Divindades do fogo, das chamas e do calor (Parte 2)




Grano


  Na mitologia celta, Grano é uma deidade associada aos balneários, nascentes termais e ao Sol, sendo frequentemente identificado com Apolo, sob o epíteto Apolo Grano. Seu culto era mais presente na Germânia Superior e na Gália do Norte, muitas vezes em conjunção com outras divindades, como Sirona e Marte.
 O deus também estava ligado a rituais de fogo e fertilidade. No início do século XX, relatos indicavam que ainda se lembrava de Grano em cantos entoados ao redor de fogueiras na região da Auvernia. Durante esses rituais, um feixe de cereal era colocado no fogo e chamado de “Granno Mio”, enquanto os participantes entoavam: "Grano, meu amigo; Grano, meu pai; Grano, minha mãe".
 Essas tradições refletem a ligação de Grano com a energia vital do sol, a purificação pelo fogo e a fertilidade agrícola, características centrais em muitas divindades celtas solares.

Belenus


  Belenus, também conhecido por diversos nomes como Belen, Belinus, Bellinus, Belenos, Belennos, Bel, Bilé, é uma das principais divindades do panteão celta, reconhecido como “O Deus Brilhante”. Ele está associado à luz, ao fogo e ao calor do Sol, sendo frequentemente considerado patrono das chamas e dos poderes restauradores da luz solar.
 Seus símbolos tradicionais incluem o cavalo e a roda, reforçando sua ligação com o movimento, a energia vital e a fertilidade. Um dos festivais mais importantes dedicados a Belenus é Beltane, celebrado no dia 1º de maio. Durante Beltane, acendiam-se fogueiras para invocar o calor do Sol, e o gado era conduzido entre elas antes de ser solto nos pastos da primavera, em rituais que misturavam proteção, purificação e fertilidade.
 Belenus também aparece como divindade pastoral, associado a gado e ovelhas, e em algumas tradições irlandesas é considerado deus da morte e marido da deusa Dana. Referências druídicas indicam que ele seria responsável pela “centelha”, fonte de luz, inteligência ou energia criativa.
 Na literatura céltica, como em The Mabinogion, Belenus tem paralelos com o deus Beli, associado à luz e à linhagem divina, sendo pai de Bran, o Abençoado, e avô de Llud, equivalente britânico de Lugh. Sua figura reflete tanto a autoridade suprema quanto o poder criador e restaurador da luz solar no mundo natural e espiritual.

Bastet


 Na mitologia egípcia, Bastet (também conhecida como Bast, Ubasti, Ba-en-Aset ou Ailuros, palavra grega para “gato”) é uma deusa solar, protetora das mulheres, da fertilidade e guardiã dos lares. Além disso, sua influência se estendia aos eclipses solares, reforçando sua conexão com a luz e o poder do Sol.
 Bastet está presente no panteão egípcio desde a II Dinastia e era frequentemente representada como uma mulher com cabeça de gato, segurando o sistro, instrumento musical sagrado, e por vezes adornada com colares, brincos ou cestos para suas crias. Em algumas tradições, podia aparecer como um gato completo.
 Em certas representações, Bastet se confunde com Sekhmet, a feroz deusa-leoa do castigo, que executou a ordem de Rá de punir a humanidade. Para impedir a destruição total, Rá precisou embebedá-la com vinho, cuja cor lembrava sangue. Apesar dessa conexão, Bastet era eminentemente associada ao Sol, à proteção e à fertilidade, sendo vista como guardiã da vida, da alegria e da harmonia familiar.
 Durante o período greco-romano, o nome “Bastet” tornou-se mais comum, embora sua forma original provavelmente fosse apenas Bast.

Camaxtli


 Na mitologia Tlaxcalteca, Camaxtli é o deus da caça, da guerra, da esperança e do fogo, sendo reconhecido como o inventor das chamas. Considerado um dos quatro deuses criadores da Terra, Camaxtli desempenha papel central na criação e proteção do mundo natural e humano.
 Entre os Chichimecas, ele era venerado como deus tribal, protetor de guerreiros e caçadores, garantindo sucesso nas batalhas e fartura nas caçadas. Sua associação ao fogo reforça o poder transformador e vital da divindade, símbolo de energia, purificação e renovação.
 Camaxtli representa, assim, a força vital e combativa da natureza, unindo guerra, caça e criação em uma única divindade sagrada para os povos do México antigo.

Hades


  Na mitologia grega, Hades é o deus do Mundo Inferior e soberano dos mortos. Equivalente ao deus romano Plutão, seu nome não designa apenas a divindade, mas também o reino subterrâneo que governa. Por vezes é associado a Serápis, divindade de origem egípcia reinterpretada pelos gregos.
 Filho de Cronos e Reia, Hades pertence à chamada “segunda geração” de deuses olímpicos, sendo irmão de Zeus, Posídon, Hera, Deméter e Héstia. Após a derrota dos Titãs, recebeu o domínio do submundo como sua parte na divisão do cosmos.
 É amplamente conhecido pelo episódio em que toma Perséfone, filha de Deméter, para ser sua esposa. A união, além do aspecto mítico, simboliza a relação entre a fertilidade da terra e as profundezas subterrâneas que guardam riquezas minerais e as sementes — metáfora que liga vida e morte.
 Apesar de ser uma das figuras centrais da cosmologia grega, Hades costuma ocupar um papel discreto nas narrativas, pois suas funções frequentemente se desdobram em outras divindades como Tânato (morte) e as Queres (entidades que recolhem almas guerreiras). Era temido e raramente invocado pelo nome, sendo substituído por eufemismos como Plutão, associado à riqueza do subsolo.

Creidhne


  Na mitologia irlandesa, Creidhne é um dos grandes artífices divinos dos Tuatha Dé Danann, filho da deusa Brígida e de Tuireann. Especialista no trabalho com bronze, latão e ouro, ele é lembrado como um mestre artesão sagrado, responsável por criar armas e artefatos de extraordinária perfeição.
 Junto de seus irmãos Goibniu e Luchtaine, formava o grupo conhecido como Trí Dée Dána (“os três deuses da arte”), célebres pela habilidade em forjar as armas que permitiram aos Tuatha Dé Danann lutarem contra os Fomorianos. Entre suas obras mais notáveis está a mão de prata do rei Nuada, criada em parceria com o deus da cura Dian Cecht, permitindo que o soberano recuperasse honra e poder após perder o braço.
 Creidhne é, por vezes, confundido com a guerreira irlandesa Creidne, embora sejam figuras distintas. Seu papel destaca o valor da arte sagrada, do metal como força divina e da inteligência técnica no mundo mítico celta.

Hefesto


  Na mitologia grega, Hefesto é o deus do fogo criador, dos ferreiros, da metalurgia, da tecnologia e dos vulcões. Filho de Zeus e Hera, era responsável por forjar as armas e artefatos divinos dos deuses do Olimpo. Diferente da maioria dos deuses gregos, Hefesto era descrito como manco, característica que o tornava fisicamente imperfeito aos olhos dos gregos antigos, mas que ressaltava ainda mais sua genialidade técnica e habilidade incomparável.
 Servindo como ferreiro dos deuses, ele era amplamente cultuado nos centros manufatureiros da Grécia, especialmente em Atenas, e tinha seu principal centro de devoção na ilha de Lemnos, onde também se associava à força dos vulcões. Seus símbolos mais marcantes são o martelo, a bigorna e a tenaz, representando o domínio sobre o metal e o fogo.
 Entre suas grandes criações estão a égide de Zeus, armaduras lendárias, autômatos metálicos que trabalhavam em suas oficinas e um magnífico palácio de bronze repleto de engenhos mecânicos. Foi também de suas forjas que surgiu Pandora, a primeira mulher mortal criada pelos deuses.

Goibniu


 Na mitologia celta, especialmente na tradição irlandesa, Goibniu é o poderoso deus ferreiro dos Tuatha Dé Danann, associado à metalurgia, à ourivesaria e à fabricação de armas sagradas. Ele faz parte da tríade divina conhecida como Trí Dée Dána (“os três deuses da arte”), ao lado de Creidhne e Luchtaine, mestres artesãos responsáveis por criar armas e ferramentas de poder extraordinário.
 Goibniu não era apenas um artesão comum, mas um ferreiro mágico. As armas que forjava eram perfeitas, sempre certeiras e impossíveis de falhar, desempenhando papel fundamental na batalha dos Tuatha Dé Danann contra os Fomorianos. Além de suas habilidades na forja, também está ligado à culinária sagrada e às bebidas ritualísticas: ele era associado à cerveja e hidromel divinos, capazes de garantir cura, invulnerabilidade e até imortalidade a quem os consumisse. Por isso, também é lembrado como o anfitrião do lendário Banquete Sagrado.
 Ele é filho de Brígida, deusa da poesia, cura e forja, e de Tuireann. Na mitologia galesa, seu equivalente é Govannon. Sua figura reforça a importância da técnica, do trabalho artesanal e do fogo criador dentro da espiritualidade celta, representando o poder transformador do metal e da chama.

Ometecuhtli


 Na mitologia asteca, Ometecuhtli é uma das divindades mais elevadas e complexas do panteão. Seu nome significa “Senhor da Dupla Dualidade” ou “Senhor do Dois”, e ele representa o princípio supremo da existência. É frequentemente associado ao conceito de origem, criação, equilíbrio cósmico e dualidade essencial do universo.
 Ele forma uma unidade divina com Omecíhuatl, sua contraparte feminina. Juntos, são chamados de Ōmeteōtl, a divindade dual primordial, simbolizando a união entre masculino e feminino, matéria e espírito, ordem e caos, vida e morte — forças complementares que sustentam a realidade. Dessa dualidade nasceriam outras divindades importantes e, consequentemente, toda a criação.
 Além de ser considerado o deus supremo e criador, a tradição também atribui a Ometecuhtli a criação do ser humano e a domesticação do fogo, elemento essencial para a sobrevivência e desenvolvimento das civilizações. Ele habitaria o mais alto dos céus, o Omeyocan, o “Lugar da Dualidade”, um plano sagrado inacessível à maior parte das divindades e totalmente separado do mundo terreno.
 Mesmo sendo uma divindade central e metafísica, Ometecuhtli não possuía templos populares nem culto cotidiano entre o povo comum. Sua veneração era mais filosófica e sacerdotal, ligada ao entendimento da ordem do cosmos e ao papel da humanidade dentro dele.



 Rá (ou Re) é uma das divindades mais importantes da mitologia egípcia, considerado o deus do Sol, da criação, da ordem cósmica e da vida. Ele era visto como a própria manifestação do Sol no céu e personificação da luz que sustenta o mundo, sendo frequentemente associado ao poder real, à realeza divina e à manutenção do universo.
 Era representado geralmente como um homem com cabeça de falcão, coroado pelo disco solar envolto por uma serpente — símbolo de proteção e poder. Em outras representações, aparece como um homem totalmente humano com o disco solar ou como um gato à noite, defendendo o mundo espiritual das forças do caos.
 Segundo a cosmogonia heliopolitana, Rá surgiu do caos primordial das águas de Nun e criou os outros deuses. De seu próprio corpo nasceram Shu (ar) e Tefnut (umidade); destes vieram Geb (terra) e Nut (céu), que por sua vez geraram Osíris, Ísis, Seth e Néftis, estabelecendo assim a grande linhagem divina egípcia.
 Rá percorria o céu diariamente em sua barca solar, iluminando o mundo. À noite, viajava pelo Duat (mundo subterrâneo), enfrentando perigos, especialmente a serpente do caos Apófis (Apep), garantindo que o Sol renascesse a cada manhã. Seu ciclo simboliza renovação, vida, ordem e vitória sobre as trevas.



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