempestade e encontra um castelo misterioso. Lá, é recebido por uma hospitalidade invisível — comida pronta, cama quente, abrigo… mas ninguém aparece.
Ao ir embora, ele lembra do pedido de Bela: “Ela não queria joias, nem vestidos caros. Apenas uma rosa.”
Ele então colhe uma rosa no jardim do castelo. Nesse momento, surge a Fera, furiosa:
“Eu te ofereci hospitalidade, e você roubou minha flor favorita.
Agora pagará com a vida.”
Desesperado, o pai explica que a flor era para a filha. A Fera então propõe outra condição:
“Vá para casa, mas volte com uma de suas filhas…
Ela deverá viver aqui no meu lugar.”
O pai volta arrasado. Bela descobre a verdade e decide ir por vontade própria, para salvar o pai.
No castelo, Bela é tratada com respeito, riqueza e conforto inimagináveis. A Fera é assustadora, mas gentil. Conversam todas as noites. Ele se declara para ela repetidas vezes, pedindo que se case com ele, mas Bela não consegue aceitar. Mesmo assim, ele nunca a força.
Com o tempo, Bela passa a gostar dele, não por aparência, mas por caráter. Ela descobre também que tudo ali é resultado de magia — feitiços, maldições, segredos.
Bela pede para visitar a família. A Fera permite, mas faz um acordo:
“Você deve voltar em oito dias.
Se não voltar… eu morrerei.”
Bela vai e suas irmãs invejosas fazem de tudo para atrasá-la, acreditando que, se a Fera morresse, Bela herdaria tudo. Quando ela finalmente retorna ao castelo… A Fera está caída, fraca, quase morrendo no jardim. Bela percebe que o ama, chora e admite:
“Eu quero que você viva… eu te amo!”
Nesse momento, a Fera se transforma em um príncipe — não por um “beijo mágico”, mas pelo reconhecimento sincero do amor.
Na versão original, a história explica muita coisa:
• A Fera era um príncipe amaldiçoado por uma fada cruel.
• Ele só poderia voltar a ser humano quando alguém o amasse sem se importar com sua aparência.
• Bela não era comum: era filha de uma rainha fada e havia sido escondida na família do comerciante para protegê-la.
Ou seja, a história é cheia de magia política, intriga entre fadas e destino — muito mais elaborada do que a versão simples e infantil posterior. No final, Bela e o príncipe se casam, as irmãs invejosas recebem punição moral (sem exageros extremos), e tudo termina com a famosa moral francesa:
“A verdadeira beleza não está na aparência,
mas no coração e nas atitudes.”
Rapunzel - O Poder da Cura

A história de Rapunzel ficou conhecida mundialmente pela versão da Disney, que transforma a jovem de longos cabelos dourados em uma heroína mágica. Porém, a narrativa clássica registrada pelos Irmãos Grimm, no século XIX, é muito mais dramática e sombria.
Rapunzel é entregue ainda bebê a uma feiticeira, como pagamento por uma dívida feita pelos pais. A jovem cresce isolada em uma torre sem portas, e apenas a feiticeira consegue alcançá-la quando Rapunzel solta seus longos cabelos pela janela.
Com o tempo, um príncipe descobre a torre, aprende a alcançar a jovem da mesma forma e passa a visitá-la em segredo. Eventualmente, Rapunzel engravida — fato sugerido discretamente no conto. Quando a feiticeira descobre, corta seus cabelos e a envia para um deserto, onde ela passa a viver em sofrimento.
Quando o príncipe retorna e encontra a torre vazia, a feiticeira o engana. Desesperado, ele cai da torre em espinhos e fica cego. A partir daí, passa anos vagando, triste e debilitado, até reencontrar Rapunzel. Ela já havia dado à luz gêmeos e, ao vê-lo novamente, suas lágrimas caem sobre seus olhos, restaurando sua visão — simbolizando redenção, perdão e esperança.
Não há final mágico e leve como nos filmes, mas há um desfecho marcado por sofrimento, aprendizado e reencontro.
Jasmine - Um Mundo Presa à Riquezas

Embora a Disney tenha transformado Aladdin em uma história leve, romântica e cheia de magia colorida, o conto original presente na coletânea “As Mil e Uma Noites” é bem diferente. Ele é mais focado em ambição, poder e consequências morais do desejo ilimitado.
No conto clássico (provavelmente adicionado à coletânea por Antoine Galland, no século XVIII), Aladdin não é um herói humilde, mas um jovem preguiçoso e despreocupado que vive com a mãe. Um poderoso feiticeiro estrangeiro o engana para que recupere a lâmpada mágica escondida em uma caverna.
Ao contrário do filme da Disney, existem dois gênios: o gênio do anel, menos poderoso, que salva Aladdin quando ele fica preso; o gênio da lâmpada, extremamente poderoso, que realiza seus maiores desejos.
Com o poder da lâmpada, Aladdin pede riquezas, reconhecimento e se casa com a princesa — que, no conto original, não se chama Jasmine, mas Badroulbadour.
O feiticeiro consegue roubar a lâmpada e leva o palácio e a princesa para longe. Aladdin, usando o gênio do anel, consegue localizar e enfrentar o mago. Ele derrota o vilão e recupera tudo o que havia perdido. Mais tarde, o irmão do feiticeiro tenta vingar sua morte, mas também é derrotado.
No fim, Aladdin permanece com a princesa, o palácio e as riquezas. Diferente da Disney, não há lição sobre libertar o gênio: ele não é solto na história original.
Tiana - O Desejo de Ser Alguém

Em A Princesa e o Sapo, da Disney, Tiana beija um sapo que, na verdade, é um príncipe enfeitiçado, e a história segue com humor, música e romance. Mas a base dessa narrativa vem de um dos contos mais antigos e sombrios dos Irmãos Grimm: “O Rei Sapo” (ou “O Príncipe Sapo”), cuja moral é bem menos delicada do que se imagina.
Na história tradicional, a princesa (que não se chama Tiana) não deseja romance — ela simplesmente quer de volta sua bola de ouro que caiu em um poço. Um sapo surge e promete ajudar, com a condição de ser tratado como seu companheiro.
Depois de recuperar a bola, a princesa tenta ignorá-lo, mas ele vai parar no castelo, exigindo cumprir o trato: dormir perto dela, comer ao seu lado e ser tratado com dignidade. Cansada, enojada e irritada, a princesa o pega e o arremessa com força contra a parede. Em vez de punição, isso quebra o feitiço e ele volta à forma humana.
Ou seja: não existe beijo na versão original. O “beijo do sapo” é uma invenção muito posterior.
Esmeralda - Um Amor Impossível

A versão original de O Corcunda de Notre-Dame, escrita por Victor Hugo em 1831, é muito mais trágica do que a adaptação da Disney. Na história, acompanhamos Quasímodo, um homem deformado e rejeitado pela sociedade, adotado e criado pelo arcediago Claude Frollo. Quasímodo desenvolve um amor profundo e não correspondido por Esmeralda, uma jovem cigana de beleza marcante, cuja presença desperta obsessão tanto nele quanto em Frollo.
Esmeralda é acusada injustamente de feitiçaria e tentativa de assassinato por causa de intolerância social e xenofobia contra os ciganos na França medieval. Condenada à morte, ela é salva momentaneamente por Quasímodo, que a leva para a Catedral de Notre-Dame, garantindo-lhe refúgio temporário pela “lei de santuário”.
Durante uma invasão dos ciganos, que tentam resgatá-la, Quasímodo acredita que eles estão ali para machucá-la e a defende agressivamente. No caos, Frollo tenta sequestrar Esmeralda e, ao ser rejeitado, a entrega novamente às autoridades. Ela é executada na frente da catedral, enquanto Quasímodo e Frollo assistem impotentes. Tomado pela dor e pela fúria, Quasímodo mata Frollo jogando-o do alto da torre e depois desaparece.
Anos depois, quando o túmulo de Esmeralda é aberto, encontram dois esqueletos abraçados: o dela, intacto, e o de um homem deformado que havia ido até sua sepultura para morrer ao lado dela — uma última prova de um amor que continuou além da morte.
Megara - Seus Desejos e Sua Verdadeira História

Na animação da Disney, Megara é retratada como uma jovem espirituosa, independente e emocionalmente forte. Porém, a personagem tem origem na mitologia grega, onde sua história é bem mais trágica do que a versão suave mostrada nos filmes.
Na mitologia, Megara era filha do rei Creonte, governante de Tebas, o que a torna efetivamente uma princesa tebana. Hércules (ou Heracles, em grego) recebeu Megara como esposa em recompensa por ter libertado Tebas de seus inimigos. Diferente da narrativa romântica da Disney, o casamento começa mais como um prêmio honorífico do que como uma história de amor — embora, depois, eles desenvolvam um relacionamento verdadeiro. Juntos, eles têm filhos.
É então que ocorre a grande tragédia. Hera, deusa que odiava Hércules por ele ser fruto de uma traição de Zeus, provoca nele um ataque de loucura. Dominado pela insanidade, Hércules mata seus próprios filhos — e, dependendo da versão do mito, Megara também. Esse evento marca profundamente o herói, levando-o a buscar redenção por meio de seus famosos Doze Trabalhos.
Existem diferentes versões do mito sobre o destino de Megara. Em algumas tradições, ela também morre junto dos filhos nas mãos de Hércules. Em outras, ela sobrevive, mas é abandonada pelo herói e posteriormente dada em casamento a Iolau, sobrinho de Hércules. Em certas versões tardias, há relatos de que Megara e Iolau tiveram uma filha de nome Lipéfile, embora essa parte não seja unanimidade entre os relatos clássicos.
Assim, ao contrário da animação, a verdadeira Megara é uma figura trágica da mitologia: uma princesa marcada pela violência, pela loucura divina e pela destruição de sua família.
Pocahontas - A Guerreira e o Seu Escudo

A história real de Pocahontas está muito distante da narrativa romântica apresentada pela Disney. Em vez de um conto de amor entre culturas, sua vida foi marcada por conflitos, manipulação política e consequências trágicas do colonialismo europeu.
Historicamente chamada Matoaka (Pocahontas era um apelido), ela tinha cerca de 10 a 12 anos quando conheceu John Smith, que tinha aproximadamente 27–28 anos. Não houve romance entre eles: a ideia de um relacionamento amoroso foi criada posteriormente por relatos do próprio Smith, que muitos historiadores consideram exagerados ou inventados. O episódio em que ela “salva” John Smith é amplamente questionado — pode ter sido um ritual cultural, pode não ter acontecido, ou pode ter sido narrado de forma distorcida pelo inglês.
Mais tarde, durante tensões entre os colonos e os povos indígenas, Pocahontas foi sequestrada pelos ingleses para forçar negociações com sua tribo. Durante o cativeiro, ela foi convertida ao cristianismo e recebeu o nome de Rebecca. Acabou se casando com o fazendeiro inglês John Rolfe, em um casamento que, embora tenha sido visto como uma tentativa de conciliar relações, também teve forte caráter político. Eles tiveram um filho chamado Thomas Rolfe.
Pocahontas foi levada para a Inglaterra como símbolo de “sucesso da colonização” e prova de que os povos indígenas poderiam ser “civilizados” pelos europeus. Porém, sua saúde não resistiu ao clima, à nova alimentação e às doenças europeias. Ela morreu na Inglaterra, com cerca de 21 anos, antes de conseguir voltar à sua terra e rever a família.
Sua morte enfraqueceu alianças e intensificou conflitos, contribuindo para novas guerras e sofrimento do seu povo. Assim, longe de um conto de fadas, a história de Pocahontas revela um capítulo doloroso do impacto colonial sobre povos indígenas.
Elsa - Um Poder Que Afasta
Embora Frozen apresente Elsa como uma rainha solitária, porém bondosa, a obra que inspirou o filme é bem mais sombria. Na história original, não existe Elsa, Anna nem Kristoff: a narrativa gira em torno de duas crianças, Gerda e Kai, que têm uma amizade profunda (em algumas interpretações, quase como irmãos).
No conto, seres malignos criam um espelho mágico capaz de distorcer e corromper tudo o que reflete, revelando apenas a feiura do mundo. Esse espelho se quebra, e fragmentos minúsculos se espalham pelo ar. Um deles entra no olho de Kai e outro em seu coração, fazendo-o enxergar tudo com frieza e desprezo.
É então que surge a verdadeira figura que inspirou Elsa: a Rainha da Neve, uma entidade poderosa, fria e distante, que leva Kai para seu castelo gelado. Determinada a salvá-lo, Gerda inicia uma longa e dolorosa jornada através de florestas, tempestades e perigos. No caminho, recebe ajuda de diversos personagens, incluindo uma menina ladra (não há Kristoff nessa história).
Quando finalmente encontra Kai, Gerda chora sobre ele. Suas lágrimas quentes derretem o gelo do coração do garoto e expulsam os fragmentos do espelho, devolvendo-lhe a humanidade. Diferente do que muitos acreditam, a Rainha da Neve não é derrotada em batalha; ela simplesmente perde seu poder sobre Kai quando o amor de Gerda prevalece. Os dois retornam para casa, transformados pela experiência.
Mulan - O Sacrifício

A história de Hua Mulan é uma das mais antigas e emocionantes narrativas da tradição chinesa. Diferente de muitas princesas da Disney, Mulan realmente tem origem em um poema histórico, conhecido como “A Balada de Mulan”, datado aproximadamente do período da Dinastia Wei do Norte (séculos V–VI).
Na canção original, Mulan descobre que seu pai idoso foi convocado para a guerra. Temendo por sua vida, ela toma uma decisão corajosa: veste-se como homem, assume o lugar dele no exército e luta durante anos, provando coragem, inteligência e honra. Ao final da guerra, Mulan recusa recompensas e títulos imperiais, preferindo voltar para sua família e para sua vida simples. Quando seus companheiros descobrem que ela era mulher, ficam apenas surpreendidos — mas a respeitam profundamente.
Com o passar dos séculos, a lenda ganhou novas versões, cada uma reinterpretando seu destino de maneira diferente: algumas mantêm o final feliz; outras acrescentam tons mais trágicos. Porém, todas mantêm um elemento central: Mulan é símbolo de coragem, devoção à família e força feminina.
Alice - Um Mundo Quase Perfeito
Ao contrário do que muitos acreditam, “a verdadeira história sombria de Alice” não vem de registros históricos nem do livro original. Essa versão que circula na internet narra que Alice seria uma menina internada em um sanatório, vivendo abusos e criando o País das Maravilhas como fuga psicológica. Nessa interpretação, cada personagem representaria pessoas e situações do hospital: a diretora cruel como Rainha de Copas, o enfermeiro traiçoeiro como Gato de Cheshire, colegas de internação como o Chapeleiro, a terapeuta como a Lagarta Azul e os frascos “Coma-me” e “Beba-me” como medicamentos fortes.
Essa narrativa tenta reinterpretar a obra como um reflexo de sofrimento emocional extremo, transformando o País das Maravilhas em um mecanismo de defesa mental. No final dessa versão, Alice é submetida a tratamentos violentos e a história termina de maneira trágica, sendo depois “imortalizada” pelas anotações de uma enfermeira que registrava suas histórias.
Tinker Bell - Amigo ou Inimigo?

Sininho sempre foi apresentada pela Disney como uma fadinha ciumenta, mas leal a Peter Pan. Porém, a versão original criada por J. M. Barrie é bem menos encantada do que a que conhecemos. Na obra literária, Tinker Bell nem sempre é doce: ela é impulsiva, egoísta, agressiva e chega a tentar matar Wendy movida por ciúmes, manipulando os Garotos Perdidos para atacarem a menina.
Já Peter Pan está longe de ser apenas o herói aventureiro e livre. No livro original, ele é descrito como um ser emocionalmente frio, imaturo e por vezes cruel. Há um trecho famoso em que Barrie sugere que, quando os Garotos Perdidos começam a crescer — algo proibido na Terra do Nunca — Peter “dá um jeito neles”. Muitos estudiosos interpretam isso como um eufemismo para assassinato, reforçando a ideia de que Peter não é apenas uma criança inocente, mas uma figura perigosa e sombria.
Assim, na história original, tanto Peter quanto Sininho não são vilões demoníacos, mas certamente estão muito além da imagem mágica e pura que a Disney escolheu mostrar.
Ariel - Um Desejo de Amor

A história de Ariel na Disney é apresentada como um conto de romance e esperança, mas a versão original escrita por Hans Christian Andersen é muito mais sombria e dolorosa. Na obra literária, a jovem sereia não apenas “cede sua voz”: sua língua é arrancada pela Bruxa do Mar, e por isso ela perde a fala para sempre. O preço de se tornar humana não é apenas emocional; cada passo que dá com suas novas pernas provoca uma dor lancinante, como se estivesse andando sobre lâminas afiadas.
Enquanto na adaptação da Disney Ariel precisa conquistar o amor do príncipe em três dias para voltar a ser sereia, no conto original a condição é bem mais cruel: se o príncipe não corresponder seu amor e se casar com ela, a sereia simplesmente deixará de existir. O príncipe, porém, acaba se apaixonando por outra mulher, acreditando que foi ela quem o salvou de um naufrágio.
A sereia recebe então uma última chance: poderia desfazer sua tragédia se tirasse a vida do príncipe, mas, incapaz de cometer tal ato, decide não fazê-lo. Com isso, ela enfrenta um destino trágico — não há final feliz como no filme. No entanto, Andersen acrescenta um elemento espiritual: ao invés de apenas desaparecer, ela se transforma em um “Espírito do Ar”, ganhando uma última possibilidade de alcançar uma alma imortal por meio de boas ações.
Chapeuzinho Vermelho - A Inocência
A simples história da menina de capa vermelha atravessando a floresta até a casa da avó esconde uma origem muito mais sombria do que a maioria das pessoas imagina. Conhecida em algumas adaptações por nomes como Ruby, Valerie, Hayley ou Ariane, a personagem surgiu em contos destinados principalmente a alertar jovens meninas sobre os perigos de confiar em estranhos e se afastar da segurança do lar.
Antes de existir o conto escrito por Charles Perrault e muito antes das versões infantis, circulava na França uma história transmitida oralmente chamada “The Story of the Grandmother” (Le Conte de la Mère-Grand). Essa é considerada a forma mais antiga e mais pesada do conto — e, diferente das adaptações posteriores, não tem fantasia romântica, não tem moral suave e não tem final feliz.
Na versão mais antiga do conto — anterior até mesmo ao famoso registro dos Irmãos Grimm — o lobo não apenas engana a menina, como também devora sua avó e a substitui para enganá-la. Em alguns relatos folclóricos, a história assume tons ainda mais macabros, sugerindo que a criança é levada a participar, sem saber, das consequências da crueldade do animal. Depois disso, o lobo a convence a se aproximar e, quando ela percebe o perigo, já é tarde demais.
Sem final feliz, essa primeira versão termina com Chapeuzinho sendo devorada, simbolizando a perda da inocência. Somente nas versões posteriores — especialmente a de Charles Perrault e, mais tarde, a dos Irmãos Grimm — passaram a surgir finais onde a menina é salva por um lenhador, trazendo a moral de forma menos brutal e mais educativa.
2 Comentários
Olá!
ResponderExcluirNossa, que histórias mais sinistras. E tristes também. Chorei aqui com a da Mulan, minha personagem favorita de todos os tempos!
Amei o post. Parabéns pela pesquisa *-*
Beijinhos e boa semana.
Isabelle
https://livrosgatoscafe.wordpress.com/
Eu adoro ler essas versões de histórias de contos de fadas, sejam elas as verdadeiras histórias ou apenas fruto da imaginação fértil - e perversa - das pessoas haha. Seu post fez viajar, pois tem umas histórias de bizarras. Esses dias estava vendo um vídeo falando sobre os "problemas psiquiátricos do Ursinho Pooh"!
ResponderExcluirMas a verdade é que eu também gosto de ir atrás da história verídica. Por exemplo: o ursinho Pooh é baseado num urso de verdade e que foi comprado por um soldado. A história real da Alice também é muito doida porque o autor da história era meio que obcecado por menininhas, entre elas a Alice o.O
Em fim, a gente vai longe nessas especulações! :)
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